
Falamos de prazer, mas ainda sussurrando. Exploramos nossos corpos, mas com vergonha residual. Somos uma geração de transição, aprendendo a se libertar dos silêncios herdados. A gente fica com essa impressão no bate-papo com amigas, em vídeos e textos nas redes, em conversas que escutamos por acaso.
Mas o que acontece quando as mulheres são realmente ouvidas sobre sua vida sexual? Quando não há censura, julgamento ou a necessidade de agradar? O que dizem mulheres de 25 a 73 anos sobre prazer, desejo, culpa e autonomia? Uma pesquisa com 172 brasileiras revela um retrato complexo da sexualidade feminina.
Vivemos um momento de ruptura e reconstrução. Temos liberdades que nossas avós não imaginaram ter, mas seguimos lutando contra culpas que elas carregaram. Descobrimos nossos corpos, muitas vezes, sozinhas. E aprendemos que desejar é legítimo, mas esse desejo ainda é cercado de silêncio.
A educação sexual que não tivemos
Um dos motivos para tratar o tema como tabu, silenciar as vontades e os debates é a ausência de educação sexual, que deveria estar nas escolas, mas ainda hoje é atacada por grupos conservadores. Mais da metade das mulheres ouvidas não teve acesso a uma educação sexual estruturada: 32,5% nunca receberam nenhum tipo de orientação formal. Outras 31,4% classificaram a educação que tiveram como “pouco adequada”.
Sem escola, nem orientação médica, a maioria aprendeu com os pares: pessoas amigas (25,7%), revistas e livros (15,9%) e a própria escola (15,6%). Profissionais de saúde quase não aparecem nesse cenário.“É preciso muita conversa aberta, menos julgamento moral, mais educação sexual para quebrarmos o círculo de homens que podem tudo e mulheres devem ser recatadas”, relatou uma participante de 53 anos.
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O desejo é múltiplo e legítimo
Para 33% das mulheres, as primeiras sensações de desejo surgiram entre os 13 e 15 anos. Cerca de 20% relataram isso antes dos 12. Muitas delas mal sabiam o que estavam sentindo e, algumas décadas atrás, falar sobre o assunto com a mãe ou outras pessoas da família era quase impossível. Não falar de sexo não impediu que o desejo estivesse presente desde cedo, só dificultou uma relação saudável e tranquila com algo tão natural.
E mesmo surgindo cedo, o desejo feminino não desaparece com o tempo, apenas se transforma. Mulheres entre 45 e 55 anos relataram sentir menos vontade de transar, mas não menos tesão. Maternidade, estresse, menopausa e autoestima afetam, mas não anulam o desejo.
Sexo importa — mas nem sempre
Mesmo entre 23% das entrevistadas que disseram sempre atingir o orgasmo e 38% que afirmaram que isso ocorre frequentemente, o sexo não necessariamente ocupa um lugar central ou constante em suas vidas.
Mais de 30% afirmaram ter relações sexuais raramente, e quase um terço se masturba com pouca frequência. Há quem escolha a abstinência como forma de curar traumas resultantes de abusos sofridos na infância ou na fase adulta. “Minhas questões com o sexo eram sobre o excesso. Pouco se fala de mulheres como eu, que tinham o sexo como válvula e um vício. No meu caso, foi causado por abuso infantil e decepção com parceiros. Hoje o sexo não ocupa mais meus dias — ele se tornou energia criativa, não só sexual”, revelou uma participante.
Há quem tenha perdido o interesse no sexo porque ele gera dor, principalmente as que estão convivendo com as transformações hormonais da menopausa, período que, muitas vezes, elas atravessam sem apoio médico adequado. “Pós-menopausa, a falta de lubrificação torna a relação dolorosa, mesmo com uso contínuo de hidratantes. Isso tem sido o principal fator de fuga do sexo com meu marido”, contou uma entrevistada.
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Intimidade, confiança e escuta
A fala de outra participante mostra como o desejo feminino é complexo: “Me sinto muito carente às vezes. Tenho um homem sob o mesmo teto, mas zero contato físico. Às vezes penso que seria bacana ter alguém, e às vezes acho melhor ficar sozinha.”
