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“Como sobrevivi a um aborto”

por Anô[email protected]
8 de agosto de 2019
Como aborto ainda é crime no Brasil, a mina que senta no Divã hoje conta de forma anônima como decidiu e fez o aborto totalmente sozinha

“Eu sou bissexual. Nunca tomei anticoncepcionais. Só me relacionei com homens que usavam preservativo (mesmo em relacionamentos de anos). Tenho uma vida sexual ativa há mais de 10 anos e nunca havia ficado grávida. Mas, com esse cara era diferente, ele forçava a barra para fazermos sem proteção.

Era tão bom, que acabei cedendo à pressão algumas vezes, em outras mesmo eu insistindo ele fazia sem, já tirou o preservativo sem eu saber também. Isso, inclusive, se chama estupro. Mas, como aceitar que alguém que você realmente gosta está fazendo isso com você?

Tomei algumas pílulas do dia seguinte e pedia pra ele pra usarmos proteção nas próximas vezes. Eu teria mandado embora qualquer homem que fizesse isso comigo, mas não conseguia fazer isso com ele. Eu brigava, ficava chateada. Mas, ele sempre acabava voltando com a promessa de nos cuidarmos.

As pílulas do dia seguinte estavam me afetando negativamente, teve um mês que tomei várias. E elas realmente funcionam. Mas eu sangrava duas vezes ao mês, uma vez fiquei mais de dez dias sangrando. Sem falar que afetava a minha depressão, eu tinha pensamentos suicidas e sentia que piorava o quadro da doença.

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Foi aí que decidi não tomar mais nenhuma pílula do dia seguinte. Mas, é claro, ele continuou insistindo para transarmos sem camisinha. Fazíamos algumas vezes com proteção e outras sem. É uma química louca que tenho com ele. Os dias que passamos juntos, transávamos até cinco vezes em um mesmo dia. Loucura, né?

O preservativo nem sempre estava presente e eu não tinha mais forças para ficar insistindo para ele usar. Eu havia comprado vários, de todos os tipos, para não ter desculpa para não usar. Mas mesmo assim me deixava convencer, ou só ficava segurando o preservativo enquanto ele apressado terminava o que havia começado sem proteção.

Eu não queria tomar anticoncepcionais, porque sempre soube como eles afetam a nossa saúde de uma maneira terrível. Então a melhor opção seria o DIU de cobre. Mas, para colocar um no SUS é uma burocracia enorme e bem demorada. E no particular ficava muito caro e, claro, eu sempre sem dinheiro.

Além disso, para usar esse método a maior parte dos médicos pedem a participação do companheiro – chamam isso de planejamento familiar. Alguns se recusam a colocar em mulheres solteiras, como era o meu caso. SIM, eles são donos dos nossos corpos.

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E os outros métodos, demoram um pouco para fazer efeito. Em torno de 30 dias. O que não resolvia o meu problema. Agora “entendo” porque os homens são tão irresponsáveis com isso e acham que a obrigação de evitar uma gravidez é exclusividade das mulheres. Isso acontece porque só a nossa vida vai ser afetada de verdade. Eles podem só fugir das consequências e seguir a vida como se nada tivesse acontecido.

Se os homens engravidassem teríamos metódos muito mais amigáveis, com certeza.

A descoberta da gravidez

A menstruação atrasou. Eu estava sempre agoniada nos meses anteriores. Mas dessa vez eu estava otimista que não estaria grávida. Qual a chance? Tantas amigas tentando engravidar por tantos meses, sem conseguir. Por que aconteceria comigo? Pensei que era apenas um efeito colateral por ter usado tantas pílulas do dia seguinte. E os sintomas que eu estava tendo eram muito parecidos com a TPM (tensão pré-menstrual).

Só depois consegui perceber algumas sutis diferenças. Meus peitos estavam doloridos, como na TPM, só que dessa vez a dor era mais nos mamilos. Eu tinha cólicas no útero, só que eram ligeiramente diferentes e mais persistentes, sem pausas como eram as da TPM. Eu estava me sentindo enjoada, um pouco tonta.

Me dei conta que podia estar grávida quando passei um creme no corpo antes de dormir e aquele cheiro me incomodou um pouco. Os cheiros estavam mais intensos. E sentia enjoos e uma dor de estômago que não sumia com remédios. Acordava no meio da noite para fazer xixi, o que nunca foi um hábito meu. Também tive mais espinhas no rosto, minha pele parecia mais oleosa.

Com medo de encarar a realidade, eu ficava adiando o teste, na esperança de que eu menstruasse no dia seguinte. Saí do trabalho, passei na farmácia, voltei pra casa apressada, com muitas dúvidas na cabeça. Fui direto para o banheiro. Deu positivo. Na hora. Fiz xixi naquele teste e já apareceu positivo, foi instantâneo. Que desespero.

