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Ginecologia natural: mais do que ervas, é sobre autonomia e autoconhecimento

por Helena Bertho
19 de fevereiro de 2019
“A ideia é que a mulher possa ela mesma se observar e identificar quando algo não está normal e daí procurar ajuda profissional”, diz a ginecologista natural Bel Saide

Se você não é adepta da ginecologia natural, muito provavelmente tem alguma (ou algumas) amigas que andam falando disso. Nas dezenas de grupos no Facebook, os papos sobre o assunto são os mais diversos: vão desde trocas sobre parar de usar o anticoncepcional, até dicas de como fazer um O.B. de alho para tratar candidíase.

Euzinha mesmo tenho tentado aderir (ou achava que vinha tentando, como vocês vão entender já já) ao conceito de ginecologia natural, achando que se tratava da ideia de trocar os remédios tradicionais por alternativas mais naturais e menos agressivas ao corpo. Mas a verdade é que a ginecologia natural é bem mais que isso.

Por outro lado, já ouvi muita gente falando que se trata de uma coisa irresponsável, que coloca a saúde da mulher em risco, ao usar tratamentos que não seriam cientificamente comprovados. Será que é isso?

Bati um papo com a ginecologista Bel Saide, do site Ginecologia Natural, para entender melhor do que se trata e como funciona.

“Às vezes o médico se engana ou um tratamento não funciona. É importante saber que você também é responsável pelas suas escolhas”, diz a ginecologista Bel Saide. Foto: arquivo pessoal

É preciso enxergar o corpo como um todo

Bel é ginecologista e obstetra, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e trabalhou por 11 anos como obstetra no Sistema Único de Saúde (SUS). “Eu gostava do que fazia, mas sentia que ainda não tinha encontrado meu lugar. Encontrei quando descobri a ginecologia natural.”

Ela mesma ingressou nesse universo achando que se tratava de usar ervas para tratar questões ginecológicas. Mas fez um curso de ginecologia natural com uma professora argentina e descobriu que era algo muito mais amplo.

Mas o que, então? “É uma coisa muito profunda sobre a relação da mulher com o corpo dela. Autoconhecimento, percepção do próprio corpo, valorização do ciclo menstrual, relação com as emoções…”

Leia mais: Por que tantas mulheres odeiam suas bucetas?

Ok, parece bonito, mas como isso funciona na prática? Bel explica que a “medicina ocidental é muito centrada na indústria farmacêutica e dos exames. Mas qual a saúde que você vai buscar no médico? Quantas vezes ele pergunta sobre seu estilo de vida, sua alimentação, seu trabalho? Se você dorme bem? Se tem momentos para fazer o que gosta? Se cultiva boas relações? Para mim, a saúde é algo abrangente, que engloba várias esferas da vida: física, mental e até espiritual”.

Como exemplo, ela cita a famigerada candidíase. “Muitas mulheres chegam no meu consultório e falam: ‘estou com candidíase e não quero usar pomada’. Claro que eu vou indicar um tratamento, se ela está com a xoxota coçando, primeiro precisa parar de coçar. Mas acredito que a cura está em fatores mais profundos, precisa olhar a mulher de forma global. O que come, como dorme, mil coisas. Só vai curar mesmo, quando conseguir se enxergar dessa forma.”

Ela inclusive diz que essa ideia de procurar a ginecologia natural somente para achar uma erva que trate o problema é ainda uma reprodução do pensamento alopático, que foca na doença e não na saúde. Confesso, eu pensava assim.

Autonomia e autorresponsabilidade

Além desse olhar global, a ginecologia natural também trabalha muito com as ideias de autoconhecimento e autonomia da mulher. Na clínica de Bel, e de cada vez mais ginecologistas, é a própria paciente quem insere o espéculo para o exame. E toda a observação é feita com um espelho, para que a mulher possa conhecer a aparência do seu canal vaginal e colo do útero normais, para poder observar em casa e perceber quando algo está errado.

“A ideia é que a mulher possa ela mesma se observar e identificar quando algo não está normal e daí sim procurar ajuda profissional”, explica Bel. E completa: “Para pequenos cuidados, a mulher é capaz de se cuidar sozinha.”

