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21 de janeiro de 2026

O que eu vivi como ameaça foi transformado em piada

Um fim de semana entre lésbicas em São Paulo revela como gestos aparentemente pequenos podem abalar a confiança e o que sustenta um encontro seguro

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Colagem mostra uma pessoa com expressão assustada, mãos no rosto, dentro do contorno de uma lâmpada. A imagem é em p&B, mas a camiseta tem listras nas cores do arco-íris. Ao fundo, planos azul e rosa texturizados.

Estávamos em nove mulheres lésbicas, reunidas em um apartamento alugado por uma plataforma, em São Paulo. A proposta era passar o fim de semana juntas, de sexta a domingo, entre conversas, comidas e intimidade. Naquela noite, depois de algumas pizzas e do último capítulo da novela das nove, iniciei uma dinâmica baseada na confiança mútua.

Propus que tirássemos a roupa: era um gesto de entrega e cuidado coletivo. Disse que não havia risco, não haveria julgamento e que eu confiava em cada uma ali. Fui a primeira a ficar de roupa íntima. Uma moça me acompanhou. Em seguida, alguém sugeriu apagar a luz. Concordei, acreditando que isso poderia deixar todas mais confortáveis. Pouco depois, a luz foi acesa. Perguntamos quem tinha feito isso. Todas negaram. Algo então começou a se deslocar em mim. 

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Testei comandos simples da automação de luz do apartamento e eram obedecidos. Sem identificar uma causa tecnológica, passei a interpretar o acontecimento como um risco real: pensei em invasão, espionagem… alguém nos observando justamente no momento em que nossos corpos estavam expostos.

Entrei em estado de alerta. Vesti a roupa e disse para elas que aquele lugar não era seguro. Sugeri que fôssemos para minha casa. Mas a percepção de insegurança não era compartilhada pelo grupo, então entendi que, se eu ficasse, entraria em crise. Decidi ir embora sozinha.

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Atravessei a cidade chorando com um desconhecido

Desci com algumas delas até a rua, chamei um carro por aplicativo e atravessei a cidade, do centro à periferia, no banco de trás de um veículo dirigido por um homem desconhecido. Chorei, tremi. Fui levada a duvidar do meu próprio medo. Só ao chegar, senti o corpo desacelerar.

No sábado, acordei ainda sensível. Entre o que tinha sido real e o que poderia ter sido paranoia, eu seguia fragilizada. Uma das mulheres mandou mensagem perguntando como eu estava e me convidando para encontrá-las em um bar. Aceitei por ver ali um gesto possível de cuidado: a chance de um abraço, de não ficar sozinha com o que tinha vivido.

Quando cheguei ao bar, ninguém perguntou como eu estava. Seguimos conversando, compartilhando intimidades, como se a noite anterior não tivesse deixado marcas. Apenas a mulher que havia me escrito perguntou se eu queria conversar. Respondi que não. Eu ainda tentava me recompor.

Enquanto conversávamos, algo começou a se repetir. Outra mulher interrompia a conversa insistentemente para perguntar qual cerveja aquela que me enviou a mensagem queria beber. Mesmo após pedidos de “um minuto”, a interrupção continuava. Então ela deu toques no braço, depois chutes leves no sapato, até que a conversa foi interrompida à força. 

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A dificuldade coletiva de acolher corpos em vulnerabilidade

Ali percebi com mais clareza o que já vinha se desenhando desde a noite anterior: havia uma dificuldade coletiva de acolher corpos em vulnerabilidade. O encontro imaginado precisava funcionar, mesmo que alguém não desse conta. Qualquer desconforto era tratado como excesso, algo a ser rapidamente contornado. Encerrei minha participação e fui embora.

No domingo, fim da tarde, recebi uma mensagem daquela mesma mulher que me convidou para o bar. Ela contou que, já no final do encontro, uma das participantes revelou que apagava e acendia a luz na noite de sexta-feira. Ela disse que essa mulher fez a revelação às gargalhadas, afirmando que era apenas uma brincadeira. 

Senti alívio por não haver risco real, mas veio outra camada de dor. Aquilo que eu vivi como ameaça foi transformado em piada. Soube depois que minha vulnerabilidade virou deboche.

Dias depois, uma outra mulher do grupo mandou uma mensagem. Ela dizia que o que aconteceu era apenas a reprodução da lógica da sociedade, e que não temos controle sobre as relações, sobre como as pessoas recebem e afetam umas às outras. E afirmou que ninguém é responsável por ninguém — no máximo, as pessoas podem ter algum cuidado com as outras.

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A falta de cuidado naturalizada como reflexo da sociedade

Algo ali se fechou em mim. Nomear o encontro como reflexo da sociedade transformava o que eu tinha vivido em algo inevitável. Não se tratava mais de escolhas ou de falhas concretas de cuidado, mas de um funcionamento dado, quase natural.

Entendi então que a recusa da responsabilidade não é neutra. Ela organiza o espaço. Define quais corpos podem atravessar conflitos sem consequência e quais precisam sustentar sozinhos os impactos. Quando a responsabilidade é recusada, o cuidado vira opcional. Alguns corpos são imediatamente reconhecidos, escutados, apalavrados. Outros precisam justificar o próprio limite, explicar o próprio medo, provar que sua dor merece existir. 

Desde então, tenho pensado sobre o que sustenta um encontro e sobre os limites entre intimidade e exposição. Então eu decidi não estar no próximo. Não como punição ou rompimento, mas como recolhimento. Permanecer em espaços onde a vulnerabilidade vira ruído cobra um preço que o corpo aprende a pagar cedo demais.

Cuidar de mim foi também recusar a naturalização dessa lógica.
*Texto de autoria humana, com apoio técnico de ferramenta de inteligência artificial.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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