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“A política antigênero é parte do projeto da ultradireita”, diz Sonia Corrêa

Pesquisadora analisa como ofensivas contra gênero e pessoas trans se tornaram central em projetos políticos autoritários

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“As mobilizações antigênero funcionaram como pequenos ciclones que alimentam a tempestade política perfeita que leva essas forças (ultradireita) ao poder”, explica Sonia Corrêa. Ela é ativista feminista brasileira e integrante da diretoria do Sexuality Policy Watch (SPW), projeto secretariado pela Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA).

Referência nacional nos debates sobre igualdade de gênero, saúde e sexualidade, temas que pesquisa desde o fim dos anos 1970, Sonia tem se dedicado a analisar o avanço das ofensivas antigênero em diferentes partes do mundo, incluindo no Brasil.

Banner com fundo claro. À esquerda, uma lata aberta com a frase “Feminismo sem conservadorismo” impressa no rótulo. À direita, há um texto em destaque que diz: “Sem anunciantes. Sem medo. Contra o conservadorismo, a transfobia e a desinformação.” Abaixo, lê-se: “Apoie o jornalismo feminista que enfrenta as agendas antigênero no Brasil.” Logo abaixo aparece um botão com a frase “Apoie AzMina agora”. No canto direito do banner está o logotipo do Instituto AzMina.

Para Sonia, o termo “movimento antigênero” é insuficiente para dar conta da complexidade dessas cruzadas contra a liberdade de gênero. E reduzir essa agenda a uma “pauta moral” também não traduz as fundamentações dessas demandas políticas, que são bem heterogêneas. “As políticas antigênero são como uma hidra de muitas cabeças. Cada cabeça se move em uma direção”, afirma. 

Vídeo d’AzMina explica o que é agenda antigênero

A pesquisadora chama atenção para o papel desempenhado por correntes feministas essencialistas na circulação de discursos antigênero, que defendem a ideia de que apenas o sexo biológico determina o gênero das pessoas.

Em entrevista à AzMina, Sonia detalha os impactos desses atores na política brasileira, explica como a ideologia antigênero se manifesta globalmente e analisa seus efeitos sobre os direitos de pessoas trans.

AzM: O que é o movimento antigênero? 

SC: Eu não uso o termo movimento antigênero, e sim a terminologia ‘política antigênero’, porque estamos diante de uma dinâmica que é muito maior que um movimento. É uma agenda mobilizada por forças muito inteligentes e muito poderosas. Reduzi-las a movimento não dá conta da escala da questão.

A política antigênero assumiu inicialmente essa configuração de movimento ou de campanha. Significativamente, ela foi incorporando elementos de movimentos sociais contemporâneos: repertório midiático, danças, recursos imagéticos e discursivos que tinham muita semelhança com movimentos progressistas. Mas isso foi há dez anos. Hoje, essas forças estão no poder nos Estados Unidos, na Rússia, na Itália. Elas também estiveram no Brasil e estão tentando ganhar poder na França.

Quando Donald Trump assumiu o poder em 2017, ele emitiu imediatamente ordens executivas antigênero. A primeira delas, adotada no dia da posse, tinha como título combater a ideologia extremista de gênero para proteger as mulheres. Recentemente, no discurso dele à nação, o tópico principal foi a abolição de políticas de saúde para adolescentes e crianças trans. Isso não é um movimento, é a ideologia antigênero no poder.

No Brasil, estão em todos os parlamentos. Não se pode dizer que deputados que apresentam projetos contra a chamada ideologia de gênero na escola, contra a participação de mulheres trans nos esportes, o acesso à saúde ou ao uso de banheiros sejam “um movimento”. Eles são representantes dessa ideologia no aparato de Estado.

O filósofo francês Jacques Rancière, em 2021, fez uma análise da invasão do Capitólio nos Estados Unidos. Ele diz que o que move essas pessoas é uma paixão desenfreada por todas as formas de desigualdade.

A política antigênero traduz uma das dimensões dessa paixão pela desigualdade. E é muito importante entender que nunca é só política antigênero, ela tem um traço de conexão interseccional crucial.

Por exemplo: a política antigênero do governo Trump vem com a política antimigratória e com a abolição das políticas de diversidade, equidade e inclusão no aparato do Estado federal americano. Essas políticas não dizem respeito apenas a pessoas trans. Dizem respeito a mulheres, pessoas negras, indígenas.

AzM: Qual é a origem dessa política antigênero? 

SC: A política antigênero é um elemento importantíssimo na composição das cenas políticas dos chamados giros à ultradireita da última década. Em todos os países onde houve um giro à ultradireita que configura o cenário atual, que chamo de tempos neofascistas, a política antigênero esteve presente. Uso o termo neofascista com cautela, porque não se pode banalizá-lo. 