E agora? Contei pro meu parceiro, que estava deitado na rede na sala. Ele não acreditou. Falou pra fazer exame de sangue. Se negava a acreditar, na verdade. Porque um falso positivo no teste de farmácia é quase impossível.

Mas marquei no outro dia de manhã o exame. Minha cabeça estava a mil. O resultado só sairia no fim da tarde. E saiu. E foi positivo. Mostrando que eu estava de 3 a 4 semanas. Fiz o Beta HCG quantitativo. Era real. Compartilhei o resultado com ele, que só falava que não estava preparado para ser pai. Eu também não estava preparada para ser mãe. Mas a gestação leva nove meses justamente para termos tempo.

A decisão mais difícil da minha vida

Eu havia me apaixonado pela ideia de gerar uma vida. Os hormônios me afetaram muito, estava super sentimental. Chorava por tudo, mesmo antes de descobrir. Alguns dias antes, eu havia conversado sobre isso com esse homem por quem eu estava apaixonada, sobre termos filhos. Sobre a possibilidade de eu estar grávida. Mas como isso parecia algo distante, nós ficamos felizes e falamos sobre isso com alegria, brincamos até sobre como escolheríamos o nome, de como contaríamos para a família.

A gente se conhecia há poucos meses. Ele era de outra cidade. Assim que chegou, os algoritmos nos uniram (sim, seria um filho do Tinder). E foi tudo muito intenso desde então. O que não anulava o fato de eu estar grávida, nesse momento da minha vida, beirava a loucura.

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Eu como boa feminista sempre fui pró-aborto. Sempre tive certeza que somos donas do nosso corpo e somos livres para decidir. E já havia pesquisado sobre isso várias vezes. Então, sabia exatamente como fazer e tinha até um contato aqui da cidade salvo no celular que poderia me ajudar com os remédios (encontrei esse contato no Google e salvei para alguma emergência no futuro, minha ou de qualquer mulher que eu pudesse ajudar).

Na minha cabeça imaginei como seriam os dois cenários. E a única certeza é que estaria sozinha. Sozinha para abortar e sozinha para criar um filho. As questões que mais me torturavam eram que havia sido feito com “amor”. A gente realmente tinha uma coisa bonita juntos.

E eu não estava numa situação vulnerável. Sou independente, pago minhas contas com meu trabalho, moro sozinha e teria condições para criar um filho. Sem falar na minha idade. Quase 28 anos. Uma boa idade para ser mãe, eu pensava.

Tenho algumas amigas que são mãe solo. E elas conseguem. Mas também sei que a vida delas mudou totalmente. Como a minha também mudaria. Também tenho consciência que a maternidade é um desafio enorme. E que isso afetaria todas as áreas da minha vida.

Eu nem tinha certeza se algum dia eu gostaria de ser mãe. Sempre que pensava mais profundamente sobre esse assunto eu inclinava para a opção de adotar uma criança e não ficar grávida.

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E eu estava. Como decidir isso? Sem poder compartilhar isso com ninguém. Na internet encontrei pouco conteúdo sobre como tomar essas decisão. A maioria das páginas que falava sobre isso eram religiosas, e obviamente tentavam me fazer sentir ainda mais culpa.

Fora outros textos bem escrotos escritos por homens. Então, parei com essa busca. Estava sozinha também para decidir. Meu parceiro só disse que não estava preparado para ser pai e sumiu. Como se colocasse uma pressão para que eu não prosseguisse com a gravidez.

Mandei mensagem para pegar os remédios, mandei mensagem cobrando algumas pessoas que me deviam para eu conseguir o dinheiro. E acertei tudo. Contei para o pai da criança, que ficou tão assustado com a notícia de eu estar grávida que me abandonou para tomar a decisão sozinha. Eu queria que ele tivesse me ajudado a decidir e dividisse comigo essa responsabilidade. Mas aparentemente homens não são bons nisso.

Sobre o procedimento

Comprei 8 comprimidos de Cytotec (nome comercial do remédio misoprostol), o meu contato disse que pegava direto do laboratório na Itália. Paguei 100 reais por cada um. Os comprimidos eram brancos e tinham um formato hexagonal, com aparência firme. Deviam ser verdadeiros, eu pensei.

A orientação do aborto seguro da OMS (Organização Mundial da Saúde) é de que sejam usados 12 comprimidos para garantir um aborto completo. Mas eu não conseguiria os 1.200 reais e estava com quatro semanas de gestação, então os oito comprimidos deveriam ser o suficiente.

A médica de quem comprei os remédios sugeriu um método que seriam necessários apenas sete comprimidos. Mas achei mais seguro seguir a orientação mais próxima possível do que a OMS recomendava, mesmo com apenas oito comprimidos.

