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Mulher negra com cabelos longos trançados e aparelho ortodôntico
9 de junho de 2026

Mulheres na tecnologia: da invisibilidade à disputa pelo futuro digital

De Ada Lovelace à inclusão digital, mulheres transformam tecnologias em autonomia, comunidade e participação política

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Ilustração mostra uma fotografia em preto e branco de uma pessoa com cabelos crespos e volumosos, vestindo roupa escura, parcialmente encoberta por um cabo USB colorido em azul e rosa que atravessa seu rosto. A imagem está sobre uma superfície cinza com iluminação em tons azulados e roxos. O contraste entre o retrato humano e o conector digital sugere temas como tecnologia, identidade, conexão, vigilância ou os impactos das plataformas digitais sobre a vida das pessoas.

Neste nosso primeiro encontro, quero te contar sobre a importância das mulheres na história da tecnologia. Te convido para essa viagem ao passado para mostrar a dimensão e a importância das mulheres cada vez mais se apropriarem das tecnologias digitais e protagonizarem esse debate. Ainda que invisibilizadas na História, mulheres também inventaram ferramentas que são úteis até hoje. Elas lideraram pesquisas científicas e tecnológicas que transformaram o mundo e nossas vidas, mas não foram devidamente creditadas.

Já ouviu falar de Ada Lovelace? E o Google Maps, já usou?

Pois bem, a Ada foi uma matemática inglesa que viveu no século XIX (1815–1852) e é amplamente celebrada como a primeira programadora da história das ciências da computação. Ela é apresentada como um símbolo das conquistas das mulheres na área STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e seu legado é multifacetado, como afirma a cientista Luigia Aiello, no artigo The multifaceted impact of Ada Lovelace in the digital age.

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Feminismo bem informado

Em História Preta das Coisas, a doutora em química Bárbara Carine Pinheiro nos conta que o GPS (sigla em inglês para Sistema de Posicionamento Global) foi uma invenção de Gladys Mae West (1930–2026). Ela nasceu nos Estados Unidos e foi uma cientista da Matemática com uma carreira de destaque. Gladys trabalhou na base naval da Divisão de Dahlgren, onde manejava o projeto radar SEASAT – um sistema que coletava e processava dados de localização espacial dos satélites em órbita, além de alimentar bases de dados com informações como os níveis dos oceanos e das áreas geladas.

Após o sucesso dessas pesquisas, Mae West e sua equipe usaram dados de um satélite chamado GEOSAT para criar um modelo geodésico da Terra muito mais próximo da realidade. Eles fizeram medições das dimensões do planeta, bem como do seu campo gravitacional (a região do espaço em torno da Terra) e sua rotação. E foram esses cálculos que ajudaram a criar o sistema do GPS.

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A inovação também está na inclusão

Nem sempre a grande inovação tecnológica está na ferramenta em si, mas no processo, especialmente no processo de inclusão. É o que faz a atriz e cientista Angelica Ross, que aprendeu a programar e criou a TransTech Social Enterprises em 2014, cuja missão é construir soluções e criar oportunidades para a comunidade LGBTQIAPN+.

Pensar a tecnologia como oportunidade de inclusão e formação de comunidade é também o que fazem, no Brasil, iniciativas como o ResistEnem, um cursinho preparatório para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Cofundado pela paraense Norah Costa em 2020, o curso gratuito é sediado no WhatsApp, com salas de aula dentro do próprio aplicativo.

E tem ainda a Mãe Beth de Oxum, pernambucana, yalorixá de candomblé e percussionista, criadora do Ponto de Cultura Coco da Umbigada que abriga o Lab Coco, um laboratório multimídia para produção de tecnologias. Inclusive, para Mãe Beth, pensar as tecnologias é também dar sentido às nossas existências:

No candomblé, os três elementos que dão sentido à vida são a terra, a água e o ar. O ar é a comunicação. E nós precisamos nos comunicar seja pelo rádio, pelo computador, por onde der para soprar nossas palavras (…)

Também em Recife, existe o Pajubá Tech, uma startup liderada pela Luana Barbosa, que é desenvolvedora de sistemas. O Pajubá busca descentralizar o debate sobre tecnologia e diversidade para a inclusão de pessoas trans no mundo do trabalho por meio da tecnologia.

