
Há um tempo comecei a ouvir falar da “geração sanduíche” e quando procurei entender a expressão não tive dúvida de que me enquadrava nela. Vivo uma rotina dividida entre duas gerações que dependem de mim: minha mãe, de 74 anos, e minha filha, de 10. Minha vida mudou bastante desde que minha mãe veio morar conosco em 2022.
Eu tenho sete irmãos e irmãs, então, quando ela morava sozinha, a gente se revezava para levá-la ao médico, resolver alguma coisa. Depois que ela veio para cá, essas tarefas ficaram todas comigo. Isso tudo pesa! Minha mãe, apesar de estar bem agora, passou por fases de saúde bem delicadas. Era como cuidar de uma criança. Médicos, exames, internações.
E mesmo quando não está doente, existe a rotina que exige acompanhamento: consultas, organização da agenda médica e administração da casa dela (que ela insiste em manter mesmo sem viver lá). A sobrecarga só não é maior porque ela é autônoma: tem celular com aplicativo de transporte, gosta de fazer as próprias compras, cuida das contas da antiga casa. Mas, na prática, tudo passa por mim.
Não é só a saúde. É o chuveiro queimado às 9 da noite, o leite que acabou, o boleto que ela não conseguiu pagar, dúvida sobre as mensagens de supostos golpes no celular. Tudo isso chega no meio de uma reunião de trabalho, de um e-mail importante, de algo que preciso entregar. A vida da minha mãe virou mais uma aba aberta na minha mente, que nunca fecha.
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Do momento de acordar até a hora de dormir
Na outra ponta, tem a rotina da minha filha, que também depende exclusivamente de mim. Sou mãe solo e sou eu quem acorda cedo, dá o café, escova os cabelos, prepara a lancheira, leva para a escola, confere a lição de casa, acompanha as provas, faz o jantar. Ela dorme comigo e a gente também compartilha o banho, que virou um dos poucos momentos de troca afetiva do dia, com música, conversa e brincadeiras.
Nem os finais de semana que minha filha passa com o pai me pertencem. Porque aí é a minha mãe quem toma esse espaço. Ela quer passear, fazer compras, cozinhar. Se alguém convida ela para sair, ela pergunta antes se eu vou. Como se dependesse da minha presença para se autorizar. É como se ela tivesse me colocado também no papel de companhia para tudo. E eu, muitas vezes, atendo. Fico com dó dela, porque penso: “coitada, ficou a semana toda em casa”. E lá se vai mais um sábado que poderia ser meu.
Tenho uma irmã que divide os custos da nossa mãe comigo, ela se faz presente dessa forma, mas não para realmente dividir o cuidado. E eu entendo, viu? Porque é difícil. Muito difícil. Eu mesma subestimei o peso de cuidar. Eu acabo dando conta, mas no processo, abri mão de muita coisa: tempo, espaço, silêncio, e até da minha comida. Quando minha mãe está na cozinha, é ela quem decide o cardápio. E se eu quiser fazer algo só para mim, acabo desistindo.
Alguns outros irmãos também ajudam financeiramente. Dividem comigo o convênio médico e o táxi, mas sou eu quem gerencia esse dinheiro, quem cobra, quem presta contas, quem organiza tudo. Tem outros que parecem nem lembrar que ela está aqui. É como se pensassem: “Está com a Karol, então não precisamos nos preocupar.”
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Tive de começar a impor limites
Eu que sei que minha mãe não exige tudo isso de propósito. Mas ela, assim como minha filha, muitas vezes age como se tudo pudesse parar para atendê-la. E eu cedia, até começar a impor limites. Estabeleci dias do mês para ajudar com as contas, criei agendas compartilhadas com meus irmãos para distribuir as tarefas médicas, comecei a dizer “hoje, não dá”. Mas a sobrecarga emocional continua.
Nos momentos mais exaustos, penso: o que eu poderia fazer para mudar isso? Já quis conversar com minhas irmãs e ser mais direta. Dizer: “gente, dividam comigo não só a conta, mas a presença também”. Acho que essa fala me falta. Fico esperando que percebam, que se toquem, mas ninguém se toca.
Também sei que preciso me movimentar mais. Me matriculei em aulas de pilates, tentei ioga, mas a rotina me engole. Às 6 da tarde, meu corpo já está pedindo descanso. Se eu tento ver um filme, cochilo. Sinto que falta ânimo, e talvez falte comprometimento comigo mesma. Me jogar mais para o mundo, fazer algo que me faça bem. Mas é difícil. Eu chego no fim do dia com a bateria no vermelho.
Minha sessão de terapia semanal é o único momento só meu. E eu sinto falta de mim mesma. De ver uma série sozinha. De ficar em silêncio. De sair para tomar um café sem pressa. De cozinhar um prato só para mim. Sinto falta até do tédio. Porque fazer nada também é fazer alguma coisa, né?
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Um sábado só para mim
Foi numa viagem de trabalho que percebi o quanto preciso de tempo comigo mesma. Tive um sábado inteiro só para mim, depois de quase desistir da viagem. Foi uma delícia, sem demandas, sem relógio. Me dei o luxo de passar 40 minutos olhando para uma múmia num museu. Eu, que não consigo ficar cinco minutos em silêncio em casa. Voltei dessa viagem com uma sensação agridoce. Porque eu redescobri uma Karol que gosta de estar só, que aprecia a calma, mas também entendi que essa Karol quase não tem mais espaço para existir.
O mais duro é saber que não estou sozinha nessa situação. Conheço mulheres que cuidam dos pais, dos filhos, que vivem essa sobreposição de cuidados e demandas. Mas quando penso em um homem que esteja vivendo isso, não me vem ninguém à cabeça. O cuidado ainda é nosso. É um trabalho invisível, exaustivo e profundamente solitário.
Eu me preocupo com o futuro. Minha mãe está envelhecendo – e eu também. Minha filha ainda vai depender de mim por alguns anos. E me pergunto: quem vai cuidar de mim quando for a minha vez? Ninguém está olhando para essa sobrecarga estrutural. Ninguém está pensando em quem cuida, e muito menos em como cuidar de quem cuida.
A sociedade sequer está pronta para os idosos. Os serviços públicos não dão conta. Mesmo o convênio médico que a gente paga parece tratar o idoso como um problema a ser mantido, não como alguém a ser acolhido.
Eu sigo. Com a agenda lotada, a cabeça a mil, o corpo cansado. Mas sigo, porque minha mãe e minha filha dependem de mim. Amar também é se doar, mas não pode ser só isso. Estou tentando encontrar um jeito de caber em mim de novo. De resgatar a Karol que existe além do cuidado dos outros. Ela ainda está aqui e espero que um dia consiga voltar inteiramente, cuidar mais de mim!
