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cae vasconcelos
31 de março de 2025

O futebol não pode estar acima de pautas inegociáveis

Casos de violência contra a mulher, racismo, LGBTfobia e apoio à extrema-direita são cada vez mais comuns no esporte brasileiro

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colagem digital mostra uma mulher ao centro, sentada sobre um iceberg, nas laterais, duas outras mulheres tocam bola, uma mão mostrando cartão vermelho sinaliza para a necessidade de parar com a misoginia no futebol

O assédio manchou o dia que deveria ficar marcado na memória da atacante Jennifer Hermoso como o mais feliz de sua carreira. No dia 20 de agosto de 2023, ela conquistou o título inédito da Copa do Mundo Feminina de Sydney vestindo a camisa da Seleção Espanhola.

Durante a cerimônia de premiação, outro fato chamou a atenção do mundo inteiro. Luis Rubiales, então presidente da Real Federação Espanhola de Futebol, decidiu, sem nenhum medo das centenas de câmeras à sua frente, assediar Jenni. Um beijo roubado acabou com qualquer clima de festa.

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Feminismo bem informado

Como muitas vítimas de assédio, a atleta demorou alguns dias para entender o que tinha acontecido no pódio mais importante de sua vida.

Mas, a jornada das jogadoras da Espanha, até aquela taça inédita, já tinha sido marcada por uma série de perseguições machistas e misóginas dos homens que ocupavam os principais cargos do futebol e, principalmente, da imprensa espanhola.

Atletas cobraram igualdade 

As principais atletas decidiram se levantar e lutar por reconhecimento, condições justas e igualdade de tratamento em relação à Seleção Masculina da Espanha. Elas foram atacadas e massacradas durante meses, e algumas desistiram de vestir a camisa da seleção espanhola na Copa do Mundo.

Apesar disso, Jennifer e outras lideranças, como Alexia Putellas e Aitana Bonmatí, eleitas as melhores do mundo (2021 e 2023 para Putellas e 2023 e 2024 para Bonmatí), foram até a Austrália e fizeram história. No ano seguinte à conquista, essa história foi contada, com detalhes, no filme documental “#SeAcabó: Diário das Campeãs”, na Netflix.

Leia mais: A hipermasculinidade estrutural no esporte e o caso Pétrix

Punição é irrisória

Agora, em fevereiro deste ano, o beijo forçado que um dos homens mais poderosos do futebol espanhol deu à Jennifer no pódio foi julgado. A atleta contou, durante o julgamento, que precisou deixar a Espanha depois do assédio, após sofrer ameaças e ataques de ódio.

Hoje, jogadora do Tigres, do México, ela ouviu o veredito: o juiz considerou Luis Rubiales culpado de agressão sexual. Ele também foi proibido de se aproximar ou entrar em contato com a vítima por um ano.

Poderia ser uma vitória importante para a luta das mulheres no futebol, mas a mesma decisão estipulava um valor bastante baixo de multa: o ex-presidente precisava pagar 10 mil euros (cerca de 67 mil reais) para seguir como um homem livre.

Tudo bem diferente do que a promotoria havia pedido durante o julgamento: dois anos e meio de prisão, um ano pelo beijo roubado e um ano e meio pela coação à atleta.

A ponta de um iceberg gigantesco

Os ataques sistemáticos que as jogadoras sofrem no futebol feminino demonstram o clima do esporte mais popular do mundo, dentro e fora de campo.

Como atletas, são as mulheres as que mais sofrem com diversas formas de violências. Basta olhar qualquer postagem nas redes sociais, inclusive dos clubes que elas defendem, para ver o show de horrores dos comentários machistas e misóginos – muitas vezes carregados de lesbofobia.

A falta de apoio, investimento e incentivo da maioria dos clubes também expõe essa realidade. Infelizmente, não é algo exclusivo do Brasil. Nem mesmo a maior jogadora da história da modalidade, ganhadora de seis prêmios de melhor do mundo da FIFA e reconhecida nos quatro cantos do planeta, escapa disso.

Nas Olimpíadas de Paris, em 2024, Marta foi expulsa na partida da fase de grupos, justamente contra a Espanha de Jenni Hermoso. Quem entende e apoia a modalidade, lamentou muito a ausência da rainha em campo. Mas, para quem passa o ano todo criticando e atacando o futebol feminino, o fato foi motivo para mais ataques de ódio contra Marta.

Leia mais: Olimpíadas 2024: Pela primeira vez, número de homens e mulheres será o mesmo em Paris

A conivência das instituições 

Um ponto de convergência entre o futebol feminino e masculino está nos ataques racistas, sobretudo em competições na América do Sul. Casos de racismo são vistos nas arquibancadas toda semana durante as disputas, mas os torcedores dos clubes fora do Brasil consideram como “provocações normais”.

Na Europa, Vinícius Júnior, eleito melhor jogador do mundo da última temporada, é o principal alvo desses ataques covardes e sistemáticos.

Quando os crimes de racismo acontecem em solo brasileiro, os autores chegam a ser detidos ainda nos estádios. Já quando as partidas são em outros países do nosso continente, as instituições, no máximo, emitem notas de repúdio, alertas nos telões e multas totalmente irrisórias.

O atacante Luighi, do Palmeiras, foi hostilizado pela torcida rival do Cerro Porteño, no Paraguai, durante a Libertadores Sub-20, em março deste ano.  Mesmo abalado, ele se posicionou e cobrou por justiça. Os demais clubes brasileiros também. Mas o valor da multa atribuída pela Conmebol ao time paraguaio foi de 50 mil dólares – menos do que a competição cobra por atraso ou uso de sinalizadores.

