logo AzMina
Foto de Isabela Venturoza, uma mulher parda, de cabelo bem curto, usando uma camisa azul
31 de julho de 2026

Futebol e política: por que eles nunca estiveram separados

Esporte, poder e masculinidades se cruzam dentro e fora de campo, revelando disputas morais, sociais e políticas

Nós fazemos parte do Trust Project

Ilustração mostra um apito metálico sobre dois cartões, um vermelho e outro amarelo, semelhantes aos utilizados por árbitros no futebol. Ao lado do apito, parcialmente escondidas, aparecem cédulas de cem reais. Sobre fundo claro e minimalista, a composição associa símbolos do esporte ao dinheiro, sugerindo temas como corrupção, punições, conflitos de interesse ou influência financeira nas decisões esportivas.

– “Futebol e política não se misturam.” 

– “O jogador deve ser avaliado pelo futebol que joga.” 

– “O que importa é o que acontece dentro de campo.” 

Você já ouviu alguma dessas frases? Elas costumam aparecer sempre que o futebol se torna palco de alguma controvérsia moral e política. Talvez a última tenha sido com a discussão envolvendo o Corinthians e o patrocínio da Fatal Fans – plataforma de conteúdo adulto da Fatal Model. E ainda no rescaldo da Copa, eu me vi pensando, “como é interessante que em alguns momentos as pessoas assumam uma posição moral e no momento seguinte outra completamente diferente”. 

Então, hoje, nossa conversa aqui é sobre futebol, política e também sobre masculinidades.

Não dá conta de acompanhar as notícias? Deixe que a gente te ajuda!

Feminismo bem informado

No que diz respeito à relação entre futebol, trabalho sexual e conteúdo adulto, essa discussão não começou agora. Em 2023, o Vitória submeteu aos seus sócios a possibilidade de alterar o próprio nome do clube para “Fatal Model Vitória”, em uma proposta de R$200 milhões. A mudança foi rejeitada, mas os sócios aprovaram a abertura de negociações para a venda dos naming rights do Barradão por R$100 milhões. Em janeiro de 2025, o clube renovou o contrato com a empresa, em um acordo anunciado como o maior patrocínio da história do Vitória.

Nesses dias, foi interessante acompanhar a grande mobilização quando o tema atravessando o futebol foi a sexualidade (e moral sexual). E o estardalhaço não é por acaso. Vale ler a coluna da Carol Bonomi sobre o tema para se inteirar mais sobre as controvérsias que estão rolando já há algum tempo, inclusive dentro dos ditos feminismos. 

Leia Mais: Meninos e masculinidades: por que eles estão sendo fisgados pelo machismo online?

Sabemos que o futebol não envolve só esporte. Envolve dinheiro, publicidade, pedagogias de gênero dentro e fora do campo, moralidades sexuais, raça e racismo, identidade nacional, religião e disputas de poder das mais variadas. A camisa de um time não é apenas o brasão que simboliza o amor da torcida. O estádio há muito tempo deixou de ser – se é que um dia foi – apenas um espaço esportivo. E o jogador – homem e ao mesmo tempo modelo de masculinidade – inegavelmente desempenha um papel social impossível de ignorar.

Leia Mais: Juliano Cazarré e a indústria da autoajuda masculina

O futebol também produz comportamentos

O futebol é espelho da sociedade ao mesmo tempo que produz a sociedade. É fácil perceber que ele é uma poderosa máquina de produção de moralidades e também de um determinado tipo de homem, ele mesmo um sujeito moral, com ambições e desejos específicos. Desde a infância, meninos aprendem que o campo é um dos lugares privilegiados para sonhar e ser quem querem ser e projetam nos ídolos um futuro possível. É também onde se provam, pela sua habilidade e no sentido de pertencerem a um grupo. Quantos meninos você conheceu que não gostavam ou não jogavam futebol? Como eles eram tratados?

A Copa do Mundo de 2026 colocou aspectos dessa conversa em evidência. Enquanto milhões de pessoas acompanhavam partidas e discutiam escalações, jogadores disputavam o torneio sob acusações de violência sexual. Além disso, a FIFA registrou 89 mil manifestações abusivas nas redes sociais, parte delas de caráter racista, o que apareceu também no comportamento dos jogadores em campo. No mais, temos a história das BETs, que causa menos comoção do que à associação à Fatal Fans.

Em outro episódio, uma jornalista francesa nos presenteou com uma aula sobre estereótipos e percepções distorcidas sobre gênero. O atacante belga Jérémy Doku manifestou o desejo de deixar a Copa para acompanhar o nascimento do primeiro filho. A apresentadora France Pierron sugeriu que o pai seria inútil e apenas um “figurante” no parto, gerando uma reação pública tão intensa que ela foi afastada  e o grupo de mídia responsável pediu desculpas. 

O episódio expôs uma expectativa bastante conhecida: a de que o homem deve voltar a vida ao trabalho, não ao cuidado, não à emoção, não à família. Isso tudo pode esperar. Mostrar seu futebol não. Por que ser um pai presente se você pode ser um herói, um ídolo nacional?

Leia Mais: Como a cultura red pill e a misoginia no digital alimentam a violência de gênero no Brasil?

A celebração da masculinidade

É nesse ponto que a discussão sobre masculinidades se torna central. O futebol não apenas reflete homens e comportamentos que existem fora dele. Ele também ensina, recompensa e legitima determinadas formas de ser homem. 

O futebol é historicamente um espaço de intensa celebração da masculinidade e uma incontestável arena moral. Nele discutimos constantemente quem pode ocupar determinados lugares, quais comportamentos são aceitáveis e que corpos nos representam. Também debatemos que masculinidades são valorizadas e quais contradições estamos dispostos a tolerar quando há talento, dinheiro ou identificação afetiva envolvidos.

Pra mim, pessoalmente, o futebol é político desde o seu surgimento, quando não era permitido que negros jogassem no Brasil.  A política está na proibição de mulheres, entre 1941 e 1983, no preço dos ingressos, nas empresas patrocinadoras, nas relações de trabalho, nas desigualdades de remuneração entre homens e mulheres. Como é possível não enxergar política no racismo das arquibancadas, nas contratações, nas violências cometidas por jogadores e na forma como instituições decidem — ou não — responder a elas?

Achar que o futebol não é político é uma falácia. O que talvez faça mais sentido pensar é que política o futebol está produzindo e quais valores estamos dispostos a naturalizar em nome dessa indústria de bilhões.

*Arte: Giulia Santos 

**Texto revisado com uso de IA

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Faça parte dessa luta agora

Tudo que AzMina faz é gratuito e acessível para mulheres e meninas que precisam do jornalismo que luta pelos nossos direitos. Se você leu ou assistiu essa reportagem hoje, é porque nossa equipe trabalhou por semanas para produzir um conteúdo que você não vai encontrar em nenhum outro veículo, como a gente faz. Para continuar, AzMina precisa da sua doação.   

APOIE HOJE