
Minha tese de doutoramento, defendida recentemente, aborda as tensões que cercam a ideia de homens feministas, pró-feministas, “aliados” ou algo que o valha. Através dela busco desestabilizar e transformar em pergunta os sentidos em torno da palavra “feminismo”, muitas vezes usada por pessoas que não necessariamente falam da mesma coisa.
Já faz algum tempo que, como alguém feminista, me pergunto sobre os sentidos das palavras e como esses sentidos produzem possibilidades (e impossibilidades) de vida. Ainda criança, palavras como “menina” me causavam incômodo por não descreverem com precisão todo um universo de sentidos, experiências e desejos que meu próprio corpo e minha subjetividade carregavam.
A descrição (e sentença) “menina” me impedia de sentar como eu quisesse, ir ao estádio com primos e irmãos assistir ao Corinthians e ficar na rua até mais tarde. Afinal, no início dos anos 2000, “aqui tem um bando de louco” era uma sentença sempre articulada no masculino. Pelo menos lá em casa.
E meninos e meninas tinham toques de recolher diferentes. Assim como nos dias de hoje, as meninas deveriam ficar em suas casas enquanto parte do “tornar-se homem”, para muitos dos meninos, era ocupar a rua e vivenciar o espaço público também ao cair da noite.
O mundo estava preparado para dizer como eu deveria ser
O que poucos sabiam é que eu não era uma “menina”. Ao menos, não a partir dos sentidos que terceiros atribuíam a mim. Mas, independente do que eu sentia ou pensava, havia um mundo preparado para me dizer quem eu era e como eu deveria ser. O que não ocorreu somente comigo, mas com cada pessoa que nasceu e morreu em sociedade.
A filósofa Judith Butler escreveu alguns bons livros discutindo como a linguagem opera regulando mundos. Por exemplo, quando uma ultrassonografia é feita e a profissional diz “é uma menina!”, com base na genitália do bebê. Um mundo se abre e outro se fecha. Como se aquela palavra, antes mesmo da criança ter domínio da linguagem para dizer o que“é”, fosse capaz de prever o que ela virá a ser.
Mas não se trata de previsão. É, na verdade, uma determinação, que, diferente do que alguns acreditam, não constitui algo do campo da natureza. Estamos falando de algo socialmente produzido, atravessado pela cultura e forjado por meio de “aprendizados” constantes. E é daí que vem a célebre – e já exaurida, mas ainda atual – frase de Simone de Beauvoir: “não se nasce mulher; torna-se”. E esse “tornar-se” fala de um sujeito que se produz, mas sobretudo é produzido pelos significados e dinâmicas sociais.
“Mulher” é uma multiplicidade de possibilidades
Antes mesmo que os movimentos feministas atribuíssem esse nome a si mesmos, o questionamento em torno dos significados naturalizados da categoria “mulher” já estava colocado. Olympe de Gouges (1748-1793), Mary Wollstonecraft (1759-1797) e Sojourner Truth (1797-1883) mostraram que “mulher” é menos uma verdade fixa (muitas vezes atribuída por terceiros) do que uma multiplicidade de possibilidades (sempre constrangidas por um modelo pensado como único).
Mais tarde, muitas outras enunciaram essa mesma elaboração de diferentes formas, apontando que se trata sempre de “mulheres”, em infinitas possibilidades, mesmo as que desafiam a própria categoria. Contudo, quando se trata das relações entre homens e feminismos, me parece que a categoria mulher transborda menos, perdendo seu caráter múltiplo e voltando a uma ideia um tanto cristalizada.
O mesmo acontece, no campo dos feminismos transfóbicos, quando se opõe à ideia de que as mulheres cis não são o único sujeito dos feminismos, mas também as pessoas transfemininas e não-bináries, por exemplo. Nesse contexto, a frase “você não pode ser feminista porque não é uma mulher” ou “você não pode ser feminista porque é um homem” fixa sentidos sobre o que é uma mulher ou um homem, e também sobre o que é feminismo.
O que facilmente percebemos é que os significados em torno da palavra “feminismo” são plurais e dependem da visão de mundo da pessoa interlocutora. “Contra o patriarcado”, “pelos direitos das mulheres”, “contra as desigualdades de gênero”, “em prol da igualdade de gênero”, “em prol da equidade de gênero”, “por justiça social”. Inúmeras são as formulações possíveis e os posicionamentos atrelados aos feminismos.
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Todas as pessoas feministas compartilham a mesma luta?
Com isso, apesar de alguns desejos em comum, eu não tenho certeza de que qualquer pessoa que se diga feminista compartilhe da minha luta. Ser mulher, ser homem, ser feminista… Não há garantia a priori de que dividimos os mesmos projetos de sociedade. Ao mesmo tempo, pode ser que em inúmeras ocasiões nossas visões de mundo se encontrem, mas creio que nem sempre seja apenas pela identidade compartilhada.
O filósofo Patrick D. Hopkins escreveu o artigo How feminism made a man out of me: the proper subject of feminism and the problem of men (Como o feminismo fez de mim um homem: o sujeito apropriado do feminismo e o problema dos homens), no qual expôs um experimento social que fez na época. No prédio em que lecionava, ele perguntou a várias pessoas que se identificavam como feministas, qual era a diferença entre ser uma mulher e ser feminista.
“Depois de um ou dois olhares esquisitos, todas as respostas começavam mais ou menos com: ‘bem, feministas acreditam que… ‘ ou ‘feministas assumem a posição de que… ’, seguidas de uma variada lista de posições políticas e morais”. Hopkins, na mesma época, também notou “uma placa anexada à porta do escritório de Estudos de Mulheres, que começava com ‘Eu não sou uma feminista, mas… ’”, seguida por uma série de perguntas sobre crenças e posições.
“Uma mulher pode não casar, nem ter filhos e ser feliz? As mulheres devem estar em cargos de liderança no governo e em empresas? Os homens devem ter tanta responsabilidade quanto as mulheres nos trabalhos domésticos e no cuidado dos filhos? As mulheres devem ter tanta voz quanto os homens na política?”, listava a placa. Ao final havia a seguinte sentença: “Se você concorda com os itens acima, provavelmente você é feminista”.
O centro está nas ideias, não na identidade
O que Hopkins sugere – e não sozinho – é que o centro do feminismo está em posições feministas, não necessariamente numa identidade ou outra. Para autoras e autores como ele, o que faz de alguém feminista são crenças, ações e posições.
Nesse sentido, perceber o mundo como feminista não é necessariamente adquirir a perspectiva de uma mulher, mas reconhecer as desigualdades de gênero, que nos colocam limitações e constrangimentos. Assim como reconhecer que o gênero é culturalmente produzido e mantido através da produção de normas calcadas em visões sexistas e violentas para mulheres, homens e outros sujeitos. Mais do que isso, é querer transformar essa ordem de relações.
Como disse recentemente um amigo – como eu forjado pelos feminismos – também “não se nasce feminista; torna-se”. E este é um convite.
