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Foto de Isabela Venturoza, uma mulher parda, de cabelo bem curto, usando uma camisa azul
22 de outubro de 2026

Meninos em disputa: dois projetos de Brasil

A disputa pelo futuro do Brasil passa pela forma como educamos os meninos, enfrentamos a violência e construímos outras possibilidades de masculinidade

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Imagem em preto e branco, com fundo verde vibrante e formas geométricas em verde-claro e amarelo. Duas crianças aparecem de costas, com os braços levantados. À esquerda, uma criança segura uma arma de fogo; à direita, outra segura uma publicação com a palavra “CONSTITUIÇÃO” na capa.

À luz do segundo turno das eleições, as últimas semanas tem entregado imagens emblemáticas sobre o momento que estamos vivendo no Brasil. Muito provavelmente você já cruzou com a fotografia de um menino empunhando uma arma durante um encontro entre bolsonaristas. Dias depois, talvez você também tenha visto a imagem de uma menina com a Constituição Federal nas mãos entre apoiadores do Presidente Lula. Tratam-se de duas fotografias que dizem muito sobre o projeto de Brasil que podemos vislumbrar no futuro e que já temos sentido ao longo dos anos.

Não é de hoje que a temática da juventude e também das infâncias me chama a atenção. Ela é uma das dimensões mais centrais do meu trabalho. Se minha caminhada começou com homens adultos no contexto de iniciativas de reflexão e responsabilização para autores de crimes da Lei Maria da Penha, hoje é sobretudo a escola o campo no qual mais vejo meus dias passarem. E é também por isso que, em meio às eleições, convoco você que me lê a lançar um olhar mais atento para o que esses dois projetos de Brasil, o de Lula e o de Flávio Bolsonaro, representam para a sociedade em que vivemos.

Da ascensão dos feminismos à reação conservadora

Entre os jovens, atuo há dois anos ao lado do jornalista Ismael dos Anjos com o projeto Masculinidades na Escola. Ismael, que  foi coordenador da empreitada que deu origem ao documentário O Silêncio dos Homens, caminha numa batida parecida com a minha, pensando masculinidades a partir de uma perspectiva feminista interseccional, e consciente de que, onde há modelos restritivos de masculinidade, há também, com enorme frequência, alguma forma de  sofrimento social.

Nos conhecemos ainda na década anterior em um programa de TV para a internet, no qual também participou um influencer do universo masculino, e um pastor neopentecostal. O pastor está por trás da Machonaria, uma iniciativa bastante parecida com O Farol e a Forja do Cazarré – é, pois é.

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Esse momento, no qual conheci Ismael, é importante para fazer um resgate histórico e conseguir olhar para o presente. Na primeira década dos anos 2000 e no início da década seguinte, tivemos os primeiros governos Lula e Dilma, com movimentos sociais adentrando o governo e com os feminismos jovens ocupando a internet e as ruas. Esse cenário, no qual discussões sobre desigualdade social, racismo, machismo, homofobia e transfobia – e em menor medida capacitismo –, trouxe, como sabemos, uma série de avanços em termos de reconhecimento de certas problemáticas e de ampliação de mecanismos de enfrentamento à violência e às desigualdades. Sentimos isto na esfera pública, nas redes sociais, nas casas, na escola e no trabalho. 

Porém, junto à ampliação de uma conversa sobre desigualdades, exclusão social e promoção de uma sociedade mais justa, também veio uma contra-onda conservadora daquelas. Nós notamos, vocês notaram. Aquela guinada que começou com as movimentações contra a “ideologia de gênero”, o Escola sem Partido, o próprio impeachment da primeira e única presidenta mulher do Brasil, Dilma Rousseff, e um crescimento exponencial do conservadorismo e da extrema-direita no Brasil e além.

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Feminismo bem informado

As pautas anti-gênero, os projetos de lei perseguindo grupos específicos em uma pretensa cruzada pela “defesa da família”, tudo isso transformou as escolas em um cenário pouco permeável a diálogos sobre gênero e sexualidade e, nesse contexto, também sobre masculinidades.

Quando a violência dos meninos vira notícia

Antes éramos chamados para dar palestras e conduzir ciclos pontuais de oficinas com adolescentes sobre gênero em escolas ainda pouco sensibilizadas para pensar especificamente as questões relacionadas às masculinidades e aos meninos. Com a pandemia, essas entradas na escola se tornaram ainda mais escassas.

Foi somente em 2025 que esse cenário começou a mudar, mas em lugares bastante específicos. E isso veio a partir de denúncias de violências protagonizadas por meninos que tinham como alvo tanto outros meninos quanto as meninas. Casos que envolviam a exposição do corpo dos meninos em trotes, alusão a sites de acompanhantes e nomes de meninas mais “pegáveis” da escola, lista de meninas mais “comíveis” e por aí vai. 

LEIA MAIS: Como a cultura red pill e a misoginia no digital alimentam a violência de gênero no Brasil?

Os eventos que repercutiram em jornais de grande circulação, muitas vezes trazendo reações punitivistas e pouco orientadas para a prevenção de novos episódios, evidenciaram algo que já falávamos há muito tempo:

se queremos realmente lidar com tais problemas, é preciso dialogar com os meninos e colocar masculinidades em debate.

Masculinidades na escola

Ismael e eu já passamos por uma dezena de escolas na cidade de São Paulo e fomos procurados por outras em cidades do Estado e do Brasil, mas nosso alcance acaba sendo muito específico: são escolas privadas de orientação “progressista”. Escolas que, mesmo abertas a discussões sobre racismo, sexismo, desigualdades de classe, homofobia e capacitismo, também tem em suas realidades tudo isso acontecendo. A diferença é que elas notaram que se não trabalharmos com os meninos, realmente não vai dar pé.

