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Presença de pai é mais importante que de mãe?

por Tayná Leite
17 de agosto de 2018
Tayná Leite questiona estudo que define o abandono paterno como pior. "Rejeição dói! Falta de amor dói! A de pai dói mais?"
Crédito: Pixabay

Antes de começar essa coluna, quero deixar claro que eu sou bastante entusiasta da existência de cada vez mais fóruns de pais para discutir paternidade ativa (que, como bem disse meu amigo Thiago neste vídeo, não deveriam se limitar a discutir somente paternidade ativa e sim todos os assuntos relacionados a ser pai!).

Sou também uma entusiasta da ideia de que homens discutam cada vez mais este assunto e, principalmente, saiam do discurso para a prática, como recentemente aconteceu com a campanha da Dove ManCare, por meio da qual pais se engajaram para pedir o aumento da licença paternidade e discutir o tema de forma talvez inédita.

Mais ainda, sou fã de que pais como o do meu filho – que sequer faz discursos – dividam de fato as coisas no rolê e cumpram suas obrigações sem querer confete por isso.

Dito isto, esta mãe que vos escreve, em mais uma de suas andanças internéticas, se depara com a seguinte manchete compartilhada por um pai influencer: Estudo comprova: figura do pai pode ser mais importante do que a da mãe.

Superado o caça-clique bastante duvidoso, o estudo (e a coluna que o apresenta) me parece constatar o que já sabemos há tempos: “As crianças geralmente sentem mais a rejeição se ela vier do pai. Numa sociedade como a atual, embora o nível de igualdade de gênero tenha crescido muito, o papel masculino ainda é supervalorizado e muitas vezes vem acompanhado de mais prestígio e poder. Por conta disso, pode ser que uma rejeição por parte dessa figura tenha um impacto maior na vida da criança.”

Eu não preciso ler estudo nenhum para saber isso. Basta conversar com as dezenas de pessoas ao meu redor que foram abandonadas (literalmente ou emocionalmente) por seus pais. Basta uma tarde com as amigas mãe solo que choram escondidas tentando consolar seus filhotes da dor de um pai que promete e não cumpre, que não aparece e deixa a criança esperando prontinha na porta.

Eu poderia conversar com meu o marido, ou com pelo menos 50% dos meus amigos mais próximos. Eu poderia falar de mim, que mais que abandonada fui destroçada emocionalmente, e gasto todos os recursos emocionais disponíveis para ser uma pessoa saudável pela vida.

Rejeição dói! Falta de amor dói! A de pai dói mais?

Na minha visão, de quem não apenas estuda maternidade e paternidade há anos, mas está escrevendo um livro sobre, e passa o dia a dia profissional atendendo mulheres exauridas com ou sem o pai de seus filhos ao lado, faltou uma leitura crítica que vem nas entrelinhas do estudo:

  • no mundo todo, o número de pais que abandonam e rejeitam seus filhos é infinitamente maior do que o de mães;
  • quando as mães deixam os filhos com os pais ou avós elas são socialmente execradas: mulheres horrendas, criaturas demoníacas que não cumpriram o papel para o qual foram criadas.

A conjuntura desses dois fatores faz com que ocorram alguns fenômenos que tornam o estudo como um todo tendencioso, e faz com que o compartilhamento desse tipo de estudo seja totalmente desnecessário – senão desonesto.

O primeiro é que o abandono paterno é banalizado. Muitas vezes o pai inclusive “assume” filhos que não são dele, ou tem outros filhos com os quais performa uma paternidade aparentemente presente, e a pessoa rejeitada passa a vida achando que a culpa da rejeição paterna é dela. Logo, evidentemente que ela sofre mais do que quando pode culpar uma mãe que não julga a ideal.

Segundo, sequer existe uma massa crítica que permita uma análise comparativa decente para um tipo de estudo como esse, visto que os números de abandono paterno e materno são incomparáveis e o impacto social disso, idem.

