
É recorrente ler comentários como “a indústria pornográfica escraviza mulheres” ou, mais recentemente, “a pornografia vicia pessoas”. De fato, a noção de pornografia desperta afetos, opiniões e disputas intensas, mobilizando verdades morais e uma busca insistente por uma definição fixa. O que se esquece é que, como todo fenômeno social, a pornografia também passou por profundas transformações, sempre vinculadas aos contextos históricos, políticos, econômicos e tecnológicos.
Antes de virar um produto mercantil, a pornografia surgiu como “escritos sobre prostitutas” — sua linguagem não era imagética, mas literária. O obsceno, nesse momento, era usado como crítica social e ferramenta de denúncia política. Em A invenção da pornografia, Lynn Hunt realiza uma cronologia entre os séculos XVI e XVIII, mostrando os caminhos pelos quais a pornografia se consolidou como categoria política e estética, inventando a esfera privada (intimidade) e o olhar público sobre o desejo (poder).
A pornografia não nasce com o sexo, mas com o olhar sobre ele. É uma invenção moderna que revela menos sobre corpos nus e mais sobre os modos de controlar, vigiar e classificar o desejo. É um artefato histórico, não uma “realidade natural” nem um “instinto sexual descontrolado”. Eliane Robert Moraes, em O efeito obsceno, reforça essa dimensão relacional, mostrando que o “conceito” de pornográfico ou obsceno muda conforme os regimes morais e políticos de cada época.
O desejo vira algoritmo de mercado
Se no século XIX a pornografia escandalizava, no século XX ela se profissionaliza. O que era tabu torna-se nicho, e o desejo se transforma em algoritmo de mercado. Essa passagem do choque ao entretenimento, analisada por Jorge Leite Jr. em Das maravilhas e prodígios sexuais, marca a entrada definitiva da pornografia na indústria cultural.
O “bizarro”, antes periférico e transgressor, passa a integrar o circuito do consumo e do prazer. A pornografia deixa de ser somente uma transgressão moral e passa a operar como mercadoria de entretenimento, em diálogo com as tecnologias de cada tempo: dos folhetins às fotografias, do cinema ao VHS, do DVD à TV a cabo, até chegar à internet e às plataformas digitais. O que antes era considerado marginal passa a ser lucrativo, e o que era censurado é então catalogado — antecipando o olhar algorítmico que classificará o prazer nas plataformas digitais.
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Um campo de trabalho desigual
Mais do que um produto cultural, a pornografia é também um campo de trabalho e disputa simbólica. Nos bastidores da indústria pornográfica brasileira, como mostra Maria Elvira Díaz-Benítez em Nas redes do sexo, encontramos um universo de desigualdades e agenciamentos que definem quem pode aparecer, quais corpos são desejáveis e quais permanecem fora de cena.
A autora desmonta a ideia de que existe uma “indústria pornográfica” homogênea. O caso brasileiro é exemplar: atravessado por dinâmicas de classe, raça, gênero e por uma relação desigual com o mercado internacional. Durante a ditadura militar, as pornochanchadas eram produzidas de forma precária, sob censura e repressão. Nos Estados Unidos, o mesmo período marcava a expansão do VHS e a consolidação do pornô como mercado global.
Com o advento da internet e a pirataria dos DVDs, o mercado nacional sofreu novo declínio, mas também se reconfigurou. O que Maria Elvira mostra é que, mesmo em meio à precariedade, há criatividade e resistência, se tornando um espaço onde estética, moralidade e economia são negociadas.
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O pornô de dados com tags e hierarquias
A popularização dos tubes e, posteriormente, das plataformas de armazenamento e venda de conteúdo sexual alterou radicalmente o modo de produção e circulação da pornografia. A pornografia digital se organiza agora em redes, tags e indexações, nas quais algoritmos classificam, hierarquizam e reproduzem formas de desejo — frequentemente reafirmando desigualdades raciais, etárias e de gênero.
Como demonstra Carolina Parreiras (2015, 2024), a datificação do desejo converte o corpo em informação, servindo a tecnologias de vigilância, censura e regulação.
O “altporn”, o pornô queer e o pornô feminista produzem contranarrativas que desafiam o modelo hegemônico da indústria mainstream. A estética “faça você mesmo” descentraliza a produção e redefine o olhar sobre o sexo, a intimidade e o prazer. Isso desloca o pornô do domínio da representação para o da participação: o público se torna produtor, e o consumo se converte em performance.
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Plataformização, informalidade e (des)regulação
Mas quais são os impactos da plataformização do trabalho sexual — especialmente do pornô? As plataformas fazem com que cada produtora, cada performer e cada espectador sejam microempreendedores de si. O corpo, antes filmado por outros, agora é administrado como microdado, em um regime de visibilidade e autogestão constante.
A imagem clássica da “produtora exploradora” se dissolve num ecossistema onde o controle se distribui: a monetização depende de métricas, engajamento, curtidas e políticas algorítmicas. Trabalhadoras e trabalhadores sexuais atuam em múltiplas plataformas que impõem regras morais, exigências estéticas e políticas econômicas instáveis. No Brasil, a ausência de uma regulação específica agrava a precarização e amplia os riscos.
A plataformização, portanto, cria novas formas de exploração e vulnerabilidade, mas também de autonomia e experimentação. Como em outros trabalhos mediados por big techs — como iFood e Uber —, há uma retórica de empreendedorismo que mascara longas jornadas, instabilidade e ausência de proteção. No caso do sexo, soma-se ainda o estigma, a censura e o risco de criminalização.
Ao mesmo tempo, essas trabalhadoras articulam formas coletivas de denúncia e enfrentamento a crimes sexuais, especialmente os que envolvem menores, buscando se diferenciar do imaginário que associa pornografia a abuso. A luta por reconhecimento e regulação acaba sendo também uma luta por justiça informacional e dignidade laboral.
Conclusão: o espelho do nosso tempo
A pornografia é um espelho incômodo: cada sociedade vê nela o que quer controlar. Do impresso ao algoritmo, ela reflete as formas de poder, regulação e economia de cada época. Hoje, o obsceno não está mais no corpo nu, mas no dado sensível, no algoritmo que decide quem pode existir digitalmente.
Esse percurso do bizarro ao industrial, do altporn ao regime farmacopornográfico de Paul B. Preciado mostra que a pornografia deixou de ser somente um gênero audiovisual. A plataformização dilui fronteiras entre pornografia e prostituição, erotismo e intimidade, instaurando novas formas de mediação tecnológica e mercantilização da sexualidade.
Pensar a pornografia hoje é, portanto, pensar as mutações do próprio trabalho, da visibilidade e do desejo em meio às economias digitais. Não há essência no pornográfico, há contextos, tecnologias e disputas. O desafio é deslocar do campo moral e inseri-la no campo político: o da liberdade sexual, da economia do cuidado e do reconhecimento do trabalho como forma legítima de existência.
