
O avanço das políticas de inclusão nas universidades brasileiras, especialmente na última década, vem produzindo grandes incômodos. E talvez seja impossível compreender os recentes manifestos em defesa de uma suposta “liberdade de pensamento” sem observar, antes, o deslocamento histórico que acontece dentro das universidades públicas.
Pesquisadoras e pesquisadores que sempre detiveram poder sobre as narrativas que ganharam relevância nas universidades passam a reivindicar o direito à liberdade de pensamento (ou à neutralidade). Esses pensamentos reivindicados, no caso, são acompanhados de argumentos misóginos, transfóbicos, racistas, xenofóbicos. Felizmente, com o aumento da diversidade racial e de classe nas comunidades acadêmicas, essas posturas se deparam com enfrentamentos, resistências e boicotes.
Durante o governo Bolsonaro, as instituições públicas de ensino superior foram alvo constante de cortes orçamentários, campanhas de deslegitimação, vigilância e discursos de exclusão. Mas, ao mesmo tempo em que esses ataques aconteciam, também seguiam avançando as políticas de democratização do acesso, ações afirmativas e perspectivas críticas de produção do conhecimento, fortalecidas entre o primeiro governo de Lula e o impedimento de Dilma (2003 a 2016).
Resistência a avanços não é exclusividade da direita
O crescimento do número de cotistas e o aumento das discussões de gênero, raça, sexualidade, deficiência e sobre desigualdade social não incomodaram apenas setores explicitamente alinhados à extrema direita, de quem já se esperava essa reação. Essas mudanças incomodaram também parte de uma intelectualidade que ocupava, sem contestação, os espaços de autoridade acadêmica. Pessoas que não estavam acostumadas a ouvir questionamentos sobre os paradigmas colonizados nos quais assentaram suas carreiras acadêmicas.
Um exemplo desse posicionamento é a dificuldade que temos, mesmo em espaços progressistas, para pautar a política de cotas para a inclusão de pessoas trans de forma estruturante. Atualmente, essa discussão fica a cargo de cada universidade, que decide como distribuir as vagas entre todos os grupos sociais cotistas.
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O mito da neutralidade acadêmica
Discursos elitistas, excludentes, misóginos, transfóbicos e racistas circulavam nas universidades sem maiores enfrentamentos. Circulavam como Ciência com C maiúsculo, não porque fossem neutros, mas porque eram sustentados por (e sustentavam) estruturas de poder. Quando pessoas pobres, negras, trans, mulheres – historicamente excluídas – começaram a acessar e ocupar esses espaços de debate, passaram também a questionar esses discursos de marginalização.
Na universidade, é comum nos depararmos com essas práticas. Acompanhei uma situação em que o diretor de Diversidade, Inclusão e Ações Afirmativas da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), um homem negro e gay, foi convidado a apresentar as ações afirmativas em um curso de licenciatura. Ele foi recebido pelo coordenador do curso que declarou-se contrário à política de cotas.
O coordenador alegou que seus “filhos estudaram por anos em boas escolas, investiu um alto valor financeiro, e eles perderiam suas vagas apenas por não serem negros”. Não é uma posição contrária o que sobressai, mas a reivindicação da permanência dos privilégios que o poder econômico carrega. Em última instância, o discurso defende a impossibilidade de transformação social e de reparação de graves desigualdades históricas.
Em outro momento, iniciei com um grupo de colegas do curso de Design uma pesquisa para identificar os trabalhos de gênero desenvolvidos na UFMA. A primeira resposta que recebemos foi a de um professor do curso de Medicina com um emoji de vômito.
Em 2024, uma historiadora trans “ousou” ocupar o espaço da universidade em um evento para discutir gênero em perspectivas dissidentes. Quando o conhecimento proposto foi acionado na performance de seu corpo, a instituição foi amplamente atacada. E por todos os espectros políticos, dos mais conservadores aos mais progressistas.
