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16 de maio de 2023

“Me tiraram violentamente o tempo com a minha filha”

"Sou uma mulher, pagadora de impostos, mas não posso gozar da minha licença-maternidade. Por quê?"

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dupla maternidade

Desde criança eu tenho um sonho. Sempre que me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, eu dizia: quero ser mãe. De quatro filhos, igual a minha mãe. Minha casa sempre foi rodeada de crianças, eu sempre amei bebês. E foi muito bom quando conheci a minha companheira e descobri que ela queria a mesma coisa. Acontece que com o passar do tempo essa convicção foi virando medo, dúvida, insegurança. 

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Cresci num lar evangélico, ser mãe num relacionamento com outra mulher tem outro peso. Sempre fui muito silenciosa, sabe? Bem reservada e tímida. Sofria calada os preconceitos. Comecei a achar que não tinha mais sentido colocar um filho no mundo para sofrer. Um dia, falei para minha esposa que ela poderia procurar outro relacionamento com quem ela conseguisse viver a maternidade, porque eu tinha desistido. Disse bem isso: não é mais meu sonho. Fora o medo, tinha a questão do dinheiro. Era caro. 

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Então, acabei passando num concurso. As condições foram melhorando, a gente foi conseguindo guardar dinheiro e veio a pandemia. Foi nessa época que deu um clique na minha cabeça. Como é que é? Eu tô deixando de viver o que eu sempre quis na minha vida por conta de um medo? Estou me freando por conta dos outros? Tem alguma coisa lá fora alucinando a humanidade e eu aqui presa nesse medinho? Resolvi enfrentar. 

Minha esposa sempre teve o sonho de engravidar e já estava com 40 anos. Resolvi dar para ela essa chance, até porque, o fato dela nunca ter desistido da nossa família ajudou a proteger esse sonho em mim. Fizemos o procedimento com os meus óvulos e pediram para a gente esperar por doze dias para saber se tinha dado certo. 

Faltavam dois dias para a gente fazer o exame de sangue, quando ela gritou o meu nome no banheiro. Quando cheguei ela tava tremendo, segurando o teste de farmácia. Deu positivo. Ficamos fora do ar de felicidade. A gente sabia que seria bom guardar a notícia nos três primeiros meses, mas não conseguimos. 

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Durante a gestação, comecei a fazer planos para amamentar também. Havia um tratamento que me ajudaria nisso, eu só precisava ter a garantia de que a minha licença-maternidade seria respeitada. Mas não foi. Antes mesmo de ele nascer, me disseram que eu teria apenas 20 dias de licença-parental. Se ancoraram nas orientações de um documento do Ministério da Justiça.  Minha companheira teria o direito; eu, não. Chorei e sofri muito.

Numa tentativa de encontrar uma saída, me inscrevi em outro concurso público. Pensei: se eu mudar de emprego, de repente, eu consigo. Passei os últimos meses todinhos estudando. Passei na primeira fase, mas não deu certo na segunda. Quando chegou a hora de voltar ao trabalho, foi muito difícil. Perdi o gosto, me sinto ferida. Eles me tiraram violentamente o tempo com a minha filha. Os primeiros seis meses de vida dela, um tempo que não volta. Todos os dias acordo e não consigo entender: sou uma mulher, pagadora de impostos como todas as outras, mas não posso gozar da minha licença-maternidade. Por quê? 

Esse depoimento foi concedido anonimamente à repórter Natália Sousa. Acompanhe nas nossas redes sociais mais sobre o assunto. 

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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