O Brasil foi um dos primeiros casos; é importante lembrar disso. Em todos os contextos em que houve esse giro, as mobilizações antigênero funcionaram como pequenos ciclones que alimentam a tempestade política perfeita que leva essas forças ao poder. 

Esse giro também traz outras dimensões de paixão pela desigualdade, para usar a expressão, como as políticas antimigração e a reincitação do racismo estrutural, seja contra pessoas negras, seja contra povos indígenas. Hoje, por exemplo, nos Estados Unidos, a política migratória está caçando e aprisionando migrantes em cenas que lembram os pogroms da Alemanha nazista dos anos 1930. Há também ações contra populações indígenas norte-americanas, algo ainda pouco documentado na imprensa, mas que já ocorre de forma sistemática.

Por isso, é crucial compreender a política antigênero. No Brasil, isso é difícil porque o discurso dominante na política e na mídia trata o tema como “pauta moral”, como “pauta de costumes”, algo secundário, ou como mera política identitária. Mas não é. Trata-se de um elemento estrutural e constitutivo do projeto da ultradireita contemporânea.

AzM: Essas políticas aparecem de forma muito semelhante em vários países. Como elas se organizam? Existe algo ou alguém principal? 

SC: Primeiro, é preciso abandonar a fantasia de que existe um grande quartel-general da política antigênero. Não há um comando único. Embora essa forma atual tenha se tornado visível há 10 a 15 anos, as forças que mobilizam essas campanhas vêm se reorganizando há muito mais tempo, pelo menos há meio século.

Tenho usado a metáfora da hidra: as políticas antigênero são como uma hidra de muitas cabeças. Cada cabeça se move em uma direção. Há um núcleo religioso, possivelmente central, mas também existem setores laicos, seculares e liberais.

No Brasil, por exemplo, o MBL foi uma força importante no começo das mobilizações antigênero. Institutos liberais também tiveram papel relevante. Há profissionais — advogados, médicos — que não têm filiação religiosa, mas incorporam e difundem a fantasmagoria da “ideologia de gênero”.

É uma criatura heterogênea que bebe em fontes ideológicas muito diferentes — algumas religiosas, outras não; algumas supremacistas, outras não. Mas, apesar dessa diversidade, o conjunto caminha na mesma direção.

Outro aspecto crucial é a dimensão transnacional. As forças nunca são exclusivamente nacionais. Mesmo quando têm base nacional forte, estão conectadas a atores transnacionais. Por exemplo: muita gente acha que foi Damares quem inventou o uso do azul e rosa. Na verdade, isso vem de manifestações francesas de 2013 contra o casamento igualitário, que encheram as ruas de bandeiras, cartazes, azul e rosa para fazer protestos contra a teoria do gênero.
Outro exemplo: em 2020, começaram a proliferar no Brasil propostas legislativas para impedir o uso da linguagem neutra. Essa ideia foi captada de uma proposta feita na França por um deputado ligado ao partido de Marine Le Pen (liderança política da extrema-direita na França).

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AzM: Quais são os principais impactos que as ações antigênero conseguiram ao longo dos anos? 

SC: O campo da educação foi alvo em vários países. No Brasil, especificamente, foi o primeiro alvo da política antigênero, e é onde, por mais tempo, esses discursos e ataques têm vigorado. Desde o Plano Nacional de Educação, em 2013, começa-se a atacar a questão de gênero.

O Observatório de Violência Contra Professores mostra o efeito das campanhas contra gênero na educação, que andou de mãos dadas com o (movimento) Escola Sem Partido, que se apresentava como “escola sem ideologia”, mas que, na prática, significava sem “ideologia de gênero”.

O resultado de longo prazo dessa campanha é a autocensura dos professores, que deixam de tratar certos conteúdos por medo de serem atacados, seja por famílias, por colegas docentes ou por alunos. Há uma crescente violência digital e violência na sala de aula por causa de posições dos professores em relação a esses temas. 

Como isso afeta as pessoas? De várias maneiras. As crianças deixam de ter acesso a informações adequadas sobre constituição de gênero, desigualdade de gênero e sexualidade. Isso tem efeitos sobre a violência de gênero e a violência sexual. Por fim, é importante dizer que, nesse universo heterogêneo de atores que movem as críticas antigênero, não estão apenas forças da ultradireita. Hoje também há a contribuição de feminismos essencialistas. Eles são uma das cabeças dessa hidra e produzem ainda mais confusão nesse cenário.

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AzM: Você e a SPW têm se dedicado a estudar grupos, como a Matria e a Aliança LGB. Diante do cenário político no mundo e do crescimento da direita, por que esses grupos, supostamente progressistas, estão sob seu radar? 

