
A menos de três meses das eleições, o cenário eleitoral deste ano começa a ganhar contornos mais definidos. Sem dúvida alguma, tanto a direita quanto a esquerda sabem da importância do voto feminino e, especificamente, a importância do voto das mulheres evangélicas. Assim, na coluna deste mês, trago uma análise do voto da mulher evangélica a partir das minhas próprias pesquisas e de outras pesquisadoras da religião.
Em primeiro lugar, eu não considero o voto evangélico como uma categoria analítica em si. Se fosse assim, em 2002, lideranças evangélicas como Silas Malafaia, Eduardo Cunha, Anthony Garotinho, dentre outras não teriam subido no mesmo palanque que Lula, em sua primeira vitória.
Magali Cunha, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), nos mostra que a essencialização do voto evangélico reforça a polarização política de nós contraeles e dificulta o diálogo tão necessário na disputa pelos votos.
Contudo, como o voto é reflexo da conjuntura sociopolítica, não há dúvidas da atual orientação à direita dos votos evangélicos; e com pesar, à extrema direita. E é neste cenário que analiso esta categoria do voto feminino a partir de três eixos: religião e moralidade, políticas públicas e família.
Religião e moralidade: a ascensão da conservadora moderada
Quando se trata do quesito religião e moralidade, os holofotes focalizam Cris Tonietto (PL/RJ), Sonaira Fernandes (PL/SP) e Michelle Bolsonaro (PL/DF), como representantes da mulher evangélica conservadora. Quando se pensa em evangélicas progressistas, logo vêm à mente Benedita da Silva (PT/RJ), Marina Silva (REDE/SP) e Monica Francisco (PT/RJ).
É uma chave binária, em que as mulheres ou são progressistas ou são contra as pautas feministas. No entanto, tem crescido um perfil público de mulher evangélica que confunde o cenário binário: as conservadoras moderadas.
Em maio deste ano, a pastora Helena Raquel viralizou com uma pregação incentivando mulheres evangélicas a denunciarem agressões domésticas. A pregação aconteceu no congresso missionário dos Gideões, onde, em 2024, Marco Feliciano, aliado reconhecido do bolsonarismo, disse que delegacia de crente é o círculo de oração (sic), incentivando que mulheres orassem em vez de denunciarem seus agressores.
Há também vereadoras que chamam a atenção, como uma pastora de São Paulo, que se apresenta como mulher negra, periférica, mãe solo e lutadora contra o racismo. Ela ostenta dizeres como “toda vez que uma mulher preta rompe uma barreira, abre caminho para todas nós!”.
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Políticas públicas: o foco está na resposta às demandas cotidianas
A pesquisa “Mulheres evangélicas, política e cotidiano”, realizada em 2022 pelo Instituto de Estudos da Religião, destacou que não se pode analisar o pertencimento religioso e o entendimento político dessas mulheres de forma linear.
O estudo identificou contradições como eleitoras de Bolsonaro favoráveis à educação sexual ou apoiadoras de políticas de distribuição de renda. Esse dado é crucial para compreendermos como disputar o voto dessas mulheres. Tratá-las de modo homogêneo não ajuda na criação de um programa político que as atraia.
A pesquisa também identificou que essas mulheres reconhecem o Estado como responsável pelo bem-estar da população. O levantamento concluiu que a influência das lideranças religiosas sobre essas mulheres não é absoluta. É o cotidiano que fará essas mulheres relativizarem as falas dos líderes religiosos. Quando esse posicionamento não responde ao que a vivência diária demanda, a chance delas agirem de forma diferente do que a liderança religiosa orientou é grande.
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Família: categoria alvo de políticas públicas
Outro grande equívoco do senso comum a respeito das mulheres evangélicas é acreditar que elas votam como os homens evangélicos. Segundo a pesquisa de intenção de voto do Datafolha, em 2022, o gênero impactou o desempenho de Bolsonaro no segmento evangélico. Enquanto 48% dos homens declararam voto nele, apenas 29% das mulheres disseram que votariam em Bolsonaro.
O discurso moralista que ataca direitos sexuais e reprodutivos, direitos das minorias e outras pautas progressistas, costuma afetar mais o voto masculino do que o feminino. No voto feminino, os programas sociais são muito importantes, justamente pelo cuidado ser responsabilidade das mulheres. Também por isso, elas acolhem melhor pautas como saúde, educação e moradia.
Armas são um tema que afasta as mulheres do discurso da extrema-direita, até porque são elas e seus filhos que são ameaçados com armas por agressores domésticos.