Apesar disso, ela acha importante destacar que é preciso ser cuidadosa com o que faz. Bel acha muito interessante esse movimento de compartilhamento online de informação entre as mulheres, mas lembra que tratamentos naturais também podem fazer mal se usados da forma errada.

“Eu dou um conselho para as mulheres: pesquise muito, leia, estude antes de usar. E uma coisa é importante de dizer: autonomia é linda, mas autorresponsabilidade também.”

No consultório, a decisão ainda é da mulher

A questão da responsabilidade também é central na ginecologia natural. “Existe uma crise na medicina. As pessoas criticam muito os médicos, mas ao mesmo tempo os colocam no lugar de deuses. Às vezes o médico se engana ou um tratamento não funciona. E é importante saber que você também é responsável pelas suas escolhas.”

Isso passa por escolhas de estilo de vida, escolha do médico e até do tipo de tratamento.

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E nos consultórios de ginecologia natural, isso é levado a sério. “O médico não deve falar para a mulher que sabe mais sobre seu corpo do que ela mesma. A gente sai dessa posição hierárquica, as decisões são horizontais. No consultório, eu sou a pessoa que detém um conhecimento que a paciente não tem. Mas eu vou informá-la e ela vai chegar ao ponto de tomar uma decisão.”

Medicina e controle dos corpos

Durante nossa conversa, Bel me lembrou que ginecologia é uma especialidade médica. “Não estamos falando de um generalista. E quem vai a um generalista uma vez por ano quando está com a saúde legal? O único médico que se diz que a mulher é obrigada a ir todo ano, mesmo sem sentir nada, é o ginecologista. Em médicos especialistas o normal é que a gente vá quando tem uma questão específica”, afirma.

Para ela, isso é um sintoma do patriarcado. “Um resquício do controle dos corpos das mulheres, da sua sexualidade. A mulher não deve conhecer a própria vagina, ela vai a um médico para olhar”.

Por isso, a ginecologia natural parte do princípio contrário.

Isso não quer dizer que ela diga para não ir ao médico, deixar de fazer exames ou não tomar remédio, mas tudo isso deve ser feito de acordo com a necessidade real.

Não tem como comprovar cientificamente o que não é estudado

Sobre o uso de alimentos, ervas e outras formas de tratamento, vale saber que sim, a ginecologia natural procura caminhos diferentes dos remédios tradicionais. Pode ser que uma ginecologista te recomende colocar alho na vagina, ou fazer banhos de assentos com chá ou ainda se tratar com óleos essenciais.

Mas a eficácia dessas alternativas é cientificamente comprovada?

Algumas sim, como a fitoterapia. Outras, não. Mas a especialista chama atenção para um detalhe: “uma coisa é dizer que ninguém nunca foi estudar e por isso nunca comprovou que funciona. Outra é falar que já foi estudado e comprovado que não funciona”.

Quando se fala em terapias tradicionais e naturais, muita coisa não foi estudada pela ciência ocidental e por isso não tem essa validação, mas isso não quer dizer que não funcione.

No consultório de Bel, as opções naturais são prioridade, mas não exclusividade. “Se a mulher tem uma infecção urinária que não responde aos óleos ou chás, a gente vai usar antibiótico, é óbvio”, explica.

Não tem milagre nem lá, nem cá

No fim das contas, conversando com a Bel entendi que a ginecologia natural é uma coisa bem mais pé no chão do que parece. Não é uma coisa irresponsável, de sair por aí usando plantas ou comidas como remédio, de forma indiscriminada. Mas também não é aquela coisa de tratar só a doença, sem cuidar da saúde.

O que mais me chamou atenção nisso tudo, mais até do que a ideia de usar ervas ou fitoterápicos para tratamentos, é que nela a mulher assume o protagonismo: a gente passa a entender nosso corpo, aprender sobre ele, reconhecer quando algo está errado e se torna responsável pela própria saúde.

Não adianta ir na ginecologista natural esperando um milagre que salve sua vida, assim como não adianta ir no médico alopata para isso. A vagina, a vulva e o útero são parte de um corpo todo e se não cuidar do resto, eles também não vão estar saudáveis. E não há iogurte, alho, melaleuca ou pomada que possam driblar isso.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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