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2 de dezembro de 2019

Quer transar sem camisinha? Então deixa eu ver seu exame

Como lidar com o triste hábito masculino de não cuidar da saúde e não curtir preservativo
sorologia
Foto: Pixabay

Semana passada fui fazer meus exames ginecológicos de rotina. Estava lá a médica, espéculo, iodo e câmera dentro de mim, tudo ardendo e doendo e minha vagina fazendo um enorme esforço pra reintegrar a posse de si, quando falei que queria nascer homem na próxima vida, só pra não ter que fazer exame ginecológico. Daí a médica diz: “Ué, mas é só fazer igual os homens e não cuidar da saúde”. 

Meus músculos vaginais até descontrairam nessa hora. 

É bem isso, né doutora. Mas sabe qual é a bosta? É que essa não é a solução. Porque quanto menos gente cuidando da saúde e fazendo exames preventivos, mais gente doente precisando fazer tratamentos vai ter. E pior: contaminando outras pessoas com infecções sexualmente transmissíveis (ISTs, antes conhecidas como DSTs). Muitos homens não cuidam da saúde e quem paga a conta são as mulheres que transam com eles.

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Nessa história a gente junta duas narrativas corriqueiras:

1 – Quantas histórias você já ouviu de mulher que foi para o date com o boy, na hora H ele não quis por camisinha, tirou escondido ou brochou “por culpa do preservativo”?  

2 – Quantos homens você conhece que fazem exame de IST todo ano? E mais: quantos você conhece que fazem exame de HPV com frequência? 

Essas duas narrativas estão diretamente conectadas entre si. Mas não precisavam. 

Como já ouvi uma vez: é melhor transar com uma pessoa com HIV que sabe disso e informa a parceira para se proteger, do que com alguém que nem faz o teste.  Há três dias, o Ministério da Saúde divulgou a estimativa de que 135 mil pessoas vivem com HIV no Brasil e não sabem!

Se você transa, tá no grupo de risco 

Acho que essa história toda começa na diferença com que homens e mulheres se relacionam com a saúde sexual. Enquanto a sexualidade da mulher é completamente medicalizada (você perde a virgindade e tem que ir no médico logo em seguida ver se está tudo bem, qual o sentido disso?), a dos homens é o oposto. Na minha humilde opinião, nenhum dos caminhos é saudável. Mas a extrema medicalização da sexualidade feminina é tema pra outro texto. 

Aqui quero falar da enorme falta de preocupação deles com a saúde sexual (na verdade, é com a saúde de forma geral, né? Uma pesquisa no Ministério da Saúde mostrou que 31% deles não fazem exames de rotina). 

Leia mais: Lésbicas e DSTs: manual da saúde sexual para mulheres que transam com mulheres

Depois da crise da AIDS nas décadas de 80 e 90, criou-se alguns estereótipos dos chamados “grupos de risco”. No caso dos homens, o grupo de risco seria o gay. 

Há anos esse conceito de grupo de risco está mais ultrapassado do que falar que masturbação é pecado. Porque a verdade é que quem transa está em risco de contrair infecções sexualmente transmissíveis. O risco SEMPRE existe, porque nenhum método de proteção é 100% eficaz, mas é possível minimizar. 

Não é por ser gay, puta ou qualquer outra coisa que você pode pegar uma IST. É por transar. Ponto. Quanto mais cuidados tomar, menores as chances. 

O problema é que em algum lugar do imaginário social do homem hétero prevaleceu a ideia de que IST é coisa gay e os héteros simplesmente seguem se expondo para caramba ao risco, mas não fazem exames para descobrir se pegaram alguma coisa. 

Eles enxergam sexo como algo ligado apenas ao prazer e nada à saúde. 

Supere seus preconceitos 

Além disso, tem uma outra questão: a estigmatização das infecções sexualmente transmissíveis. Pouco se fala nelas, são verdadeiros tabus. E tem muita gente que tem medo – chegando ao ponto de ter vergonha de fazer exame. Tudo isso por quê? Porque elas são transmitidas pelo sexo. Como se ninguém transasse, né?

Bem, vamos admitir, se você está lendo esse texto, seus pais transaram. A maioria das pessoas transa, tem desejos e está no mundo. 

Os vírus, bactérias e fungos também estão por aí. Se você transa, pode pegar um deles, e tudo bem. 

Leia mais: “Sexualidade negada”: soropositivas contam como o HIV afeta a vida sexual

A maioria das ISTs tem tratamento e quanto antes descobrir, melhor. Só o HIV que, uma vez adquirido, vai te acompanhar pra sempre. Ainda assim, você vai conviver com uma condição – ser soropositivo – e não com a doença. Se acompanhar e cuidara direitinho, dá pra seguir a vida tranquilamente e nunca desenvolver AIDS.  

Tem muita, muita, muita informação sobre HIV que as pessoas não sabem. Como, por exemplo: com os antiretrovirais, é possível baixar o número de vírus no corpo a um nível que os exames nem detectam mais! É o que se chama de indetectável. Quando uma pessoa soropositiva fica indetectável, ela não transmite o vírus para o filho, numa eventual gravidez, nem para a(o) parceira(o), no sexo. 

A ideia não é achar que “ah, então sussa, vou sair transando por aí sem medo de pegar IST”. Não, por favor. O ponto é: conhecendo os reais riscos e consequências, você age com responsabilidade com a sua saúde e de seus parceiros e parceiras, e não com medos e tabus. 

Leia mais: O que é sexo para você?

Um dos medos ou vergonhas que os homens (e muitas mulheres também) podem superar: o de fazer exame sempre que se expuser ao risco. 

Outro: o de admitir que já contraiu um IST, ser honesto(a) com a(o) parceira(o) e ter responsabilidade na transa. 

Por isso digo que é melhor transar com alguém que sabe que tem HIV. Essa pessoa vai ter o cuidado de saber se está indetectável ou não e de usar proteção se for preciso. Pior é transar com quem nunca fez um exame, mas se expõe há anos ao risco de contrair o vírus. 

Trocar sorologia é prova de respeito 

Eu gostaria de dizer que esse é um texto para estimular homens a manterem seus exames em dia. Mas como quem lê AzMina é majoritariamente as mulheres, quero falar então com vocês. Troquem sorologia com seus parceiros se decidirem abrir mão da camisinha. 

Isso vale também para as mulheres que transam com mulheres,  mas é ainda mais complexo, já que não existem muitos jeitos de prevenir ISTs no sexo entre mulheres, como a gente contou nesta reportagem. 

Leia mais: Enquanto sexo for “coisa de homem” não vamos acabar com a AIDS, alertam especialistas

Sorologia é o exame de sangue que mostra as doenças que você tem ou não. 

Quando rolar aquele momento do cara dizer que não consegue usar a camisinha ou que prefere sem, caso você tenha outro jeito de prevenir a gravidez e queria de fato parar de usar o preservativo, diga sem medo: só se a gente trocar nossos exames e estiver tudo negativo.  Sempre lembrando que existe um período de três meses, chamado de janela imunológica, em que o exame pode dar falso negativo.

Se ele ficar ofendido, ultrajado ou chateado com o pedido, fuja. Não só porque existe risco de ele ter alguma infecção para transmitir, mas também porque ele não te respeita.

Helena é jornalista formada pela USP e com pós-graduação em roteiro pela FAAP. Já atuou em diversos veículos, como UOL, M de Mulher, Veja São Paulo e a Revista Sou Mais Eu. Especializada em cobertura de gênero, direitos humanos, diversidade e sexualidade, é editora chefe da Revista AzMina e também escreve a coluna quinzenal sobre sexo.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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