
Os feminismos sempre estiveram em disputa entre agendas, estratégias de ação coletiva, concepções de opressão e formas de visibilidade pública. No cenário atual, marcado pela plataformização dos debates, essas disputas assumem novas dinâmicas. As pautas circulam de maneira mais difusa, alcançam públicos ampliados e intensificam os embates sobre a compreensão das desigualdades que atravessam nosso cotidiano.
Entre as divergências históricas do campo feminista, dois temas permanecem centrais desde a década de 1970: trabalho sexual e transexualidades. Ambos se consolidaram como pontos recorrentes de discordância, especialmente em relação a uma vertente específica: o feminismo radical.

Esta coluna parte de uma pergunta frequente nas mensagens que recebo: por que muitos perfis contrários ao reconhecimento do trabalho sexual também rejeitam a identidade de pessoas trans e travestis? A dúvida costuma vir acompanhada de receio, sobretudo quando esses perfis se apresentam como defensores da maternidade ou da proteção das mulheres. É um debate sensível, mas necessário para compreender como determinadas leituras do feminismo estruturam alianças, redes e táticas de mobilização.
Afinal, o que é o feminismo radical?
O feminismo radical emerge no final dos anos 1960, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, defendendo que a opressão das mulheres é estrutural e fundante das demais desigualdades sociais. Ele parte de três premissas centrais: a sociedade é organizada pela supremacia masculina; os homens constituem uma classe dominante; e as mulheres, uma classe oprimida. Não se trata apenas de desigualdade jurídica ou econômica, mas de um sistema que atravessa família, sexualidade, cultura, religião, ciência e Estado.
Autoras como Shulamith Firestone, Kate Millett, Andrea Dworkin e Catharine MacKinnon foram centrais para essa formulação. Associadas ao lema “o pessoal é político”, deslocaram o foco do feminismo das arenas exclusivamente institucionais para o corpo, a sexualidade e a intimidade. A denúncia da violência doméstica, do estupro, do assédio e das normas sexuais integrava esse movimento de politização da vida privada.
A sexualidade passa a ser campo de poder e dominação. A partir dessa leitura, pornografia e prostituição são compreendidas como expressões estruturais da desigualdade de gênero. E, para enfrentar essa estrutura, constrói-se a categoria “mulher” como sujeito político.
Mesmo com as diferenças entre as autoras, todas partem da ideia de que a diferença sexual sustenta uma hierarquia social institucionalizada. Então, superar a opressão seria necessário não apenas para ter igualdade de direitos, mas para gerar transformações profundas nas relações sexuais, na organização da família e nas normas culturais.
O feminismo radical, contudo, nunca foi homogêneo. Houve divisões importantes: antipornografiaversus feminismo pró-sexo; leituras materialistas versus construtivistas; posições divergentes sobre inclusão de mulheres trans; e aproximações — ou não — com políticas estatais punitivas.
O calcanhar de Aquiles: punitivismo e alianças conservadoras
Uma das críticas mais contundentes ao feminismo radical, sobretudo nos anos 1980 e 1990, foi sua aposta na expansão do punitivismo como estratégia política. A crítica estrutural à sexualidade masculina encontrou no aparato jurídico-penal um caminho de intervenção.
Em Nova York, nos anos 1980, Andrea Dworkin e Catharine MacKinnon apoiaram propostas legislativas antipornografia que contaram com respaldo de setores conservadores. Essas iniciativas abriram precedentes para alianças táticas entre feministas antipornografia e grupos religiosos de direita.
A socióloga Elizabeth Bernstein denominou de “feminismo carcerário” essa convergência entre feminismo antipornografia, campanhas contra o tráfico sexual, expansão do sistema penal e agendas conservadoras religiosas.
Essa lógica reaparece, em escala digital, na aprovação de propostas que alteraram a legislação estadunidense sobre responsabilidade de plataformas. Apresentada como combate ao tráfico sexual online, a medida provocou o fechamento de espaços digitais onde trabalhadoras sexuais anunciavam e se organizavam, empurrando muitas para condições mais precárias e inseguras.
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Velhas pautas, novas táticas
Se nos anos 1980 o eixo central era “violência contra mulheres”, hoje o foco estratégico é a proteção da infância e a defesa da maternidade. A infância opera como poderoso dispositivo moral e político. Há uma convergência contemporânea entre oposição ao trabalho sexual e às identidades trans que passa, cada vez mais, por esse enquadramento: ambos são apresentados como ameaça às crianças.
A maternidade surge como lugar de autoridade moral inquestionável. É nesse registro que organizações como a Matria – Mulheres Associadas, Mães e Trabalhadoras do Brasil constroem sua legitimidade pública, articulando lobby político, discursos de proteção e aproximações com setores sociais conservadores.
Relatórios da ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais apontam como essas redes radicais atuam em câmaras municipais, assembleias e no Congresso Nacional para restringir direitos de pessoas trans.
Uma das ações para o Dia Internacional das Mulheres da Matria foi promover a visita ao Brasil da relatora especial da ONU sobre violência contra mulheres e meninas, Reem Alsalem. Ela se opõe à lei de identidade de gênero, apoia a exclusão de atletas transexuais e a proibição de procedimentos de saúde transespecificos. Recentemente, Reem recomendou a eliminação do termo “trabalho sexual” em documentos do Comitê sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW).
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Feminismos, desafios e exclusões
Se há algo que a história do feminismo nos ensina é que alianças importam e podem custar caro. Quando agendas feministas se apoiam em discursos punitivistas e moralizantes, o preço pago costuma ser a restrição de direitos das populações mais vulneráveis e, futuramente, para todas as pessoas. Sob o pretexto de proteção das mulheres e das crianças, vemos o avanço de propostas que ampliam o controle estatal sobre corpos dissidentes, sexualidades não normativas e formas não convencionais de trabalho.
Algoritmos, ao premiar a indignação nas plataformas digitais, favorecem a despolitização e engajam o medo. O resultado é um feminismo cada vez mais mediado por influenciadoras, descolado de movimentos de base, sustentado por recortes morais que são facilmente compartilháveis. A pedagogia política cede lugar à performance política.
Quando trabalho sexual e transexualidade passam a ser enquadrados como ameaças à infância, está em jogo a definição de quem é reconhecida como mulher legítima, de quais corpos merecem proteção e quais serão transformados em inimigos sociais.
O desafio colocado às agendas feministas hoje não é apenas recusar essa falsa dicotomia entre segurança e autonomia. É lembrar que defender mulheres não pode significar excluir mulheres e outras pessoas; proteger crianças não pode significar produzir novos alvos de perseguição.
Se o feminismo se afasta dos movimentos sociais e se ancora apenas na autoridade moral da maternidade, pode se tornar aquilo que sempre combateu: um projeto de controle sobre corpos e sexualidades.
A pergunta que permanece é simples e incômoda: queremos um feminismo que garanta direitos, autonomia e liberdades ou um feminismo que administre proibições?