Os masculinismos, os discursos de ódio e a misoginia monetizada nas redes, assim como o velho bullying, que esconde atrás da expressão inglesa formas de hierarquização, humilhação e perseguição baseadas em classe, cor/raça, orientação sexual, gênero, deficiência, regionalidade e aparência… Todo esse caldo, por vezes, nos faz pensar, “como estamos olhando, ouvindo e acompanhando não só as meninas, mas também os meninos?”.

Quem é o menino que se torna autor em um estupro coletivo? Quem é o menino que pratica cyberbullying? Quem é o menino que sofre calado e que mais tarde encontramos desacordado em casa? Como eles aprendem a fazer sofrer para pertencer, e o que acontece quando eles não se enquadram e o sofrimento físico e psicológico é a base do convívio?

O que pensar sobre a redução da maioridade penal?

Basta falar em redução da maioridade penal e dizer que “quem comete crime de adulto deve responder como adulto”? Como medidas populistas, que só respondem à tragédia, não às causas, nos afastam de realmente prevenir diferentes formas de violência praticadas por menores de idade? Será que de fato a diminuição da maioridade penal reduz a criminalidade? Não é o que especialistas afirmam.

No trabalho socioeducativo e preventivo sobre masculinidades que desenvolvemos em escolas privadas, temos encontrado jovens majoritariamente brancos e pertencentes às elites econômicas da capital paulista que demonstram interesse em participar desses processos formativos. É preciso trabalhar com eles e é notável o impacto que esse tipo de iniciativa causa na comunidade escolar. Ao mesmo tempo, essa experiência nos mostra a necessidade de ampliar o alcance desse trabalho, para que ele não fique restrito aos contextos em que temos conseguido atuar.

Banner horizontal com fundo preto, preenchido por texturas e formas abstratas em azul-escuro e verde-limão. À esquerda, em letras brancas e verde-limão, está escrito: “NOSSOS DIREITOS ESTÃO EM RISCO” e, em destaque maior: “AZMINA PRECISA ESTAR AQUI”. À direita, lê-se: “Ajude a manter o jornalismo feminista”. Abaixo, dentro de uma caixa contornada em verde-limão, está escrito: “APOIE AGORA A PARTIR DE R$ 15”. O banner usa tipografia em negrito e alto contraste, com elementos gráficos abstratos ao fundo
Banner vertical com fundo preto, preenchido por texturas e formas abstratas em azul-escuro e verde-limão. Na parte superior, em branco, está escrito: “NOSSOS DIREITOS ESTÃO EM RISCO”. Logo abaixo, em letras grandes e verde-limão: “AZMINA PRECISA ESTAR AQUI”. Na parte central inferior, em branco, lê-se: “Ajude a manter o jornalismo feminista”. Na parte inferior, dentro de uma caixa com contorno verde-limão, está escrito: “APOIE AGORA A PARTIR DE R$ 15”. A composição utiliza tipografia em negrito e alto contraste, com elementos gráficos abstratos em azul e verde ao fundo.

É igualmente necessário estar nas escolas públicas, criando espaços de escuta e reflexão com meninos que possuem outras biografias de vida, que lhes ofereçam instrumentos para questionar modelos violentos de masculinidades e construir outras formas de se relacionar, baseadas no cuidado e  na responsabilização.

No entanto, meu acesso e o de Ismael é restrito. Quando conseguimos chegar, isso costuma ocorrer no contexto da aplicação de medidas socioeducativas, não nas escolas, quando algo já aconteceu e já foi processado pelo Estado. O desafio é ampliar nossa presença, para que o o trabalho preventivo e reflexivo possa acontecer, e esses meninos também tenham espaços de escuta, elaboração e produção de outros caminhos.

Dois projetos de Brasil muito distintos

No Brasil de Lula, que embora ainda não tenha começado a pensar a violência nas escolas a partir da lente das masculinidades, vejo a possibilidade de agir para evitar que meninos posem para fotos empunhando armas. Nesse Brasil, é possível enxergar o tripé do trabalho com equidade de gênero e masculinidades nas escolas, a partir da formação de educadores, da condução de processos reflexivos com estudantes e do acompanhamento de familiares, que também precisam se transformar junto daqueles de quem cuidam.

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Já no Brasil do candidato que defende milícias e munição sem marcação de identificação, a possibilidade de uma política pública como essa, capaz de prevenir violências contra meninas e mulheres, entre meninos e homens, ataques de violência extrema em escolas (massacres direcionados a uma coletividade), promover saúde mental e desviar das estatísticas alarmantes de suicídio… Bem, algo assim parece muito longe. Nesse Brasil de Bolsonaro, quanto mais armas em casa e nas ruas melhor e quanto menos regulação das big techs mais lucro para aqueles que se alimentam da misoginia monetizada e do estímulo à violência que estão na base dos discursos de ódio veiculados em redes sociais.

No Brasil de Flávio, falar de gênero nas escolas é impensável. Trabalhar com meninos buscando alargar as possibilidades do que é ser homem é um ataque ao modelo tradicional de masculinidade. O cenário que se projeta caso Flávio Bolsonaro se eleja é aquele no qual nossa Constituição pode ser rasgada, o ECA pode ser ignorado e os direitos de crianças e adolescentes descartados como se fossem qualquer coisa. 

Este é o Brasil que não desejo que cheguemos a conhecer. Mas para que isso não aconteça é preciso que até domingo, 25 de outubro (e depois), lutemos nas redes e nas ruas. Uma sociedade equânime é incompatível com o projeto de Brasil da extrema-direita e há, como estamos vendo, muito trabalho pela frente.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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