SC: Bom, primeiro, eu não diria que eles são “supostamente” progressistas. Eles são vistos como progressistas e se vendem assim, porque se situam num campo de demandas de políticas de identidade historicamente associado ao campo progressista. 

Essas vozes contribuem para a propagação da ideologia antigênero. Elas contestam, assim como o campo conservador, o conceito de gênero, apontando para o que chamam de “verdade biológica”.

Podemos dizer que o campo ultraconservador é patriarcal e androcêntrico, enquanto as correntes feministas essencialistas não necessariamente o são. Mas, no que diz respeito à concepção de sexo e gênero, há uma convergência profunda.

As correntes feministas essencialistas são a fonte principal de combustível para a propagação de discurso contra o direito à identidade de gênero, ou seja, o direito das pessoas trans de existirem como pessoas com direitos humanos. Setores da direita também fazem discursos contra a chamada ideologia transgênero. Mas a inspiração inicial veio dessas correntes.

AzM: Por que você se refere a elas como “feministas essencialistas” e não “feministas radicais”?

SC: Evitamos a terminologia “radicais”, “TERFs” (Feministas Radicais Trans-Excludentes, do inglês Trans-Exclusionary Radical Feminists) ou mesmo a forma como esses grupos hoje se autodefinem como “críticas de gênero”. Elas começam se definindo como feministas radicais lá atrás, que já é uma definição confusa, porque havia muitas manifestações de feminismo radical. A posição radical anti-trans não era a única manifestação de feminismo radical nos anos 70 e 80. Então isso já cria uma confusão.

Em certo sentido, essas correntes acabaram monopolizando o termo, o que obscurece outras tradições do feminismo radical. A categoria “TERF” foi criada por ativistas trans no embate com essas correntes feministas e quer dizer feministas trans excludentes, em inglês. Eu evito, porque essa terminologia se tornou uma terminologia acusatória e isso não é bom quando se faz análise. Usamos, às vezes, “feministas críticas do gênero”, entre aspas, porque é a autodefinição delas. Mas optei por “essencialistas” por uma razão analítica.

Esse é o ponto onde a posição teórica e política dessas correntes converge com a de setores religiosos ultraconservadores, que originalmente formularam a retórica da “ideologia de gênero”, e com outros segmentos da ultradireita que hoje adotam essa semântica. Essa convergência se dá numa concepção essencialista da diferença sexual ou, em certos casos, também da diferença racial.

Chamá-las de essencialistas, para mim, é uma maneira de questionar os fundamentos essencialistas das formas de pensar conceitual e politicamente que caracterizam essas correntes.

AzM: A gente vê muitos pontos de aproximação, mas quais são os pontos de distanciamento desses grupos? 

SC: Tenho visto pouquíssima diferença. A principal é que elas se apresentam como feministas — usam o termo e se autodefinem assim —, enquanto no campo ultraconservador e da ultradireita esse termo historicamente foi banido.

Mas isso é relativo, porque hoje você já tem correntes conservadoras feministas. E quando elas se dizem defensoras dos direitos das mães e das crianças, não há diferença nenhuma com relação a uma vasta gama de mulheres conservadoras que faz a mesma coisa. 

Você nunca viu, por exemplo, Damares dizer que é contra os direitos das mulheres. Isso não significa que ela tenha uma concepção emancipatória — e talvez seja aí que resida uma diferença importante. Porque, do ponto de vista da direita, “feministas radicais” — não as que se autodefinem assim, mas as que a direita rotula dessa forma — são aquelas que têm um olhar emancipador mais amplo sobre a ordem política.

AzM: Todos esses atores políticos criticam as transgeneridades constantemente. Por que esse tema mobiliza tanto essas pessoas?

SC: As teorias críticas racial e de gênero produzem como efeito o questionamento sobre ordens existentes. Também vale para a classe, mas o questionamento da ordem de classe é muito mais antigo. Eu estou falando dessas teorias contemporâneas, elas são muito desestabilizantes para as ordens desiguais e hierárquicas. 

Essas forças imaginam o mundo hierárquico, que tem os de cima, os de baixo, quem manda e quem obedece. As teorias críticas produzem uma desordem na hierarquia. É muito fácil ser desestabilizado pela ideia de que os gêneros são construídos.

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Tem também um aspecto pouco debatido, que é um número muito pequeno de pessoas (trans). É muito fácil no sentido da política neofascista deslocar as emoções e os medos das pessoas em relação a uma população tão minoritária. Nesse sentido, há uma similitude, não se pode perder de vista, com o que a Alemanha nazista fez com os judeus. Os judeus também eram muito minoritários, na verdade. 

E por isso que é tão importante desconstruir essas ideias e impedir essa desumanização, porque é isso que essa política faz. É isso que o nazismo fez com judeus, que a escravidão sistêmica fez com as pessoas negras, e é isso que a política de ultradireita faz hoje.

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