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Foto de Isabela Venturoza, uma mulher parda, de cabelo bem curto, usando uma camisa azul
17 de julho de 2025

Meninos e masculinidades: por que eles estão sendo fisgados pelo machismo online?

Para o machismo digital não moldar os meninos, precisamos escutá-los, entender e agir – sem cair na armadilha do punitivismo

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colagem digital de um menino adolescente usando notebook, cercado por flores e rabiscos, simbolizando a influência do machismo online sobre jovens.

Alguns anos atrás, afirmei que os meninos não estavam bem, em entrevista ao jornalista Tiago Dias. Na época, ele havia sido provocado por meus comentários em uma rede social relatando uma conversa sobre equidade de gênero com estudantes de uma escola privada da cidade de São Paulo. Eu descrevia a maneira como sentia que havia uma escola antes e depois da pandemia de Covid-19.

Meu diagnóstico tinha a ver com a percepção de que, anteriormente, durante as visitas a escolas, as meninas muitas vezes tinham um repertório ampliado sobre movimentos feministas. Elas também percebiam a importância de determinadas pautas para a construção de relações mais justas e sem violência, englobando homens, mulheres e outros sujeitos. 

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Feminismo bem informado

Enquanto isso, os meninos, ao ouvir as palavras “feminismo” e “gênero”, agiam como se a conversa não fosse com eles, ou, ainda, como se aquilo fosse contra eles. Mas naquela época, a intensidade do conflito raramente escalava. O que evidenciava que havia a necessidade de produzir repertórios e contextos mais adequados para que os meninos se percebessem como parte da discussão quando a questão era gênero e transformações feministas.

Reflexão e responsabilização em espaços de troca

Meu trabalho com homens adultos ocorre a partir de uma série de perspectivas e recursos previamente determinados (Lei Maria da Penha, tipos de violência, direitos LGBTQIAPN+…). Mas sempre acreditei que a construção de espaços de reflexão e responsabilização dos homens passa por desejar saber de onde eles vêm, quem são e como pensam. 

Para que os sujeitos se engajem em propostas de transformação, é preciso primeiro que eles se sintam vistos e ouvidos. Assim se constroem comunidades de aprendizado, a lá bell hooks, e também possibilidades de revisão das próprias leituras de mundo. O “dedo na cara” nunca ou raramente provoca mudanças mais profundas, que mobilizem os sujeitos a produzirem outras histórias.

Assim, adianta pouco se voltar a meninos e jovens homens se não estivermos de fato comprometidas com a escuta dos mesmos. Essa escuta permite que vejamos para além da superfície das coisas e daquilo que nossa vista geralmente alcança.

Leia mais: Como o TikTok alimenta a misoginia entre adolescentes brasileiros

Voltando ao meu diagnóstico de anos atrás com os estudantes, o espaço escolar e os jovens atravessaram mudanças importantes de contexto. Parte dos meninos abandonou a postura distante durante as conversas sobre questões de gênero, direitos de mulheres e outros grupos minorizados, e temas correlatos. 

Agora, quando falamos desses temas, uma parcela significativa dos meninos se posiciona de modo a atacar tais ideias e ideais. Eles chegam com repertórios, mediados pela internet, por pares e inclusive por responsáveis, que tensionam e desafiam visões de mundo alinhadas à equidade e à não-violência.

A misoginia nas redes sociais

Recentemente AzMina e Núcleo Jornalismo mostraram como o TikTok alimenta a misoginia entre adolescentes brasileiros. Experimente baixar o aplicativo, criando um perfil para si como um menino de 13 anos. Em alguns minutos de rolagem dos vídeos curtos, você vai se deparar com a maneira com que o algoritmo produz repertórios machistas, que vão de “piadas” a manuais de comportamento masculino e feminino. Discursos conservadores, sonegação de impostos, Neymar, conteúdo policial, entre tantos, atuam lapidando a subjetividade de jovens e adultos.

O podcast Fio da Meada também toca o assunto. No episódio “Vanessa Cavalieri não quer prender o teu filho”, a juíza da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro fala de como a internet está longe de ser um ambiente seguro para crianças e adolescentes. Nos últimos anos, ela observa como há um crescimento exponencial de adolescentes cometendo infrações digitais graves, construindo relações entre o que ocorre nas redes e fora delas.

Um olhar mais atento aos processos de subjetivação de meninos e jovens homens também tem ganhado mais atenção a partir de produções audiovisuais como a recente série Adolescência (Reino Unido, 2025) e, antes mesmo, com produções como o filme sensível Close (Bélgica/Holanda, 2022), de Lukas Dhont. 

Leia mais: Homens podem ser feministas? As tensões entre identidade e posicionamento político

Parece que está em curso um despertar lento sobre a urgência de olhar os meninos. É imprescindível qualificar a forma que esse olhar assumirá, distanciando as abordagens de perspectivas meramente punitivistas. E também nos afastarmos de versões cristalizadas do que significa se tornar menino e homem no mundo atual.

Enquanto feminista preocupada com a questão das masculinidades, eu sempre retorno ao texto “O filho homem: reflexões de uma lésbica negra e feminista”, de Audre Lorde, no qual ela reflete sobre a criação de seus filhos, Beth e Jonathan, na época com 15 e 14 anos. 

A certa altura, Audre escreve:

“Muito provavelmente sempre haverá mulheres que caminham com mulheres, mulheres que vivem com homens, homens que escolhem homens. Eu trabalho em prol de um tempo em que mulheres com mulheres, mulheres com homens, homens com homens, todos compartilharão o trabalho num mundo que não nos faça trocar o pão, nem a identidade, pela obediência, nem a beleza nem o amor. E nesse mundo criaremos nossas crianças livres para escolher a melhor maneira de se sentir realizadas. Pois somos coletivamente responsáveis pelo cuidado e pela criação dos jovens, uma vez que criá-los é, enfim, uma função da espécie” (In: Irmã outsider, 2019, p. 98-99).

Somos todas nós, mulheres, homens e adultos não-binários responsáveis pela criação dessas pessoas em formação, sejam elas meninas, meninos ou menines. Isto significa manter uma permanente disposição para acompanhá-las, escutá-las, apontar direções, ensinar limites, socializar repertórios para lidar com tudo aquilo que sentem e com aquilo que não entendem. É nosso papel produzir com crianças e adolescentes sensibilidades éticas alinhadas à perspectiva de uma sociedade mais justa e não erigida sobre a violência.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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