E o que traz satisfação sexual para mulheres? Os números da pesquisa indicam a importância da parceria na relação: vínculo emocional (25,7%), sensação de segurança e acolhimento (21%), comunicação aberta (16%), além da exploração do próprio corpo e autoconhecimento.
Na prática, isso significa que o sexo satisfatório está menos relacionado à performance ou frequência, e mais à intimidade, confiança e escuta. E que tratar sexo sem tabu a cada fase da vida dá às mulheres mais segurança para ter prazer.
Invisibilidades que atravessam o prazer
Para as mulheres negras, os desafios gerais são somados a experiências mais específicas e também dolorosas. As entrevistadas relataram o impacto da hipersexualização e do preterimento racial em suas vivências. “Sou mulher preta… ser preterida e sexualizada passa por esse lugar do desejo que não é meu, é do outro”, afirmou uma participante de 27 anos.
Ainda hoje, é comum que o desejo feminino seja moldado a partir de expectativas e validações externas, principalmente as masculinas. A ideia de que a prioridade é satisfazer o outro, coloca a mulher em um segundo plano. O que permanece vivo e com grandes campos de engajamento nas redes sociais: influenciadoras e figuras que oferecem cursos, aulas e tutoriais de como “enlouquecer seu parceiro”. E isso alcança diferentes nichos e faixas etárias, colocando em cheque o sexo como exercício e ferramenta de prazer para si mesma.
Outro ponto importante sobre a pesquisa é que grande parte das respondentes dizem que o orgasmo é frequente nas relações, mas o sexo como parte da rotina é indiferente. Estamos inseguras, mesmo anonimamente, de denunciar nossas experiências não performáticas com a libido e parceires?
Embora mulheres mais velhas tenham destacado o etarismo como uma barreira concreta para a autoestima sexual, 36,7% das entrevistadas disseram não acreditar em “prazo de validade” da sexualidade, mas quase 30% expressaram dúvidas. Ou seja, a pressão por juventude e desempenho continua forte.
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O que aprendemos e o que queremos deixar
O que as 172 vozes da pesquisa nos ensinam é que não há fórmula única para a sexualidade feminina. Há, sim, a urgência de criarmos espaços de diálogo, acolhimento e informação qualificada, especialmente para temas como menopausa, que ainda vivem cercados de tabus. É fundamental que as próximas gerações tenham acesso não apenas à informação técnica, mas também à narrativas diversas que celebrem a multiplicidade de experiências sexuais femininas.
Pode soar óbvio, mas é fundamental reforçar que toda mulher tem o direito de redefinir sua sexualidade quantas vezes quiser, em qualquer fase da vida. E isso inclui o direito de escolher a abstinência, de priorizar outras formas de intimidade, de explorar novos prazeres na maturidade, ou de simplesmente existir sem ter que justificar suas escolhas sexuais para ninguém.
Vozes brasileiras que expandem o diálogo
Para quem deseja refletir mais sobre o assunto, reunimos uma seleção de obras de mulheres brasileiras que abordam sexualidade feminina, menopausa e prazer com a profundidade e diversidade que esses temas merecem:
- “Corpo, Envelhecimento e Felicidade” – Mirian Goldenberg sobre envelhecimento feminino
- “O cérebro e a menopausa: A nova ciência revolucionária que está mudando como entendemos a menopausa” – Lisa Mosconi sobre saúde da mulher madura
- “Quem Tem Medo do Feminismo Negro?” – Djamila Ribeiro sobre feminismo interseccional
- “Outros Jeitos de Usar a Boca” – Rupi Kaur (tradução brasileira) sobre corpo e cura
*Este artigo é baseado em pesquisa quantitativa realizada com 172 mulheres brasileiras com respondentes de 25 a 73 anos – tendo mais ênfase entre as faixas de 25 a 35 e 45 a 55 anos. As entrevistas foram feitas em maio de 2025 a partir de um formulário digital com 37 perguntas com referência ao Relatório Hite, estudo criado por Shere Hite sobre sexualidade feminina e masculina, na década de 70, nos Estados Unidos. Todas as participantes autorizaram o uso de seus relatos para fins educativos. Os nomes foram ocultados para preservar a privacidade das entrevistadas.
