logo AzMina
17 de fevereiro de 2016

Sobre ser gorda e estar sozinha

Milhares de mulheres gordas da minha idade sofrem na vida afetiva. Sofrem por não se encaixar em um padrão pré-estabelecido. Sofrem por não ser preferência masculina
Foto: Creative Commons/Paul-in-London
Foto: Creative Commons/Paul-in-London

P ara início de conversa: não vá pensando que eu tenho uma autoestima péssima! Eu tenho muito amor por mim mesma e sei reconhecer minhas qualidades. Sei que sou capaz de fazer muita coisa boa para as pessoas ao meu redor. O que eu quero abordar neste relato é o que milhares de meninas gordas da minha idade sofrem na vida afetiva. Sofrem por não se encaixar em um padrão pré-estabelecido. Sofrem por não ser preferência masculina. Sofrem por saber que todo o “esforço” que nós fizermos para começar um relacionamento está sendo em vão.

Eu sempre fui diferente das minhas coleguinhas de escola. Na rodinha, todas estavam falando o quão difícil era achar roupa tamanho 36. E eu sempre falava que eu tinha dificuldade por vestir números muito maiores. Elas, desde novinhas falando sobre seus namorados e planos para o dia 12 de Junho, sobre o que iam dar e ganhar de presente. E a menina gorda que vos fala tinha que ouvir piadinhas por ter uma paixão não-correspondida.

Foram várias paixões durante minha vida. Até hoje, quanto curto um cara, penso: “Ih, ele não deve curtir uma gorda”. E a maioria dos caras pensam assim. Quando entro nas redes sociais das minhas antigas paixões, as felizardas que estão comprometidas com eles são sempre brancas e consideravelmente magras. Até hoje, só vi UM cara que eu gostei namorar uma gorda.

Minhas amigas da época em que eu era caloura na faculdade me davam dicas de autoestima, de como se portar na frente dos caras, a ser discreta, fazer parte do perfil “boquinha fechada não entra mosquito”, a vestir “roupas que valorizam”. Lembro-me que uma delas era gorda. Ela falava em alto e bom tom “eu sou gorda e faço o maior sucesso, tá sozinha porque quer”.

Em uma de nossas saídas, uma amiga magra me apresentou uma música sexy para dançar. O objetivo era atrair homem. Na primeira tentativa eu fiz tudo errado. Não levava jeito para a coisa mesmo. Ela se gabava por ter cinco caras diferentes querendo namorá-la. Ela fazia o tipo “aceitável”, “corpinho em cima” e eu – no auge dos meus 18 anos – tinha muita acne e era muito gorda.

Os anos foram passando e a minha vida era ler blogs de relacionamento em que diziam: “tudo tem seu tempo”, “a hora certa vai chegar”, “não trate com prioridade quem te trata com opção”, “a arte de estar sozinha”, entre outros. Alguns deles com dicas “infalíveis” de “como conquistar o boy magia” ou então “instale o Tinder”.

Ah, o Tinder… Esse é outro problema pra mim. Já entrei nessa bagaça e nunca recebi um superlike. Coloquei uma foto de 6 anos atrás (antes de engordar 30kg) e um ou outro me curtia. Um desses caras me adicionou no Whatsapp, queria marcar encontro, mas quando me viu pelo Facetime – com minhas sobrancelhas bem grossas e minha cicatrizes de acne – resolveu desmarcar o encontro. O que eu fiz? Deletei o app.

A mulher gorda que passa pelo mesmo sofrimento pode até ganhar o Prêmio Nobel da Autoestima. Ela sempre vai ser preterida. As más línguas dizem que eu tenho uma autoconfiança péssima – já teve até YouTuber me dando dicas de como melhorá-la. Dizem que eu sou negativa, pessimista, que tenho que pensar positivo. É muito triste passar por tudo isso.

A única coisa que me tira da inocuidade afetiva é minha carreira que está apenas começando. Nela, eu tenho alguma chance. Nela, eu posso me sobressair se eu tiver visão e competência. Mas, no amor, eu me sinto de mãos atadas.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Quem está na cola do machismo mesmo?

Desde 2015, AzMina está do lado das mulheres e da luta pelos nossos direitos. E, ao nosso lado, nós tivemos muitas leitoras e leitores, que financiam o nosso trabalho e acreditam que jornalismo feminista deve chegar a todos. Graças aos nossos apoiadores, impactamos a vida de milhares de mulheres e produzimos cada vez mais conteúdos e projetos. Nossas reportagens, vídeos, podcasts, campanhas de conscientização e projetos como o PenhaS e o Elas no Congresso são totalmente gratuitos.

Se você valoriza tudo isso, considere fazer uma doação. Junte-se às mais de 500 pessoas que tornam o nosso trabalho possível. A maior parte dos nossos apoiadores contribui com R$ 20 mensais e cada real é importante.

O jornalismo feminista independente é muito essencial à Democracia sempre. Mas no Brasil de 2021, não podemos descuidar nem um dia. Para isso, AzMina depende de você.

APOIE A CONTINUIDADE DESSE TRABALHO HOJE!