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halana faria
17 de março de 2025

Recomendações e orientações para ter mais saúde reprodutiva e ginecológica

A saúde de mulheres e pessoas com útero é marcada por gargalos de conhecimento, pouca escuta e conflitos de interesse, por isso devemos nos informar

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colagem digital mostra uma mulher negra com uma mão no colo e outra na barriga, e à frente dela, em destaque tem um útero, órgão central na saúde reprodutiva

Fiz uma pequena lista para pacientes e, também para quem cuida, de pontos que precisam ser respeitados quando pensamos em saúde. Trago nesta coluna também para que um número crescente de mulheres e pessoas com útero tenham mais conhecimento de si e capacidade de gestão sobre a própria saúde. São as principais recomendações e orientações que ofereci no último ano em consultório, rodas e entrevistas. 

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Feminismo bem informado

1- Exames ‘de rotina’, rastreio de doenças, check up, quando não há sintoma devem respeitar recomendações baseadas em evidência científica. Cuidado com consultas anuais das quais você sai com exames sem a adequada orientação sobre seus benefícios e riscos; 

2- Ter HPV diagnosticado em exame que identifica DNA viral não implica necessidade de mudar práticas sexuais, além do uso de preservativo quando possível. Ter HPV não significa que você terá verruga ou câncer de colo, significa que você precisa seguir as orientações de acompanhamento recomendadas. Nomes desse exame: ‘captura híbrida de DNA HPV’, PCR; 

3- Não faz sentido dosar hormônio anti-mulleriano para avaliação de reserva ovariana se você nunca tentou gestar. Os valores de referência desse hormônio não são padronizados para determinar a chance de uma gravidez. Essa dosagem, junto a outros dados, pode avaliar a possibilidade de sucesso em fertilização in vitro;

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4- Se você tem 35 anos ou mais, é muito provável que tenha sido alvo do algoritmo para congelamento de óvulos, uma técnica valiosa para preservação de fertilidade em algumas situações, mas que não é o seguro-bebê que fazem parecer; 

5- A fertilidade não decai tão vertiginosamente após os 35 anos quanto o mercado da reprodução faz parecer. Minar a confiança das pessoas na própria potência corporal é estratégia antiga para manutenção de mulheres (principalmente) reféns das práticas mercantis;

6- Cuidado com diagnósticos precipitados de ‘infertilidade’ diante de uma SOP (síndrome dos ovários policísticos), endometriose ou mesmo acima dos 40 anos. Esse tipo de orientação coloca pessoas em risco de uma gestação não planejada em um cenário de ilegalidade do aborto; 

7- Cólicas menstruais muito fortes, dor na penetração, dor para evacuar durante o período menstrual são sintomas que chamam atenção para endometriose, porém a investigação com exames de imagem precisam estar bem indicadas. Há situações de alterações muito discretas, como espessamento de ligamento uterossacro, que vão aparecer na maioria dos exames de ressonância ou ultrassom com preparo intestinal, e devem ser avaliadas em conjunto com sintomas clínicos para determinar a necessidade de tratamento;

8- SOP é uma síndrome metabólica caracterizada por 2 destes 3 sintomas: irregularidade menstrual, em geral ficar sem menstruar; acne e pêlos; e imagem de ultrassom sugestiva (microcistos de 1mm em número maior que 12 na periferia dos ovários). O tratamento é alimentação saudável com baixo carboidrato e atividade física. A prescrição de pílula com efeito de reduzir acne pode ser feita para controle dos sintomas (e não de seu tratamento), ou mesmo para quem a escolhe como método contraceptivo. Eventualmente, uma medicação para diabetes, a metformina pode ser necessária; 

Leia mais: Ovário policístico: mitos e orientações equivocadas

9- Alterações repetidas da flora vaginal requerem avaliação da vida como um todo e adequada identificação de microorganismos que estão se desenvolvendo. Óvulos de ácido bórico tratam candidíase que se repete. O fio do DIU pode promover manutenção de vaginose devido à formação de “biofilme” no fio e o ácido bórico também é um tratamento possível. Conheçam o ácido bórico, questionem profissionais; 

10 – A prevenção de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) se faz com adequada comunicação sobre práticas sexuais e exames sorológicos rotineiros, além de chlamydia e gonococo. Também é importante informar sobre métodos de proteção, como camisinha vaginal e peniana, e garantir uma divulgação ampla sobre a possibilidade de uso de PREP e PEP (profilaxia pré e pós-exposição) para prevenção de transmissão de HIV;

11- Menopausa é uma travessia, um processo singular para cada pessoa, ainda que seja uma experiência compartilhada. É possível começar a preparar o terreno para essa fase já aos 40 anos, com a instituição de mudanças e reflexões. Terapia hormonal é recurso terapêutico e de prevenção para alguns casos; 

12- Curetagem é método obsoleto e não deveria ser mais realizado. Diante de um aborto incompleto ou retido, de paciente que tem direito a aborto previsto em lei, se não há AMIU (aspiração manual intrauterina) para oferecer, o serviço deve ofertar a opção medicamentosa para esvaziamento uterino (o misoprostol); 

Leia mais: Misoprostol: o remédio que poderia salvar vidas, mas manda para a cadeia

13 – Por fim, saúde é capacidade de resiliência. A saúde de mulheres e pessoas com útero é fortemente marcada por gargalos de conhecimento, práticas sem lastro em evidência científica, pouca escuta, paternalismo e conflitos de interesse. Mudar esse cenário requer promover mais escuta, mais tradução de fisiologia, colocar a ciência em diálogo com as demandas das pessoas e suas estratégias de cuidado. É uma transformação que exige um sistema de saúde forte. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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