[Nota da redação: A OMS recomenda que sejam usadas no máximo três doses de 800 mg cada (num total de 12 comprimidos de 200mg) de misoprostol (popularmente conhecido como Cytotec), por via sublingual ou vaginal, com intervalo de três horas entre as doses]

Me preparei comprando vários absorventes noturnos. Era um fim de semana com feriado prolongado, que seria adequado para a minha recuperação até ter que voltar ao trabalho. Era naquele momento ou não seria mais.

Pedi para que toda a força feminina estivesse comigo naquele momento e me protegesse. Porque os medos eram muitos. Morrer, ser presa, os remédios serem falsos, ou sequelas ao bebê caso ele continuasse no meu ventre. E eu sabia que essa decisão também estaria comigo pra sempre.

Então escolhi um horário. Me alimentei um pouco, comida leve, tomei bastante água e coloquei dois comprimidos de cada lado da minha boca, entre os dentes e a bochecha. Aguardei meia hora até que meu corpo absorvesse e engoli o que sobrou. Dentro de três horas eu tomaria a segunda dose.

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O tempo havia passado e eu não tinha nenhum sintoma. Logo depois da segunda dose, que administrei da mesma forma que a primeira, comecei a sentir os sintomas. E foi tudo igual aos relatos e orientações que encontrei na internet. Enjoos, cólicas intensas, diarréia e, por fim, sangramento, com alguns coágulos grandes.

A dor ficou bem grande e tomei um remédio para a dor, que ajudou. E para aliviar os enjoos eu colocava gelo na língua. Eu dormi entre uma dose e outra, colocava o despertador de três em três horas para poder conferir se estava tudo bem.

Fiz isso sozinha na minha casa. Apenas pedi para um amigo ficar perto do celular para caso eu tivesse alguma emergência. Não contei para ele pelo que eu estava passando, mas mesmo assim ele se prontificou a me ajudar. Mandou algumas mensagens perguntando se eu estava bem, o que me fez sentir segura durante o processo.

Apesar de ser um processo sofrido, com dor, e tudo mais, correu bem e dentro do esperado. Foram umas 48h com os sintomas do remédio, que iam ficando mais leves. 

O depois

Estava feito. Eu tinha abortado. Entrei para as estatísticas. O pai mandou mensagem alguns dias depois e eu contei que tudo correu bem. Ele não pareceu feliz com a notícia. Mas trocamos poucas palavras de forma amigável.

Mais alguns dias passaram e eu ficava cada vez mais angustiada. Tinha perdido um filho e um companheiro. E minha ilha solitária ficava cada vez mais isolada. Carregar aquilo sozinha, sem poder falar sobre, estava me matando.

Pensei que talvez teria sido melhor ter morrido junto com aquele feto. Uma dor enorme entre o peito e o estômago. Uma dor profunda sem conseguir identificar onde realmente era, porque ela era na alma mesmo.

Tinha que pedir ajuda. E quem poderia me ajudar? A única pessoa que sabia o que estava acontecendo. Mandei mensagem para ele, que num primeiro momento recuou. Mas depois realizou que talvez se estávamos juntos nos momentos bons, deveríamos estar juntos nos momentos ruins também.

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Veio até minha casa e eu pude chorar tudo. Chorei até ficar com o olho quase fechado de tão inchado. E aliviou. E nos abraçamos e continuamos juntos. Só que as coisas nunca mais serão as mesmas. Eu tinha mudado. Passar por isso me transformou. Talvez como as mulheres também se transformam quando um filho nasce.

Não queria nunca ter passado por isso. Não quero que nenhuma outra mulher nunca tenha que passar por isso. Mas eu passei. E você que está aí passando pela mesma coisa, vai conseguir. Vamos conseguir viver com isso.

Hoje, depois de um ano de remissão da minha depressão, estou deixando os remédios (doença que eu já tinha antes desse episódio, no ano anterior eu havia tentado suicídio). Temo como esse trauma vai afetar a minha vida de agora em diante.

Se pudéssemos pelo menos ter um pouco de suporte e apoio nesse momento, seria mais fácil. É definitivamente uma questão de saúde. Mulheres, vocês me deram força nesse momento. Mesmo sem saber. Ler os depoimentos de quem já tinha passado por isso e tinha conseguido me tranquilizou um pouco.

Foi lindo ver tantas mulheres criando essa rede de apoio. Agradeço imensamente por isso. Não parem nunca de produzir conteúdo, não parem porque essa luta está realmente ajudando, fazendo a diferença, salvando vidas.

E eu com esse relato espero poder dar força e esperança também para poderem sobreviver a isso. Uma vez li que “se você está no inferno, continue andando” e é isso que estou fazendo.”

O Divã de hoje é anônimo porque aborto ainda é crime no Brasil.


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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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