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Raabe é uma mulher branca de cabelos ruivos longos e com franja, ela usa uma camiseta branca
29 de agosto de 2025

Das telenovelas ao pornô: as lesbianidades no audiovisual

Da cena censurada ao pornô campeão de cliques: o que as novelas e a pornografia dizem sobre ser lésbica no nosso país?

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Pessoa gorda de biquíni rosa, sentada de costas, olha para quatro televisores antigos que exibem corpos magros e cenas sensuais.

Quais são as lesbianidades construídas no audiovisual? Essa é uma questão pertinente neste mês do orgulho e da visibilidade lésbica, momento oportuno para reflexões a respeito da sexualidade, em muitas leituras possíveis. As telenovelas brasileiras e a pornografia, duas das categorias audiovisuais mais consumidas no país, aparecem como centrais nessa discussão.

O tema interessa porque o que é pautado sobre as homossexualidades femininas tem elementos que estabelecem o que é permitido ou vetado nas lesbianidades. Há um sistema que constrói vivências e corpos: ao se apresentarem como tradutoras e refletoras da realidade, as narrativas audiovisuais indicam crenças e comportamentos, designando imaginários, propondo desejos, fantasias e ideologias.

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No Grupo de Estudos em Lesbianidades (UFMG) acontecem discussões a respeito das lesbianidades enquanto práticas e identidades, em aproximações com Adrienne Rich, em seu artigo Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. A autora fala do continuum lésbico, numa menor marcação identitária e maior base em práticas cotidianas que não são necessariamente afirmações de si. Uma mulher pode, por exemplo, se relacionar afetivo-sexualmente com outra sem se identificar como lésbica, como apontam Joana Ziller e Dayane do Carmo Barretos em “Lésbicas também transam: disputas sobre a visibilidade das lesbianidades no Instagram”. Sendo assim, utilizaremos lesbianidades ao olhar as performances em tela.

As lesbianidades nas telenovelas brasileiras

A telenovela Entre quatro paredes, transmitida em 1963 pela TV Tupi, foi a primeira que abordou o relacionamento entre lésbicas. Já o primeiro beijo, um selinho, aconteceu, no mesmo ano e emissora, em Calúnia, com as personagens Karen (Vida Alves) e Martha (Geórgia Gomide). Porém, mesmo que pioneiro nos anos 60, um beijo lésbico aconteceu novamente apenas em 2011, na trama de Amor e Revolução (SBT). Foram 48 anos entre os dois atos, é quase meio século de omissão.

Nesses 62 anos após Entre quatro paredes (1963), cinquenta novelas mostraram relacionamentos entre mulheres. Foram três na década de 1960, três na década de 70, cinco na década de 80, três na de 90, seis nos anos 2000, dezenove na década de 2010 e oito na década de 2020. Duas foram exibidas pela TV Tupi, uma pela Record, uma pelo SBT e 46 pela TV Globo.

Observamos um crescimento de personagens mulheres que se relacionam entre si, em certo avanço em relação à visibilidade de tais existências, entretanto, nem toda aparição é positiva. Nas telenovelas não existe pluralidade das lesbianidades, são narrativas fincadas na branquitude, na magreza, na juventude, na não-deficiência, na cisgeneridade, no casamento, na maternidade e na performance de feminilidade. Há um modelo de quem pode ser uma lésbica, como apontei no artigo “Às Claras”, publicado em 2025 na Rebeh.

Nessa pesquisa, analisamos as telenovelas Em família (2014), com o casal Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Müller), e Vai na fé (2023), com Clara (Regiane Alves) e Helena (Priscila Sztejnman). Constatamos que as lesbianidades em tela, de uma forma ou outra, se encontram em normatividades, como no casamento, na maternidade e na monogamia. Os dois casais pesquisados têm suas histórias direcionadas unicamente a esses locais sociais, em veto total a quaisquer outras possibilidades de existências.

Em mais um exemplo da fragilidade das conquistas lésbicas nas telenovelas: Senhora do destino (2004), na primeira exibição, contava com o casal composto por Jennifer (Bárbara Borges) e Eleonora (Mylla Christie), quando retornou ao ar, no Vale a Pena Ver de Novo, em 2017, a história das duas foi completamente cortada.