O pacto misógino

Fora de campo, a cada ano vemos incontáveis casos de jogadores denunciados por diversas violências contra as mulheres: agressões físicas, abusos sexuais, traições, transfobia e até assassinatos.

Os casos mais recentes e com maior repercussão foram as condenações por estupro de Daniel Alves – ídolo do São Paulo, Barcelona e Seleção Brasileira – e de Robinho, idolatrado no Santos, Real Madrid, Milan e Seleção.

Daniel Alves foi condenado a quatro anos e meio de prisão por violência sexual, em 2023, mas saiu de cabeça erguida, um ano depois, após pagar a fiança estipulada em 1 milhão de euros.

Mas o pior ainda estava por vir, no dia 28 de março deste ano, Daniel Alves foi absolvido pelo Tribunal da Catalunha. A promotoria pedia a elevação penal de 9 para 12 anos, mas a divisão criminal concluiu que o depoimento da vítima foi insuficiente para sustentar a condenação do ex-jogador. A equipe de magistrados, que tomou a decisão unânime, era composta por três mulheres e um homem. A acusação ainda pode recorrer.

Já Robinho foi condenado por estupro em 2013, em Milão (Itália), mas nunca foi preso no país europeu. Em março do ano passado, o Superior Tribunal de Justiça do Brasil determinou a prisão dele em solo brasileiro. Desde então, ele segue em custódia na Penitenciária de Tremembé, em São Paulo. 

Até hoje os dois atletas aparecem em listas de melhores jogadores que já atuaram pelos clubes que vestiram a camisa. E, infelizmente, seguem sendo ídolos.

Apagamentos e anulações de condenações

Outro caso emblemático é o do técnico Cuca, que foi condenado na Suíça pelo estupro de uma menina de 13 anos em 1987, quando jogava pelo Grêmio. O julgamento aconteceu à revelia já que nem Cuca nem os outros acusados estiveram no Tribunal de Berna.

Ao lado de Eduardo Hamester, Henrique Etges e Fernando Castoldi, Cuca ficou detido 30 dias. Voltou ao Brasil ainda mais ídolo. Por anos, o caso caiu no esquecimento. De jogador, ele se tornou treinador dos maiores clubes do Brasil, como Palmeiras, Atlético Mineiro, Flamengo, Fluminense, entre outros.

Até que em 2023 foi contratado pelo Corinthians e o caso voltou à tona. A torcida corintiana não silenciou, o elenco feminino do clube se manifestou nas redes sociais e o treinador foi demitido após dois jogos.

A imprensa brasileira, que teve um papel fundamental na prisão de Robinho, investigou o caso envolvendo Cuca e publicou detalhes.

No fim de 2024, o treinador procurou a justiça, mas o tribunal suíço anulou a sentença já que a vítima faleceu 15 anos depois do episódio e seu herdeiro não quis mais mexer no caso. Hoje, perante à lei, Cuca não é mais condenado pela violência sexual da menina de 13 anos.

Até quando homens cruéis serão ídolos?

O que mais me assusta na normalização da barbárie no futebol é que não importa o que esses homens façam, se eles forem bons de bola, tudo é perdoado.

Nos últimos anos vemos uma crescente de atletas que apoiam publicamente políticos de extrema direita, traem e agridem suas companheiras, se negam a pagar pensão alimentícia. Mas, se ele for o craque do time, tem torcedor que defende como se fosse uma diva pop.

É como se um jogador de futebol se tornasse um semideus, acima de qualquer justiça ou opinião popular. Os perfis mais seguidos do mundo são de jogadores de futebol que inspiram milhões de crianças no mundo inteiro.

Crianças essas que crescem com o exemplo desses ídolos. E quando não são eles que cometem as barbáries, são amigos deles que as fazem. O apoio entre eles nunca acaba, é como se tivesse um pacto inquebrável.

A exceção é para os que revelam uma sexualidade fora da heteronormatividade. Nada acaba mais com a carreira de um jogador do que a possibilidade dele ser gay ou bissexual.

Leia mais: Pessoas trans, o esporte também é um lugar para nós

Precisamos salvar o futebol dele mesmo

O futebol tem um poder inexplicável, que muda vidas de quem está em campo e de quem torce para o clube do coração. Eu sinto isso nas arquibancadas quando vou ao estádio ver meu time. Principalmente aqui, no país mais apaixonado pela modalidade em todo planeta.

Mas nada no mundo deve estar acima de pautas inegociáveis, nem mesmo o futebol. Quem agride, abusa, negligencia, violenta e mata, não deve ser ídolo de ninguém. Muito menos das nossas crianças.

Por isso, o futebol feminino tem conquistado cada vez mais pessoas, por não permitir esse comportamento inaceitável, comum entre os homens, e entregar aquilo que todo torcedor ama: futebol de qualidade.

A luta das jogadoras é intrínseca à modalidade, dentro e fora de campo. Com elas, o enfrentamento ao machismo, racismo e LGBTfobia é diário. Torço para que tenhamos cada vez mais crianças idolatrando as nossas atletas e cobrando uma mudança estrutural no futebol masculino.

É uma questão de humanidade repudiar, protestar e não permitir a violação dos direitos humanos no esporte. O futebol não deve ser espaço para autores de crimes hediondos. Eles não podem ser exemplos para ninguém.

Despedida

Com esse texto, me despeço da minha coluna fixa na Revista AzMina, depois de quase dois anos. Agradeço imensamente pelo espaço, acolhimento e trocas nesses meses e colunas tão densas, mas que me proporcionaram visibilizar, trazer denúncias e reflexões sobre assuntos tão caros para pessoas como eu. Vida longa à potência do jornalismo independente e combativo. Até logo e obrigado por tudo.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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