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Não me venham com esse papo de “ditadura do orgasmo”

por Helena Bertho
9 de abril de 2019
Se não é pra gozar, melhor ficar abraçado comendo brigadeiro e vendo série
Meg Ryan finge orgasmo no filme Harry & Sally – Feitos um Para o Outro (Reprodução)

Quase uma década no “jornalismo feminino” e já escrevi sobre sexo das mais diferentes maneiras possíveis. Inclusive, já escrevi muita coisa de que me envergonho. Dicas de produtos para deixar “ele” maluco? Sim, já teve. Matéria sobre média de transas semanais de um casal saudável? Também, como se isso fosse quantificável…

Por muito tempo, a gente (a gente sendo a tendência do que o jornalismo para mulheres estava falando sobre sexo em conjunto) escrevia sobre técnicas infalíveis para gozar. Até que há um tempo a tendência passou a ser falar da “ditadura do orgasmo”.

Em resumo, é a ideia de que é “normal” não gozar no sexo, dizendo para as mulheres pararem de se cobrar por isso, porque só geraria mais paranoia e dificultaria ainda mais chegar lá. Algo como: aproveite o caminho sem ficar pensando no destino.

Sou totalmente a favor de aproveitar o caminho, sentir cada detalhe do prazer da troca sexual. E sei que às vezes não rola gozar mesmo, por mil motivos. Mas dizer que “é normal” não gozar… Pra mim isso é papo de homem cisgênero hétero tentando justificar sua falta de conhecimento do corpo e do prazer feminino ou simplesmente sua inabilidade sexual. Ou de mulher que está em uma relação sem prazer tentando justificar para si mesma porque não pula fora.

Você já ouviu alguém dizer isso para um homem?

Digo isso do lugar de quem já foi essa pessoa aí. E hoje mudo meu discurso sem medo algum (sabendo que ano que vem posso ter mudado de novo e tudo bem). Sexo é pra sentir prazer e gozar sim. Se não rola orgasmo das duas pessoas envolvidas, alguma coisa está fora do lugar.

Pode ser uma questão de saúde, pode ser uma questão pessoal (tipo trauma ou crise no relacionamento) ou pode ser uma questão com a outra pessoa (do tipo não saber onde fica o clitóris). Pode ser um monte de coisa. Mas se em uma relação em que duas pessoas transam com alguma frequência uma delas ou as duas não gozam, algo merece ser olhado.

E não dá para falar disso e ignorar a forma como isso é tratado de maneira diferente entre homens e mulheres.

Você já ouviu alguém dizer para um homem: tudo bem você não gozar, cara, isso é totalmente normal, curte o resto da transa?

Leia mais: O meu prazer é meu e ninguém pode me dar algo que já me pertence

Não é à toa que uma pesquisa das universidades Chapman, Claremont Graduate e Indiana University, que ouviu 52 mil pessoas, chegou ao seguinte dado: enquanto 95% dos homens heterossexuais chegam ao orgasmo “sempre ou quase sempre”, só 65% das mulheres hétero podem dizer isso. Pelo que li, o estudo não faz o recorte entre pessoas cis e trans.  

Para as mulheres lésbicas, o índice fica em 86%.

O estudo ainda sugere que as lésbicas são mais eficazes em fazer as parceiras gozar porque “estão em uma posição melhor para entender como diferentes estratégias funcionam para seus pares (como estimular o clitóris), além de como essas sensações conduzem ao orgasmo”.

Só faltou um detalhe nessa análise: as mais eficazes em fazer os parceiros gozarem são as mulheres hétero, com 95% de sucesso. Aparentemente, você não precisa ter um genital para saber como estimulá-lo, não é mesmo?

Sexo é sobre dar e receber

Ainda assim, rola uma discrepância de 9 pontos percentuais entre os homens héteros e as lésbicas, né?

Na minha humilde e opinativa opinião, a gente pode colocar isso na cota da criação das mulheres. De todo o tabu que cerca a sexualidade feminina, da falta de informação, das proibições e da falta de conversa. Tudo isso faz com que muita mulher demore para entrar em contato com o próprio corpo e a própria sexualidade, criando dificuldades e questões psicológicas que atrapalham o prazer.

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Conversar sobre, pesquisar, testar e se conhecer são essenciais para que qualquer pessoa possa ter orgasmos. E o mesmo vale para quem quer que o sexo seja uma troca: entender, perguntar, pesquisar e se interessar pela outra pessoa.

Sexo é troca. São duas ou mais pessoas trocando estímulos e se permitindo sentir prazer a partir desses estímulos. Se uma das partes está preocupada só com o próprio prazer, algo vai faltar. E se uma das partes já começa achando que não vai chegar ao orgasmo, ela nem vai se permitir isso.

Ter orgasmo é natural

Sempre vale se perguntar: “por que eu faço sexo”? Muitas respostas podem surgir: para me conectar, para me sentir amada, para satisfazer o outro, para salvar meu casamento… Acho que nós mulheres somos muito mais educadas a colocar no sexo um monte de coisas ligadas a autoestima, amor e relacionamento, do que os homens. E daí vamos para a cama procurando um monte de coisa que não o prazer.

E falar que “é normal não gozar” é, para mim, estimular isso.

Não é normal não gozar. Mas se você não goza, o problema pode não ser necessariamente você. Vale fazer exames para ver se há algum problema físico. Vale fazer terapia, para tentar entender se existe alguma questão psicológica. E vale também conversar com a outra pessoa para ela aprender mais sobre você. Ou talvez vale buscar outras pessoas…

Ter orgasmo é bom demais. E é algo natural do corpo, principalmente do feminino. Lembre que o homem cis conta com apenas um único órgão para cumprir a função de reproduzir, urinar e dar prazer, enquanto as mulheres cis têm um órgão exclusivamente para o prazer.

Então não venha me dizer que o normal do sexo é não viver a experiência do orgasmo (a não ser que seu fetiche esteja em não gozar, daí é outro assunto). Se for só para ter prazerzinho, conexão, carinho, prefiro ficar abraçada, comendo brigadeiro e vendo série. Porque se eu for me engajar na troca intensa que é o sexo, quero sim gozar.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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