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Existe prazer além do orgasmo, sim

por Helena Bertho
6 de maio de 2019
Vou me explicar melhor: transar é bom mesmo sem gozar, mas isso não é desculpa para ignorar o prazer da mulher
Transar pode ser como viajar pelo litoral do Nordeste: independente do destino, o que não faltam são praias maravilhosas no caminho (Foto do arquivo pessoal)

Há algumas semanas, publiquei uma coluna em que falava que “se não for para gozar, prefiro ficar comendo brigadeiro e vendo série”. Desde então, foram muitas as amigas que vieram falar comigo sobre como discordam desse texto. Todas dizem: gozar não é o único objetivo do sexo, a gente pode aproveitar o prazer, a troca e a conexão que acontecem na relação sexual mesmo sem chegar ao orgasmo.

Pelo visto, eu me expressei mal no meu texto e venho aqui fazer um mea culpa e tentar me explicar melhor. Para começar, devo admitir que escrevi esperando que homens cisgêneros lessem o texto e esqueci que, infelizmente, por ser um veículo feminista, ainda somos lidas majoritariamente por mulheres.

Agora, quero dizer que também acho que não só dá, como é uma delícia aproveitar a transa como um todo, independentemente de um final feliz.

No mundo real, eu prefiro uma boa transa com troca e conexão a ver série ou comer brigadeiro, mesmo que eu não goze. Pode ser maravilhoso, vocês têm toda razão, amigas.

Porque o sexo nos permite um outro nível de estímulo físico e prazer que a gente se nega o tempo todo. É só nesses momentos, quando as coisas estão rolando com honestidade, que a gente se permite expressar fantasias e desejos que, em outros contextos, nos fazem morrer de vergonha.

É só na cama que a gente lembra o tamanho do órgão que é a pele e da enorme possibilidade de sensações que ela tem.

É no sexo que a gente muda a relação com o tempo, permitindo longos respiros e momentos de aceleração que só dizem respeito às pessoas ali envolvidas e não ao ritmo louco do mundo à nossa volta. É nessa hora que  a gente se permite ser frágil, se expor para outra (ou outras) pessoa, no que é mais nosso e honesto.

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E é também na cama que a gente consegue se conectar com a outra pessoa de uma forma mais sincera, literal e metaforicamente despidas de todas as capas de proteção (menos a camisinha, ok?). Quando a gente deixa o celular de lado, tranca a sociedade para fora da porta e se abre para receber e perceber o outro sem julgamento ou medo.

E se permite conectar, trocar de uma forma verdadeira, dando e recebendo estímulos num misto de egoísmo e altruísmo que é difícil viver em qualquer outra situação.

Tudo isso, claro, quando é um sexo legal, com duas pessoas realmente abertas e dispostas a trocar – e não focadas no próprio egoísmo.

E quando isso acontece, não importa mesmo o final, tanto faz gozar ou não. É como viajar de carro pelo litoral do Nordeste, é tudo lindo e maravilhoso e tanto faz se um dia vamos parar em algum lugar.

Eu não trocaria isso nem por uma maratona da minha série favorita. Mas você já tentou viajar com alguém que só quer chegar logo e nem olha para a a paisagem?

O problema é que essa troca nem sempre acontece, por inúmeros motivos, mas um bem comum é o falocentrismo masculino. Esse que nos fez achar por muito tempo que o sexo começa quando um pênis se levanta e acaba quando ele amolece. E com isso em mente, muitos caras nem se permitem uma conexão real, uma troca intensa, etc. Não há esse aproveitamento de caminho, só uma corrida acelerada rumo ao destino final. E esse destino foi ele quem escolheu.

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E para justificar isso, foi criado um discurso de que é normal que mulheres cis não gozem. Que, enquanto o homem cis tem que chegar ao gozo, é natural que nós tenhamos dificuldade para atingi-lo. O que eu quis dizer no outro texto é apenas que discordo disso. Que não é natural que tenhamos dificuldade: é social.

Existem questões físicas e de saúde que podem dificultar que uma mulher cis chegue ao orgasmo, assim como existem disfunções eréteis para os homens cis. Por isso, nesses casos é preciso atenção médica e cuidado.

Mas quando não há um problema de saúde, não é a anatomia do pênis ou da vagina que fazem com que seja difícil gozar. O que está por trás são séculos de construção social em que todo o poder esteve na mão dos homens. Oscar Wilde já disse: “tudo nesse mundo é sobre sexo, exceto sexo. Sexo é sobre poder”.

Um poder que permitiu que existisse uma ciência avançadíssima, conhecedora do interior da célula humana, mas que ignorou a existência do clitóris até uma década atrás. Dizer que é natural que a mulher cis tenha dificuldade de chegar ao orgasmo é só mais uma forma de continuar centrando toda a sexualidade no homem cis.

Longe de mim querer que as pessoas fiquem paranóicas para gozar. Não acho realmente que o sexo só vale a pena se chegar ao orgasmo. Mas também não acho que seja normal mulheres terem dificuldade para gozar.

O caminho vale muito à pena se a troca for real. O problema é que é difícil ter um troca real com alguém que acha que seria da minha natureza não chegar ao ápice do prazer.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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