
A Organização Mundial da Saúde (OMS) é clara: o aborto, quando realizado em condições adequadas, é um procedimento simples e seguro — mais seguro, inclusive, do que o parto. Trata-se de um consenso consolidado por décadas de evidências científicas. Contudo, na realidade nacional, a clandestinidade e as práticas inseguras mantêm o procedimento como uma das principais causas evitáveis de óbitos entre gestantes.
Esse paradoxo se aprofunda quando olhamos para os abortos legais no Brasil: mesmo onde deveria haver garantia de proteção e técnica adequada, os dados revelam um cenário de desfechos desfavoráveis.
Essa distorção ajuda a explicar por que, enquanto a agenda global prioriza a redução da mortalidade materna, o Brasil segue estagnado. Desde 2012, a razão de mortalidade materna permanece em torno de 60 mortes por 100 mil nascidos vivos, patamar muito distante da meta pactuada nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (Organização das Nações Unidas) de reduzir esse indicador para no máximo 30 até 2030.
Embora a legislação garanta o direito ao aborto legal em casos de violência sexual, risco à vida da mulher e anencefalia fetal, o acesso real ao aborto seguro se perde em um percurso marcado por barreiras.
Os serviços de aborto legal no Brasil estão concentrados em menos de 4% dos municípios. Tecnologias seguras, como aborto medicamentoso e AMIU (Aspiração Manual Intrauterina), seguem subutilizadas, enquanto a obsoleta curetagem ainda é amplamente empregada. Soma-se a isso o estigma, que atravessa o cuidado: para muitas mulheres, buscar o aborto legal significa enfrentar demora, desinformação e julgamento. Esse atraso tem consequências.
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O alerta que os dados gritam
Minha pesquisa “Letalidade hospitalar por aborto legal em comparação a outros procedimentos obstétricos realizados no Sistema Único de Saúde (SUS), entre 2000-2015” identificou mais de 21 mil internações por aborto legal. Um dado chama a atenção: as mulheres internadas para esse fim morrem mais do que as internadas para partos ou outros tipos de aborto. À primeira vista, isso sugere uma contradição: o aborto legal seria mais perigoso no Brasil?
O que os dados apontam é que diante de tantos entraves, o procedimento está sendo realizado quando a saúde da pessoa gestante já se agravou. Nesses casos, o aborto legal não aparece como cuidado oportuno, mas como tentativa de conter quadros críticos. Assim, esses números não refletem o risco do procedimento, mas o momento em que ele é realizado.
Os números são ferramentas potentes de denúncia, mas não respiram. Por trás de cada porcentagem, há uma vida interrompida. Para dar contorno aos dados, compartilho três trajetórias reais — aqui protegidas por nomes fictícios.
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Vidas interrompidas pelo estigma
Camila tinha 20 anos e toda uma vida pela frente, interrompida em sua primeira gestação. Chegou ao hospital em choque, sangrando muito, e a equipe médica logo entendeu que a interrupção da gestação era indispensável (aborto necessário) para tentar salvar sua vida.
Apesar da tentativa de reverter o choque com o aborto legal e assistência intensiva, Camila faleceu em apenas três dias. O problema, em seu caso, não foi o procedimento, mas a gravidade extrema do quadro da paciente quando chegou ao serviço, sem margem para socorro.
Ana também chegou em estado crítico, quando já avançava para a segunda metade da gestação. A equipe médica realizou uma interrupção legal por cesariana, como tentativa de retirar o foco da instabilidade de uma suposta infecção (aborto necessário). Então descobriram o real motivo da crise: ela vivenciava uma complicação obstétrica severa (descolamento de placenta). Apesar dos esforços, Ana faleceu no mesmo dia.
Aqui, o aborto aparece não como cuidado planejado, mas como medida emergencial. O caso dela revela como o aborto legal é frequentemente usado em manobras de emergência para tentar salvar a vida de mulheres que chegaram já no limite da sobrevivência.
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Risco à vida da gestante é subestimado
Beatriz, aos 22 anos, enfrentava uma grave doença pulmonar que contraindicava uma gestação. Embora a condição reduzisse sua fertilidade, ela engravidou. Como o processo sobrecarregava seu corpo já fragilizado, a interrupção tornou-se uma necessidade vital. No entanto, o aborto ocorreu tarde demais.
No Brasil, apenas 1% dos abortos legais são relacionados ao risco à vida da gestante, percentual incoerentemente baixo diante da alta incidência de mortes maternas indiretas. Essa possibilidade terapêutica raramente é aventada pela equipe assistencial e, portanto, mulheres em risco sequer são informadas que são elegíveis ao direito.
Para Beatriz, o relógio corria contra o tempo. Infelizmente, as barreiras assistenciais parecem ter arrastado a tomada de decisão e consumido a janela de oportunidade. Nesse caso, a intervenção chegou demasiadamente tarde: com o organismo comprometido, a jovem sofreu complicações cardíacas fatais nove dias após a interrupção. Beatriz não faleceu por causa do aborto, mas porque a intervenção não aconteceu em tempo hábil.
O paradoxo do aborto legal no Brasil
Esses casos ajudam a compreender o que os números, isoladamente, não explicam. O aborto legal não é um procedimento perigoso, mas, no Brasil, ele frequentemente acontece tarde demais. Quando olhamos para os casos fatais, o padrão se repete: mulheres chegam em condições críticas, com gestações avançadas ou doenças descompensadas. Nesses contextos, o aborto aparece como medida extrema, quando o risco de morte já está instalado.
Isso gera uma distorção. O aborto legal é pouco realizado no Brasil — e isso fica evidente quando comparamos com o restante da assistência obstétrica. Durante a minha pesquisa, foram registrados mais de 23 milhões de partos e 2,8 milhões de outros abortos, em comparação a pouco mais de 21 mil internações por aborto legal. Trata-se de um número muito inferior ao esperado para a demanda brasileira. Basta ver que, a cada ano, 20 mil meninas de 10 a 14 anos, todas vítimas de estupro de vulnerável, se tornam mães.
Essa baixa oferta não é neutra. As barreiras e estigmas afetam os casos mais simples — aqueles que poderiam ser resolvidos de forma precoce, segura e com menor risco. Assim, o aborto legal acaba acontecendo com maior frequência em situações mais graves: gestações avançadas, condições clínicas extremas e quadros que exigem intervenção em caráter de urgência.
É essa concentração de casos graves que distorce as estatísticas. Como resultado, um procedimento reconhecidamente seguro passa a aparecer nas estatísticas associado a maior risco de óbito. Essa associação não revela o risco do aborto, mas o efeito de um sistema que restringe o acesso e transforma um direito fundamental em uma última alternativa de sobrevivência.
O que precisa mudar?
Os dados não apontam para uma falha técnica isolada, mas para uma lógica de funcionamento. Camila, Ana e Beatriz não morreram porque o aborto é perigoso. O que é perigoso é acessá-lo tarde demais. Quando o sistema de saúde só intervém no limite, ele concentra risco onde poderia haver segurança e transforma um direito em marcador de gravidade.
Ampliar o acesso ao aborto legal é, portanto, uma medida de saúde pública. Garantir o acesso oportuno ao aborto legal não é apenas cumprir a lei — é aproximar a prática brasileira daquilo que a ciência já demonstrou ser possível: um cuidado simples, seguro e capaz de salvar vidas.
