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O que é sexo para você?

por Helena Bertho
28 de novembro de 2018
A ideia de que sexo acontece apenas quando há penetração ignora o prazer feminino, é preconceituosa com lésbicas e coloca nossa saúde em risco
Sexo acontece somente quando há penetração? Crédito: Unsplash

– Faz tempo que eu não faço sexo. Semana passada só rolou oral e umas mãozinhas – disse minha amiga.

E eu fiquei com aquela cara de interrogação.

– Ué, então você transou semana passada.

– Não, não transei. Sexo é quando rola penetração.

Depois disso, veio uma longa discussão sobre o que seria sexo ou não. Mas, mais do que a discussão, o que quero trazer é a reflexão sobre o que nós definimos como sexo e as consequências disso. Seria transar só aquilo que acontece quando uma coisa, tipo um pênis, penetra outra coisa, tipo uma vagina?

Vamos começar com o básico quando se fala em definição, o dicionário. No Houaiss é definido como o “contato físico entre indivíduos envolvendo estimulação sexual dos genitais, por meio do qual é possível gerar novos seres”.

Bem, segundo esse dicionário, sexo entre lésbicas ou gays não é sexo, então. Ou, se eu tomo pílula e transo com um homem, também não seria sexo, porque não vou gerar novos seres, certo?

Acho que essa definição é bastante limitada, né? Desde a década de 60 falar de transar para gerar novos seres está um tanto ultrapassado.

Então vamos tentar outras formas de definir o ato sexual.

Conversando com amigos heterossexuais, porém, o que mais ouvi foi a definição de que sexo aconteceria quando há penetração. De fato, essa é a visão mais comum por aí, tanto que é dela que vem o conceito de “ser virgem” enquanto a mulher ainda tiver o hímen.

A questão é que essa visão dominante do que seria sexo é extremamente problemática. Por três motivos principais: desconsidera o prazer da mulher, é lesbofóbica e traz riscos de abuso e para a saúde.

O centro do sexo é o pênis?

Falar que sexo só acontece quando há penetração é ter uma visão extremamente falocêntrica (centrada no órgão sexual masculino) da sexualidade. É uma lógica que diz que o sexo só pode começar quando há um pênis ereto e termina com a perda da ereção.

Tudo que acontece fora disso seria preliminar ou pós-coito.

Mas você sabia que só 18% das mulheres consideram a penetração suficiente para chegar a um orgasmo? Não sou eu que estou falando, é a maior pesquisa sobre sexualidade já feita, do site OMGYes, que ouviu 2 mil mulheres.

E esse dado faz sentido se olharmos para a anatomia das vaginas: é o clitóris, que fica fora do canal vaginal, o órgão com maior potencial de prazer no corpo feminino.

Então, centrar a definição de sexo na penetração é centrar a sexualidade no homem e ignorar o prazer o feminino. É tornar aquilo que pode ser mais prazeroso para a mulher como menos importante, como “o que vem antes” do que “realmente importa”. São extras.

A transa de lésbicas não é sexo?

Poxa, se tudo que não é penetração é extra, como estamos olhando para a sexualidade dos casais de mulheres cis ou casais héteros com uma das pessoas sendo trans? Me parece que estamos desconsiderando por completo suas sexualidades. E isso é um grande preconceito.

É dizer para todas essas pessoas que suas vidas sexuais são incompletas. O que, além de todos os prejuízos simbólicos e psicológicos, leva à violência.

Sim. Primeiro, a violência em saúde. Muitos médicos, educados nessa lógica centrada no pênis, tratam mulheres lésbicas como se fossem virgens. Isso faz com que a ciência praticamente não trabalhe para desenvolver métodos para prevenção de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis, antes chamada de DSTs) para lésbicas. E também leva à violência ginecológica dentro do consultório, que muitas vezes impede o diagnóstico de doenças.

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Eu já ouvi histórias de mulheres que tiveram seus pedidos para exames negados por médicos que disseram que seriam virgens, mesmo elas dizendo que são sexualmente ativas com suas parceiras.

Além disso, existem os chamados estupros corretivos. Só entre 2014 e 2017 foram 126 casos, segundo uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Estupros corretivos são uma forma de violência sexual em que homens abusam de mulheres lésbicas com o intuito de “corrigir” sua sexualidade.

A lógica por trás dessa violência é de que essas mulheres não gostam de homens porque ainda não provaram sexo com um pênis. Ou seja, é a forma mais violenta que pode ganhar essa ideia de que sexo só acontece quando há penetração. A gente quer alimentar esse tipo de mentalidade? De forma indireta, e sem querer, é isso que estamos fazendo ao definir sexo.

As meninas ficam em risco

“Pelo fato de sexo oral, mais uma vez, ser ignorado por pais e educadores, existe uma crença generalizada entre os adolescentes de que ele não oferece nenhum risco. O resultado é que, enquanto as taxas de sexo com penetração e gravidez caíram nos últimos trinta anos, as de doenças sexualmente transmissíveis não seguiram o mesmo curso”, escreveu a americana Peggy Orenstein no livro Garotas e Sexo (Zahar, 2016).

Peggy entrevistou 70 adolescentes sobre suas vidas sexuais e o livro é resultado dessa pesquisa. Um capítulo quase inteiro é dedicado a entender porque as meninas todas topam fazer oral nos caras e consideram que isso não é sexo. Além disso, a autora mostra como isso coloca as garotas em situação de desigualdade, uma vez que não acontece a reciprocidade, além do risco de contraírem doenças.

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Pense assim: nossa sociedade ainda diz muito que transar antes do casamento é errado. Ao mesmo tempo, essa mesma sociedade é extremamente sexualizada, com conteúdos eróticos distribuídos na música, no cinema e até nos videogames.

Some a isso o fato de que sexualidade é tabu e pouco se fala sobre o assunto com o objetivo de preparar os jovens para a vida sexual. Pronto! Temos a receita perfeita para que meninas e meninos cheios de hormônios tentem driblar os conceitos de sexo de maneira mal informada e machista, se colocando em risco.

Mas então o que é sexo?

Mas então o que define o ato sexual? Sinceramente, não há uma definição clara estabelecida e aceita mundo afora. Algumas pessoas definem como qualquer estimulação dos genitais. Mas eu, particularmente, gosto mais da definição que ouvi uma vez de uma terapeuta tântrica: de que seria toda troca que estimula nosso corpo de uma maneira sexual.

Não necessariamente precisa envolver os genitais. Se há duas (ou mais) pessoas, desejo, consentimento e estímulo, até um beijo pode ser sexo. Inclusive, se a gente começar a olhar assim e explorar mais nossos corpos de maneira menos centrada no pênis e até na buceta, podemos descobrir que tem muita chance de prazer que andamos ignorando.

Fica a dica.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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