
Toda vez que me indicam alguma série sobre trabalho sexual, sinto uma certa preguiça e desconfiança. Os motivos são muitos, mas o principal deles é o cansaço de encontrar sempre a mesma narrativa. Quase sempre, trabalhadoras sexuais aparecem desumanizadas e reduzidas a dois roteiros possíveis: a mulher explorada ou aquela que consegue “escapar” do trabalho ao encontrar um marido. Como se não existissem outras vidas possíveis.
Mas o lançamento de “Margô está em apuros”, da Apple TV, despertou minha atenção. Não apenas pelo elenco, mas porque a sinopse prometia abordar um tema que raramente aparece quando falamos de trabalho sexual: a maternidade. Antes de continuar, um aviso: esta coluna contém alguns spoilers, embora nada que comprometa a experiência de assistir à série.
Margô é uma jovem estudante de Letras que engravida após um relacionamento com um professor da universidade. Ele se recusa a assumir a criança, e ela passa a enfrentar, sozinha, as dificuldades da maternidade em meio à instabilidade financeira. Depois de perder o emprego como garçonete, ela decide abrir um perfil no OnlyFans.
O sexo mostrado como trabalho, não espetáculo
A partir daí, a série toma um rumo interessante. Em vez de transformar o conteúdo adulto em um espetáculo moral, acompanha o trabalho necessário para que ele exista. Margô aprende a criar uma persona, definir nichos, produzir conteúdo, construir uma audiência e entender o funcionamento das plataformas.
Descobre também um dos maiores desafios de quem trabalha nesse mercado: plataformas fechadas, como o OnlyFans, dependem da circulação em redes abertas para conquistar assinantes. É preciso produzir visibilidade antes mesmo de produzir renda. Margô conhece outras criadoras de conteúdo e elas passam a compartilhar conhecimentos sobre segurança digital, gestão da exposição, construção de audiência, negociação de limites e formas de ampliar a renda.
É justamente quando a narrativa parece falar sobre plataformas que ela começa, na verdade, a falar sobre maternidade. Margô acaba sendo reconhecida por uma pessoa. O que acontece quando sua ocupação torna-se pública é algo que tenho acompanhado na minha pesquisa de doutorado.
O pai ausente utiliza o trabalho sexual para questionar a capacidade daquela mulher de exercer a maternidade e disputar a guarda da criança daquela mulher. Como se vender conteúdo adulto contaminasse, por si só, a infância. Como se o trabalho sexual anulasse automaticamente o cuidado, o afeto ou a responsabilidade materna. Nesse momento, a série deixa claro que o maior conflito não está no trabalho sexual, mas no estigma.
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O problema nunca foi apenas o dinheiro
Foi impossível assistir sem lembrar um conceito desenvolvido por Claudia Fonseca ainda nos anos 1990. Ao estudar prostitutas em Porto Alegre, a antropóloga descreveu o que chamou de “dupla carreira”: a necessidade de administrar simultaneamente as vidas profissional e familiar, muitas vezes mantendo uma invisível para proteger a outra do estigma.
Décadas depois, pesquisas como as de Jeferson Bacelar e de Débora Barcellos mostram que trabalhadoras sexuais constroem maternidades, redes de cuidado e relações familiares tão complexas quanto quaisquer outras. Mas essas experiências quase nunca aparecem, porque o debate público insiste em enxergá-las apenas como vítimas ou ameaças. Talvez seja por isso que a história de Margô pareça tão familiar.
Ao longo dos meus anos de pesquisa, vi famílias inteiras sustentadas pela renda dessas mulheres. Vi estruturas profundamente matriarcais, nas quais filhos, netos, pais, irmãos e agregados organizavam suas vidas em torno do trabalho realizado por elas. Muitas conseguiram comprar uma casa, garantir estudo para os filhos, pagar tratamentos de saúde, alimentar famílias inteiras e construir redes extensas de cuidado coletivo. Era impossível não perceber que muitas dessas famílias existiam, material e afetivamente, graças ao trabalho sexual.