Por fim, mas não menos importante, quero contar que em 2024 a pesquisadora e advogada Terezinha Alves Brito lançou um podcastsobre a internet na Amazônia. O projeto foi idealizado e realizado por ela, mas contou com a participação de muitas outras pessoas, abrindo o debate sobre a realidade da região pela ótica da conectividade.

São exemplos muito próximos de nós.

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O imaginário sobre tecnologia ainda é estreito

Pois bem, eu abri esse texto contando dessas experiências para que todas nós possamos compreender a importância de nos aproximarmos tanto das tecnologias em si, quanto das rodas de conversa que estão debatendo essas tecnologias. Porque mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ desenvolvem tecnologias desde sempre, mas nem sempre isso é apresentado de formas que nos deem senso de possibilidade e evidenciem que é possível fazer.

Se vocês procurarem por “mulheres importantes na tecnologia”, aparecerão dezenas de notícias que apresentam em torno de 10 mulheres que se destacaram ao longo dos séculos. Ou seja, ainda que o serviço dessas notícias seja muito bom e importante, mesmo assim ainda são poucas as mulheres referenciadas em suas inovações.

Por exemplo, você já parou para pensar no quão inovadoras foram as mulheres das suas famílias no uso das tecnologias disponíveis em cada época? Para ilustrar com um exemplo recente: em meio à tragédia da pandemia de Covid-19, as mulheres deram um show de adaptação, inovação e apropriação das tecnologias, como as lives e demais ferramentas de streaming.

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Falar de tecnologia em ano eleitoral é ainda mais urgente

Acredito que para a audiência da Revista AzMina e para nossa própria fé na humanidade, não caberia mais falarmos que lugar de mulher é onde ela quiser. Mas eu me sinto devaneando quando a realidade é que o avanço do conservadorismo é uma ameaça à nossa autonomia. Como 2026 é mais um ano decisivo no campo das Eleições, é importante entendermos o manejo destas ferramentas, combater os possíveis danos de forma preventiva e construir ambientes digitais regulados, seguros e democráticos.

O vocabulário às vezes é hostil, eu sei disso, e nem sempre ajuda a entendermos os fenômenos digitais. Ainda por cima tem um glossário gringo que dificulta ainda mais a ampla compreensão e participação ativa. Deepfakes, fake news, phishing, bets, incel; além de expressões que não são estrangeiras, mas continuam confusas para muitas pessoas: inteligência artificial, regulação de plataformas, ECA Digital, misoginia, racismo algorítmico, etc.

Em um ano de pleito eleitoral mais uma vez polarizado e atravessado pela corrupção informacional, desinformação e notícias falsas, é necessário que esses assuntos estejam nas rodas de conversa. Estão na pauta: a Estratégia Digital do Brasil, a Lei da Misoginia, a regulação das plataformas, a uberização do trabalho, o controle dos corpos por meio de aplicativos que parecem inofensivos, mas que são verdadeiros “chupa dados”. E tudo isso tem ligação direta com nossas vidas práticas, nosso dia a dia e com o futuro político do Brasil.

Esse ano vai ser barra. Vamos conversar sobre essas camadas, as dimensões e os impactos dessas linguagens em nossas vidas, para que, como cantava Gonzaguinha, “não fiquemos expostos na janela”. Convido a gente para espalhar o que conversarmos aqui ao longo de 2026, para nos formarmos, aprendermos e transformarmos juntas as nossas realidades e das milhares de pessoas que ainda estão em situação vulnerável.

Seguimos!

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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