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Quando a inclusão altera as relações de poder
Grupos que sempre ocuparam o centro da legitimidade acadêmica precisaram enfrentar algo raro: o questionamento público de suas posições. O desconforto diante da crítica foi rapidamente traduzido em uma narrativa de perseguição intelectual. Surgiram, então, manifestos em defesa da “liberdade de expressão” e da “democracia do pensamento”, com alegações de que determinadas figuras não poderiam mais dizer “o que pensam”.
Movimento similar aconteceu durante a discussão das cotas raciais. Em 2008, um grupo de 113 “notáveis” entregou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a carta “Cidadãos anti-racistas contra as leis raciais”. Dez pessoas que assinaram aquela carta contra as cotas também estão no manifesto de agora pela neutralidade das universidades.
É “curioso” que agora busquem a livre circulação de um pensamento que decorre de certos padrões elitistas. Os discursos que eles apontam como ameaçados são racistas, misóginos, LGBTQIAPN+fóbicos, como os que citei anteriormente. Há também as ideias ligadas a práticas historicamente associadas ao assédio moral e sexual dentro das instituições.
Os privilégios dos quais essas pessoas sempre usufruíram possibilitaram silenciamentos sobre as violências cometidas, especialmente contra mulheres. Levantar denúncias contra “figurões” é ainda mais difícil que em outras situações, porque enfrenta a resistência e dúvida de uma comunidade que se vê imobilizada diante do poder concentrado em algumas mãos.
É preciso ressaltar que nenhum discurso é neutro. E a universidade muito menos. A ciência não deixou de ser neutra com a ocupação da universidade por outros corpos, outros saberes; ela nunca foi. A diferença, hoje, é que quem era autorizado a definir a “neutralidade” já não é dono desse poder – não sem disputa.
A defesa de um saber comprometido com os direitos humanos
É diante desse cenário que surge o contramanifesto Pluralismo Encarnado, articulado, entre outros intelectuais, pelo professor Marco Aurélio Prado, da Universidade Federal de Minas Gerais. A proposta desloca radicalmente a noção liberal e abstrata de pluralismo. Ao questionar uma neutralidade impossível, não estamos apagando posições ideológicas, mas reconhecendo que todo conhecimento é produzido a partir de marcas históricas, sociais e políticas.
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O pluralismo encarnado defende que as posições ideológicas sejam explicitadas. Que a produção do saber esteja comprometida com os direitos humanos, com o combate às desigualdades e com a construção de formas mais democráticas de existência. É uma proposta que reconhece a historiografia, as sociologias, os marcadores do tempo e das experiências concretas das pessoas que produzem conhecimento. Porque não existe pensamento sem corpo, sem história, sem disputa.
Aquilo que durante muito tempo se apresentou como conhecimento neutro era um discurso construído a partir de perspectivas específicas que se universalizaram a ponto de parecerem naturais. Afinal, é muito fácil sustentar a aparência de neutralidade quando identidades são apagadas, e perspectivas raciais, de gênero, sexualidade, território e classe também são.
A falsa neutralidade preserva espaço para assediadores
Essa suposta “democracia neutra” frequentemente opera como mecanismo de legitimação da violência discursiva. E transformar qualquer discurso em opinião legítima, apenas pelo fato de alguém desejar pronunciá-lo, é extremamente perigoso. Toda fala produz efeitos sociais, políticos e simbólicos. Discursos violentos, falsos ou discriminatórios não deixam de ser violentos apenas porque são apresentados sob a forma de “opinião pessoal” ou “conhecimento científico neutro”.
Isso aparece, por exemplo, em eventos acadêmicos que convidam pessoas denunciadas ou investigadas por assédio sexual para ocupar espaços de autoridade intelectual. Muitas dessas pessoas continuam sendo ouvidas, celebradas e legitimadas institucionalmente, enquanto relativizam suas práticas argumentando “isso é apenas uma interpretação” ou “na minha opinião, aquilo não foi assédio”. A violência não deixa de existir porque alguém a redefine discursivamente.
Defender a democracia não significa abrir indiscriminadamente espaço para discursos violentos, racistas, misóginos ou assediadores sob a máscara da liberdade de expressão. Pelo contrário: permitir que esses discursos se fortaleçam é uma forma de ataque à própria democracia e à pluralidade que sustenta a universidade pública.
