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E esse tal de aborto paterno?

por Helena Bertho
12 de agosto de 2019
Abandono paterno não é o mesmo que aborto masculino. E essa comparação enfraquece dois debates muito importantes.
Seria ótimo se homem cisgênero pudesse engravidar como Arnold Schwarzenegger no filme “Junior” (Imagem: Reprodução)

Aborto paterno. Ele não existe. Vou explicar porquê. 

Dia dos Pais, as redes sociais se dividiram em dois grupos de postagens: metade era homenagem aos pais, outra metade era de críticas ao abandono paterno. Nesse segundo grupo, uma enormidade de gente falando do tal “aborto masculino”, que enquanto mulheres não tinham direito de decidir ter ou não filhos, homens podiam “abortar” e esquecer que um dia participaram da geração de uma vida.

Acho importante entender que abandono paterno não é o mesmo que aborto masculino. São duas coisas bem diferentes. 


Vamos começar pelos significados, segundo o Michaelis.

Abandono: “Ato ou efeito de desistir, renunciar, deixar para trás; afastamento, desistência, renúncia”, ou ainda: “estado ou condição do que é ou se encontra abandonado; desleixo; negligência”. 

Aborto: “Interrupção prematura, natural ou artificial, do processo de gestação causando a expulsão do feto antes que este possa sobreviver fora do útero”.

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Quando falamos de aborto, estamos falando de uma coisa bem específica, que é o poder da mulher de decidir sobre o próprio corpo. Um homem cisgênero jamais vai poder abortar, porque ele nunca vai engravidar. 

Parece besteira discutir se abandono é a mesma coisa que aborto, mas é importante sim. Porque essa comparação enfraquece dois debates muito importantes: o da descriminalização do aborto e o da responsabilidade masculina com os filhos

Mulheres também podem abandonar seus filhos. Tanto formalmente, entregando-os para a adoção após o nascimento, quanto deixando a criança com outra pessoa e desaparecendo. Mas não é algo muito recorrente. Desse assunto eu não sou entendida, então não vou me aprofundar nele. Mas basta pensar em quantas crianças você conhece que foram abandonadas pelo pai. Agora liste quantas você conhece que foram deixadas pela mãe.

O importante aqui é saber: mulheres também podem abandonar seus filhos. Mas quem abandona, em geral, são os homens.

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Já o aborto, só cabe às pessoas com útero. E quando a gente diz que o abandono paterno é um aborto masculino, a gente está equiparando essas duas coisas. Oras, então se é o mesmo, porque a mulher precisa interromper a gestação? Basta ela fazer o mesmo que o pai e renunciar à criança, não?

Essa, inclusive, é a linha de argumentação de muitos movimentos contrários ao aborto, divulgando e fortalecendo o programa de Entrega Legal de bebês para adoção. 

Sou só eu que acha loucura estimular que as pessoas tenham filhos para abandonar?

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Mas mesmo com essa possibilidade, a mulher que tem uma gravidez indesejada vai ter que passar por tudo o que significa a gravidez, desde as mudanças físicas, até as emocionais; por um parto e depois pelo movimento de entregar o bebê para adoção. Nada disso é simples. Nada disso é parecido com simplesmente ignorar a mulher que te conta que está grávida e desaparecer. 

É por isso que muitas de nós defendemos o direito ao aborto. Para poder escolher. Já podemos escolher se vamos ou não criar um filho gestado, mas queremos também poder escolher se vamos ou não viver a gestação. E isso, homem cisgênero nenhum vai encarar. 

É essencial falar sobre essa possibilidade de escolha. Assim como é essencial falar da responsabilidade das pessoas que colocam um filho no mundo. E também da responsabilidade que vem antes disso: a da contracepção. 

Os homens cis têm que participar muito mais dessas duas responsabilidades, a de prevenir a gravidez e a de assumir a responsabilidade quando ela acontece. 

É muito fácil dizer que a camisinha incomoda e depois sumir.

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Seria incrível se homens cisgêneros pudessem engravidar e, portanto, abortar. Primeiro porque o aborto já seria legal. Segundo, porque eles finalmente entenderiam o peso da contracepção. 

Mas eles não podem. Então abandonam os filhos. E a nós cabe criar essas crianças sozinhas, ou passar pelo trauma de uma gravidez indesejada ou ainda morrer tentando abortar ilegalmente. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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