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Foto de Isabela Venturoza, uma mulher parda, de cabelo bem curto, usando uma camisa azul
12 de março de 2026

Como a cultura red pill e a misoginia no digital alimentam a violência de gênero no Brasil?

Feminicídios e estupros não são obra de monstros isolados, mas sintomas de uma sociedade que normaliza o controle e o desprezo pelas mulheres

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Quando um caso contundente de violência contra a mulher ganha a mídia, é comum que parte de nós fique estarrecida com o acontecimento. Tendemos a olhar para aquele ato como algo que rompe com a normalidade. Muitas vezes o autor ou os autores da violência são tratados como anormais, monstros por excelência, seres estranhos à paisagem.

Mas a triste realidade brasileira, hoje, é que as formas mais radicais de violência contra a mulher acontecem todos os dias, quase como parte de nosso tecido social. Longe de serem uma ruptura com o ordinário, são episódios que colocam em ação a manutenção das desigualdades históricas entre homens e mulheres.

Quando as notícias nos alcançam, logo pensamos nos perpetradores como detentores de uma “autoria única” sobre as violências. Mas a verdade é que quando um feminicídio ou estupro coletivo ocorre, não estamos apenas falando de um homem que violou uma mulher. Estamos falando de uma sociedade que produziu condições para que aquele homem habitasse o mundo daquela forma e aquela menina ou mulher pudesse ser vítima de algo tão absurdo.

Discurso machista precede a violência

As violações contra corpos e histórias de meninas e mulheres no Brasil têm uma autoria que precede as violências. Essa autoria está no discurso que naturaliza o machismo e ensina a meninos e homens, desde muito cedo, que o desprezo e o controle sobre as mulheres são partes do software que compõe a masculinidade. 

A autoria está em uma sociedade que busca no comportamento das mulheres uma “justificativa” para a violência dos homens. “Foi porque ela traiu”, “ele foi criado por mãe solo e não tinha uma figura paterna para orientar”, “ela saiu na rua com aquela roupa ou voltou de Uber tão tarde”, “ah, ela bebeu demais”, “mas no início ela queria”. A desresponsabilização dos homens também faz parte de um caldo cultural que alimenta a violência de gênero todos os dias.

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A cultura red pill e a disseminação online da misoginia

Nos últimos anos, a cultura red pill tem se alastrado nos ambientes online, produzindo efeitos sobre a sociedade e transformando misoginia e ressentimento em identidade política que radicaliza todo esse contexto já existente.

Inspirado no filme Matrix, o termo red pill sinalizaria um suposto despertar dos homens para a ideia de que as mulheres seriam as verdadeiras privilegiadas na sociedade. A partir disso, fóruns online, páginas em redes sociais — como TikTok e Instagram — e canais no Youtube passaram a difundir discursos, piadas e manuais de comportamento que retratam as mulheres como manipuladoras, interesseiras e moralmente inferiores. Eles defendem um modelo de masculinidade calcado no desprezo e na inferiorização das mulheres.

Então, de certa forma, não é trivial que tenhamos um número crescente de feminicídios e outros crimes de violência contra a mulher. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2025, foram 1.568 feminicídios consumados. Desde a tipificação da lei do feminicídio, em março de 2015, ao menos 13 mil mulheres já foram assassinadas em razão do gênero.

Nas últimas semanas, uma série de crimes violentos cometidos contra mulheres deixou evidente que, apesar dos limites colocados por elas, os homens estão longe de aceitar o “não” e qualquer traço de autonomia que elas possam verbalizar. Fins de relacionamentos, recusas em pedidos de namoro, ausência de consentimento em práticas sexuais: a mensagem que os homens passam é a de que não somos sujeitos de direitos e que nosso desejo, no final do dia, importa pouco.

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Como homens aprendem a passar por cima de outras pessoas?

A pergunta que fica é: o que produz esse contexto? O que faz com que um menino ou um homem aprenda que pode passar por cima de outro humano com tanta facilidade? É nesse ponto que o machismo e expressões do masculinismo contemporâneo passam a ser temas que não podem ser ignorados. Quando não há mais barreiras morais, o ressentimento e a desumanização do outro se tornam a lente para meninos e homens olharem o mundo, e com isso temos um problema muito grande para enfrentar. 

Ainda que com medidas protetivas, mulheres seguem sendo mortas. Isso aponta para falhas na aplicação da lei e dos mecanismos de proteção, mas também evidencia um contexto em que os homens são continuamente nutridos por narrativas que exaltam a misoginia e retratam as mulheres como adversárias a serem combatidas. Nesse cenário, ser mulher e sofrer violência não é exceção à regra. Infelizmente, é algo até esperado. 

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Feminismo bem informado

Em uma sociedade em que masculinidade e violência não são tão próximas, trends como “Caso ela diga não” e o slogan Regret nothing (Não me arrependo de nada) passam a ser exceção ao cotidiano, não regra banalizada. E se queremos fazer frente a isso, não basta só bradar por criminalização da misoginia, endurecimento de penas, prisão perpétua e por aí vai. É preciso desenhar estratégias para interromper a rota da violência na qual homens e meninos estão inseridos. 

Em diferentes esferas da sociedade, homens aprenderam que mulheres são objetos. Então se essa visão é aprendida, quer dizer que também pode ser transformada. Não do dia para a noite, não com soluções milagrosas e que prometam resultados mágicos. Mas com trabalho socioeducativo sério, mirando a produção de masculinidades não violentas.

*Texto revisado com uso de IA

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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