Vamos aos dados

Os últimos dados disponíveis pelo IBGE, e divulgados pelo jornal Folha de S.Paulo no último dia dos pais com a manchete “número de pais que cuida dos filhos sozinhos aumenta 16%”, nos mostra que em apenas 3,6% das famílias brasileiras apenas o pai está presente.

E quando ambos estão presentes, os mesmos dados mostram que 16% afirmam compartilhar das tarefas relacionadas aos filhos de forma igualitária (e ainda acho que se fossem perguntar às mães o que elas acham esse percentual seria menor).

Como comparar 3,6% com mais de 30% (fora os presentes só de corpo)? Como comparar algo que é medido com dois pesos e duas medidas?

Como mãe e militante, esse tipo de coluna é um chute no estômago, especialmente com as mães solo que têm que lidar com o estrago que os homens deixam para trás. Nem todas farão uma análise crítica do estudo ou sequer lerão a coluna. Resultado: mais mães que ou se sentirão uma bosta ainda maior ou ainda mais enraivecidas do que já se sentem.

Talvez seja novidade para os pais influencer, mas a maioria das mães solo (e algumas não solo também) se sente e é culpabilizada pela “escolha” que fizeram do pai para os filhos delas. E ler que a falta de um pai pode ser a pior coisa na vida do filho – aquele cujas lágrimas e a revolta elas já são obrigadas a lidar no dia a dia – é quase cruel.

Como disse no início do texto, sou a maior incentivadora dessas iniciativas de pais e sou inclusive fã de alguns, mas a nova paternidade tem que vir necessariamente acompanhada da compreensão do fardo da maternidade, e do que significa maternidade compulsória, para não fazer esse tipo de análise rasa de um estudo totalmente enviesado.

Compartilhar algo assim sem uma análise mais crítica é um desserviço. Faz mães se sentirem mal, mais solitárias e culpadas, além de resolver um total de zero problemas de abandono paterno.

Pais abandonam filhos porque lhes é permitido, e não porque não há um estudo mostrando que eles fariam falta. Eles sabem e sempre souberam que fariam falta. Eles só não estão se importando com os impactos disso, porque aos homens é permitido pensar neles antes de pensar nos outros. Um estudo e uma coluna pedindo para que eles “amem seus filhos” não vai mudar isso.

Discutir abandono paterno, solidão e exaustão materna, carga mental e a desigualdade do peso dos papéis sociais na maternidade e na paternidade é algo muito mais proveitoso, efetivo e relevante do que um caça-clique que, sem análise, recorte e contexto, fica parecendo só omi fazendo omice mesmo – o que, acredito, não fosse a intenção da página em questão.

Mais do mesmo: a desigualdade e opressão sobre mães é tanta que a gente se fode no rolê se virando nos 30 pra criar a criaturinha cumprindo 100% do que os outros 50% parece esquecer ser sua responsabilidade e ainda ter que ler esse tipo de coisa.

E tem mais: a conclusão da coluna está bem errada.

Não é amor que está faltando não, viu? É participação mesmo!

É pensão em dia, roupa lavada, fraldas trocadas, idas ao pediatra, vacinas em dia, horas de sono para que a mãe não esteja com o humor de uma megera amarga enquanto o pai é aquele ser solar que chega do trabalho para brincar de videogame.

Pode deixar que do amor a gente dá conta!

E como anda faltando amor, mas também muita interpretação de texto, quero deixar claro desde já que não acredito que mãe seja mais importante que pai, nem avô que avó ou papagaio que periquito. Crianças (como seres humaninhos que são) precisam de amor!

E também de comida, roupa, um teto confortável (de preferência), educação, saúde de qualidade e acesso ao brincar, à natureza, à cultura, ao afeto e a um ambiente saudável para desenvolverem-se. E eu acredito que somos todos responsáveis por isso. Todos!

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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