Eu acredito que as mulheres evangélicas compreendem a família muito mais como uma categoria política, que deve ser alvo de políticas públicas, do que uma categoria moral. E é nesse sentido que podemos estabelecer diálogo com elas. Enquanto o padrão misógino da extrema-direita pode afastar essas mulheres do campo conservador, pensar em políticas para o cotidiano e o cuidado, pode atraí-las para os programas progressistas.
Reação a vídeo de Michelle escancara a misoginia
Nas ciências sociais aprendemos que as categorias analíticas nos ajudam a entender a realidade, mas não dão conta de tudo. Embora eu acredite que esses três eixos apresentados sejam essenciais para compreendermos a dinâmica do voto da mulher evangélica, existem mais alguns temas que precisam ser analisados no atual cenário político, quais sejam: a relativização do voto da mulher; a mulher negra e a contradição como ferramenta central para entender essas mulheres.
O famoso vídeo em que Michelle Bolsonaro denuncia a misoginia dos filhos do seu “Galego” abriu a porta da misoginia dos aliados de Flávio Bolsonaro. E com essa movimentação em relação ao vídeo da ex-primeira-dama, os ataques ao voto feminino ganharam força. Paulo Figueiredo, um nome influente do bolsonarismo, afirmou que mulheres, sobretudo as solteiras, votariam mal. Assim, ele admitiu a dificuldade da extrema-direita em alcançar os votos das mulheres, mas, como é um misógino, colocou a culpa nelas.
Mas não podemos achar que esse desajuste do bolsonarismo trará uma reversão direta de votos para a esquerda, principalmente quando se trata do Legislativo. Embora o bolsonarismo tenha sido exitoso desde 2018, ele perder força não significa um enfraquecimento em todo o campo da direita. As conservadoras moderadas podem dar o tom da “nova direita evangélica”. Como eu escrevi na coluna anterior, a pauta da violência contra as mulheres e crianças tem ganhado espaço no meio conservador.
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A mudança de tom da direita evangélica
Inclusive figuras emblemáticas do bolsonarismo, como a senadora Damares Alves, têm amenizado o tom do conservadorismo para dialogar melhor com as mulheres. Outrora conhecida por uma postura contundente à extrema-direita, como ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo Bolsonaro, ela lançou uma campanha contra a violência doméstica chamada “Se liga irmã: não é falta de fé, é crime”.
O pesquisador Jairo Nicolau, autor do livro intitulado “O país dividido: Duas décadas de eleições presidenciais no Brasil”, apresenta questões sobre gênero, raça e evangélicos para as quais temos de atentar. Ele analisa as preferências eleitorais entre as eleições de 2002 e 2022 e demonstra que não há estabilidade na tendência política dos segmentos populacionais.
O livro apresenta em números a importância de explorarmos a interseção entre raça, gênero e evangélicos, afinal a base dos votos progressistas é composta por mulheres negras e estas são também a maioria da população evangélica. Nessa encruzilhada está a maior disputa eleitoral do momento: por parte da direita, atrair o voto das mulheres é uma questão que tem ficado cada vez mais complexa e, para a esquerda, o voto das evangélicas se apresenta cada vez mais como um tabu.
As nuances que a esquerda ainda precisa entender
Os números mostram que existem muito mais nuances entre “os evangélicos votam na direita e as mulheres tendem a votar na esquerda”. E para alcançar essas mulheres temos que dialogar diretamente com o chão da vida em que elas pisam. Na minha avaliação, hoje, a direita está saindo à frente com figuras que têm se conectado com esse grupo de mulheres.
Por fim, para mim a palavra necessária para analisar a dinâmica do voto da mulher evangélica é a contradição. Por ser um voto orientado pelo cotidiano, pela experiência diária, pela necessidade do cuidado e outras demandas da vida concreta, o voto chamado Frankenstein é muito comum entre as mulheres evangélicas. Elas podem votar no Lula para presidente, enquanto podem votar em uma pessoa conservadora para o Legislativo.
Acreditar que a mulher evangélica vota de forma estritamente ideológica, sem considerar a sua vivência e suas demandas é um erro basilar nas análises eleitorais que pretendem compreender esse segmento. Entender as múltiplas motivações para essas mulheres votarem ou deixarem de votar é a única maneira de construir um programa democrático que atenda às suas reais necessidades.
*Arte: Lory Costa
**Texto revisado com uso de IA