Em 2025, com o remake de Vale Tudo, na Globo, o casal Cecília (Maeve Jinkings) e Laís (Lorena Lima) aparece envolto na temática de homofobia, numa redução de seus cotidianos a essa questão. Os momentos em que têm alguma troca afetiva-sexual são raros, numa confirmação que a visibilidade pode servir como regulação de corpos.

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Como as lésbicas aparecem na pornografia

Na pornografia, o cenário se constrói de outra maneira, as lesbianidades se fazem entre dados e algoritmos das plataformas autodenominadas pornográficas. A lista vai dos nomes mais conhecidos, como PornHub, RedTube e XVideos, aos menos populares no Brasil, como PornHits, XHamster e PornKTube.

Com cerca de cem milhões de acessos diários, o PornHub pode nos dar indícios de tensionamentos, ansiedades e moralidades sociais, como postula Carolina Parreiras em “Reflexões sobre big data, sexualidades, datificação e moralidades no pornô digital: a ‘novinha’ como categoria de classificação e indexação”. Nos PornHub Insights, relatórios disponibilizados anualmente pela própria plataforma, desde 2014, lésbica está entre os cinco termos mais pesquisados no mundo e no Brasil. A palavra funciona como tag, fantasia e forma de indexação de conteúdos na plataforma.

Em 2014, primeiro ano em que os relatórios foram publicados, lésbica foi a segunda categoria mais buscada no mundo e a quinta no Brasil; em 2017 e 2018, foi primeiro em ambos. Já em 2024, última atualização desses dados, esteve em quarta colocação mundialmente e na quinta do nosso país. Na categoria lésbica, existem subcategorias que vão de sexualidades às nacionalidades, englobando muitas possibilidades de experiências.

Realizamos uma pesquisa em que coletamos mil títulos que carregam o termo lésbica, na plataforma PornHub, para observar quais as lesbianidades aparecem no pornô. Em resultados iniciais, constatamos que elas estão num espectro pornográfico que caminha entre fetiches, normatividades e resistências sexuais. As lesbianidades aparecem principalmente vinculadas a seis subcategorias: amiga, milf, trans, orgia, parentalidade e práticas.

Essas subcategorias caminham por diferentes espaços: amiga com títulos como “Minha amiga lésbica real transa comigo e meu namorado”. Trans numa linha de “Sexo entre lésbicas trans e cis”. Orgia carregando alguns chamamentos como “Festa escolar se transforma em orgia lésbica”. Parentalidades englobando vídeos principalmente vinculados às noções de incesto, como “Minha meia-irmã transou comigo e com minha namorada lésbica”. Práticas com nomeações de ações específicas numa transa, como “Tesouras e dedilhados de lésbicas”.

É evidente que as apreensões aqui postas não dizem de forma totalizante sobre o pornô ou sobre as lesbianidades, mas indicam caminhos para olharmos e pensarmos esses materiais. É um movimento experimental que busca os intrincados processos do gênero e da sexualidade. A plataforma faz parte da produção contemporânea do pornô, o gozo, nesse contexto, é tag de indexação, linguagem e disputa.

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Construções que inventam e reinventam imaginários

Como o audiovisual está em local privilegiado do imaginário social e político, ele pode propor ideologias e comportamentos, endossar éticas e estéticas, categorizar pessoas e explicitar corpos que são permitidos ou vetados. 

Nas telenovelas, as narrativas se apropriam das lesbianidades em prol da norma, em ideais regulatórios, normalizando e regulamentando sexo, gênero e sexualidade. Na pornografia, a lésbica é procurada com intensidade, vinculando-se a uma gama de possibilidades, em construções que abarcam desejos, moralidades, fetichismos e resistências. Temos muito a pensar sobre as subcategorias vinculadas à lésbica. É uma constelação complexa, da telenovela ao pornô, que pode nos dizer sobre as construções das lesbianidades.

Para além das muitas perspectivas possíveis, uma coisa é certa: essas representações afetam inteligibilidades e imaginários. São construções que, feitas por subjetividades e máquinas, também as inventam e reinventam. Qual lésbica não lembra do casal Clarina, da novela Em família (2014)? Qual lésbica, ainda criança ou adolescente, não pesquisou “amigas se beijando” e foi direcionada a um vídeo pornô?

*Este artigo é baseado em pesquisas acadêmicas realizadas pela autora: a respeito das telenovelas brasileiras, em 2023, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes); sobre a pornografia, 2024-atual, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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