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Quem pode definir o que é uma boa mãe?
Também acompanhei o outro lado dessa história. Após separações marcadas por violência e abandono, vi ex-companheiros recorrerem ao estigma para disputar a guarda dos filhos. O trabalho sexual transformava-se, de repente, em argumento jurídico e moral, independentemente das condições concretas em que aquelas crianças eram criadas. Infelizmente, a vida nem sempre oferece o mesmo desfecho que a ficção.
Um dos episódios mais dolorosos que acompanhei durante a pesquisa foi o de uma trabalhadora sexual que perdeu a guarda dos filhos. As crianças tinham moradia estável, frequentavam escola, faziam balé e futebol. Ainda assim, uma decisão judicial transferiu a guarda para o pai. Meses depois, ela descobriu que uma das filhas havia sofrido abuso sexual cometido por um tio paterno. Esse caso nunca saiu da minha memória.
Nas redes sociais, também vi inúmeras mulheres que tiveram seus perfis descobertos e foram imediatamente colocadas em um tribunal público. Comentários questionavam, “o que será dessas crianças?”, como se o simples fato de uma mãe produzir conteúdo adulto fosse suficiente para condenar toda uma família. Mas talvez a pergunta devesse ser outra: “O trauma dessas crianças nasce do trabalho sexual de suas mães ou da violência produzida pelo estigma, pela exposição pública, pelos julgamentos morais e pelas próprias instituições?”
O estigma também é uma forma de violência
Vivemos em um país em que milhões de mulheres sustentam seus filhos em ocupações precárias e informais. Os dados da PNAD Contínua mostram que a informalidade permanece elevada, especialmente entre mulheres negras e de baixa renda, concentradas nos setores de serviços, comércio, educação, saúde e trabalho doméstico. O que diferencia o trabalho sexual dessas outras ocupações não é necessariamente a precariedade, mas o estigma.
Entre tantos trabalhos marcados pela informalidade, algumas mulheres optam pelo mercado sexual porque encontram melhores possibilidades de renda, maior flexibilidade de horário ou mais chances de conciliar a geração de renda com o trabalho doméstico e o cuidado dos filhos. Isso não elimina dificuldades, apenas nos lembra que escolhas são feitas dentro das condições concretas de vida.
Como escrevi recentemente em uma newsletter, o estigma em torno das maternidades das trabalhadoras sexuais é atravessado por fantasias sociais antigas. Muitas dessas fantasias são herdeiras do pensamento higienista e psiquiátrico do início do século XX, que construiu a prostituta como uma ameaça moral permanente. E assim difundiu a ideia de que a convivência entre prostitutas e seus filhos produziria, inevitavelmente, traumas, desvios ou abusos. Essas ideias continuam circulando.
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Discursos alimentam vigilância e exclusão
Escrevo esta coluna quase em tom de protesto, porque discursos produzem consequências concretas. Comentários aparentemente inofensivos, campanhas moralizantes e julgamentos nas redes sociais alimentam um senso comum que legitima perdas de guarda, vigilância institucional, exclusão moral e punição social.
Também precisamos reconhecer que todos participamos desse processo quando escolhemos quais mulheres serão consideradas vítimas legítimas, mães aceitáveis ou pessoas dignas de proteção.
Na minha newsletter, chamei essas mulheres de “mães outras”, porque nossa sociedade insiste em colocá-las fora daquilo que considera uma maternidade legítima. No fundo, o controle exercido sobre trabalhadoras sexuais revela os limites impostos às mulheres em geral: sobre suas sexualidades, maternidades e vidas como um todo.
Talvez algumas pessoas digam que “Margô está em apuros” romantiza o conteúdo adulto. Eu discordo. A série não romantiza nem transforma o trabalho sexual em uma tragédia inevitável. Ela faz algo muito mais raro: devolve complexidade a uma personagem que normalmente seria reduzida a um estereótipo.
