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Existe um mundo de experimentação sexual para mulheres?

por Helena Bertho
24 de junho de 2019
Espero que esse texto seja um grande absurdo e eu só não soube procurar os lugares certos do sexo casual para mulheres. Se eles existirem, me contem, por favor!

“O Grindr está um paraíso”, me contou um amigo esse fim de semana, falando sobre como a movimentação da cidade para a Parada do Orgulho LGBT estava agitando sua vida sexual. Caso você não saiba, o Grindr é um aplicativo de relacionamentos gays, mas com um enfoque claramente sexual.

A primeira vez que eu conheci o Grindr, em 2011 ou 2012, fiquei surpresa com a postura explícita dos caras: fotos dos corpos, dos peitorais aos pênis, tudo ali já à mostra, com descrições que não abrem margem para confusão e já dizem logo o que querem. Minha surpresa, não foi de julgamento e sim de inveja. Quem dera conseguir poder deixar claro que quero transar, quando quero transar, e como quero transar.

Claro que o Grindr foi só uma evolução digital de algo que já existia no mundo real. Homens sempre tiveram esse tipo de espaço para buscar sexo, sejam baladas, puteiros ou saunas. E lá na época já me surgiu uma questão: alguma forma disso existe para mulheres?

BDSM e swing

Num primeiro momento, várias pessoas me disseram que isso existe para mulheres hétero do mesmo jeito que existe para homens hétero no universo liberal do swing, troca de casais e BDSM. Por anos eu pesquisei esses espaços, falei com pessoas que fazem parte e frequentei algumas coisas, inclusive redes sociais focadas em sexo liberal (para pessoas swingueiras ou fetichistas), como o sexlog.

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A impressão que tive é de que, sim, mulheres que têm fetiches ligados ao BDSM encontram nesses lugares um espaço bem legal para viver suas sexualidades sem julgamento e com possibilidade de experimentar. Do mesmo jeito no rolê do swing, existe ali um espaço bem aberto para viver os fetiches.

Claro que também ouvi algumas coisas ruins, sobre lugares que são pensados e dominados por homens dentro disso. Mas também ouvi e vi muita coisa legal, festas, lugares e hábitos que permitiam realmente às mulheres viverem suas fantasias sexuais livremente.

Mas e quem é baunilha (traduzindo: curte um sexo bem padrãozinho, não tem muito fetiche), mas quer transar sem complicação e viver coisas novas?

“É que homens são mais sexuais”, me disseram

Fico com a sensação de que os homens podem encontrar espaço para testar e viver suas sexualidades como quiserem facilmente. Se é bi ou gay baunilha, tem sauna, tem grindr, tem mil coisas. Se é fetichista, tem todo o rolê BDSM ou liberal. Se é hétero baunilha, solteiro ou casado, para muitos sempre foi uma opção procurar uma prostituta.

E para nós?

As mulheres fetichistas e swingueiras têm esses espaços. Mas as baunilha, hétero, bi ou sapatão, tem que ralar para transar.

Ok, as prostitutas e michês também estão aí. Mas não existe uma cultura de mulher pagar por sexo. São mil barreiras mentais que se colocam no caminho. Festas liberais ou saunas lésbicas, nunca ouvi falar. Nos aplicativos, o caminho direto e explícito é bem raro e costuma assustar a maioria dos caras.

Já me disseram que isso acontece porque mulheres têm uma relação diferente com sexo. Homens seriam mais sexuais, por causa da testosterona e da biologia, enquanto mulheres precisam de mais estímulo mental para sentir tesão, por isso a necessidade de se relacionar antes.

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Isso tudo é pura construção social. Se for pra insistir na questão da biologia, como muitos homens ainda justificam as desigualdades e seu machismo, mulheres têm ciclo hormonal e durante pelo menos uma fase desse ciclo, muitas sentem um tesão maluco que pode ser desesperador. E sobre precisar se envolver, para depois ficar com tesão, a gente é educada para isso. Desde pequena ouvindo que é preciso se guardar, que tem que encontrar a pessoa certa para perder a virgindade, que é preciso ser recatada.

Toda a educação feminina conecta sexo com relacionamento. É uma ideia sendo martelada na cabeça das meninas pela TV, filmes, igreja, família e amigos desde muito cedo. É claro que essa ideia ocupa espaço e molda a forma como sentimos a sexualidade.

Quando uma mulher sente o tesão puro, sem nenhum vínculo, ela reprime, ela “faz doce” ou ela se culpa.

Espero estar errada

Sexo é tabu para todo mundo. Viver a sexualidade livremente é um problema para homens e mulheres. Mas tenho a impressão de que para nós, o tabu é ainda maior. Vide a quantidade de mulheres que não conhecem suas vulvas, que não tem o hábito de se masturbar ou que não tem orgasmos.

Se tocar uma siririca já exige ousadia de muitas de nós, imagina frequentar uma festa ou um aplicativo onde esteja explícito que o objetivo ali é sexo puro e direto.

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Por isso é que admiro as mulheres do BDSM e liberais. Nesses espaços elas fazem o que os caras em toda a sociedade fazem: se permitem viver e explorar suas fantasias sexuais com honestidade.

E para finalizar, quero dizer que espero que esse texto seja um grande absurdo e uma viagem minha e eu só não soube procurar os lugares certos do sexo casual para mulheres. Se eles existirem, me contem, por favor e eu faço uma errata, prometo!

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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