
“Quem matou meu pai” é o título de um dos livros do escritor francês Édouard Louis. Em sua obra, o autor reflete de maneira contundente não só sobre suas experiências pessoais, mas sobre os contextos sociais que as informam, incluindo a política, as desigualdades de classe, a homofobia e o machismo. Há algum tempo seus escritos vêm ganhando espaço no Brasil, onde esteve em 2024 durante a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty-RJ) — ocasião em que foi também entrevistado no programa Roda Viva.
Nascido em uma família da classe trabalhadora no norte da França, Louis produziu a si mesmo (e foi produzido) em um contexto que pode ser familiar a alguns de nós. Seu pai era um trabalhador fabril que a certa altura da vida sofreu um acidente de trabalho. Ele foi esmagado por uma estrutura de metal utilizada para armazenar e transportar materiais. Esse episódio deixou o pai acamado e, junto a outras práticas, como o consumo regular de álcool, fez com que sua saúde e vida se deteriorassem.
Em Quem matou meu pai, de 2018, Louis narra parte de sua biografia no entrelaçamento com a biografia de seu próprio pai. E nos oferece descrições vívidas de cenas marcadas pelo distanciamento e tensionamento com essa figura paterna que evoca tanto o machismo e a homofobia quanto a falência de uma ideia de masculinidade unicamente associada ao poder.
Quem matou meu pai nos faz refletir sobre como cada uma de nós é testemunha e coadjuvante de histórias que nos precedem e que se desenrolam enquanto também nos tornamos gente. O livro chegou a mim quando eu mesma atravessava dramas familiares dos quais sou, ao mesmo tempo, testemunha ocular e agente.
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A leitura trouxe sentimentos díspares
Li boa parte do livro sentada na calçada da casa dos meus pais durante o período em que meu pai passou por algumas cirurgias e ficou internado por semanas em hospitais públicos de São Paulo. O processo todo me atravessou com sentimentos díspares (ou nem tão díspares assim…), como medo e raiva. Muita coisa se misturou ao longo dos últimos meses, até sua recente alta hospitalar, me deixando num estado de inquietação e desconforto.
De imediato, pensei sobre como o adoecimento de meu pai não era algo inusitado, ou um acontecimento surpreendente. A ferida nos pés que rapidamente virou uma amputação já se anunciava, como se dissesse: “uma hora ou outra, eu acontecerei”. No final do ano anterior, o mesmo processo. Durante a pandemia, outra situação.
O pai de Louis, meu pai e tantos outros pais, aqueles sobre os quais temos notícia, vivem uma espécie de tragédia anunciada ou morte a conta-gotas. Mesmo falando de um contexto distinto do brasileiro, ao retratar a situação de famílias de classe baixa, o jovem Édouard Louis traça um diagnóstico preciso de biografias que se produzem a partir de atrofiamentos e que passam ao largo do existir em condições plenas.
“Você não pode mais dirigir sem se colocar em perigo, não tem mais permissão para beber, não pode mais tomar banho ou ir trabalhar sem correr riscos imensos. Você tem pouco mais de cinquenta anos. Você pertence àquela categoria de seres humanos para quem a política reserva uma morte precoce”. (trecho do livro)
Ao falar da política, o escritor nos conduz a uma análise atenta da maneira pela qual as biografias dos sujeitos não se forjam de maneira independente. São sempre atravessadas por contextos sociais mais amplos que envolvem, por exemplo, o Estado e o capitalismo, bem como políticas de gênero e raciais.
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Diferença de expectativa de vida aponta realidade complexa
No Brasil, quando olhamos para os homens nas estatísticas, temos um vislumbre sobre o que significa caminhar pelo mundo dentro desses corpos. Um primeiro dado bastante conhecido por nós é a diferença em termos de expectativa de vida a depender do sexo/gênero. Em 2023, enquanto a expectativa de vida das mulheres era de 79,7 anos, a expectativa para os homens era de 73,1 anos (IBGE, 2024).
Mas é possível colocar um zoom sobre esses dados e ter algo mais próximo de nossa realidade. Na cidade de São Paulo, por exemplo, o Mapa da Desigualdade de 2024 aponta que quem mora na periferia da cidade vive em média 24 anos a menos do que quem mora em bairros nobres. Segundo a Rede Nossa São Paulo, quem reside no Distrito Anhanguera, na periferia da zona norte, vive em média 58 anos. Já quem mora em Alto de Pinheiros, região nobre da zona oeste, vive em média 82 anos.
No caso dos homens, o que “encurta” essas vidas? Segundo o relatório Masculinidades e Saúde na Região das Américas, atualizado em 2022, as mortes entre homens do Norte ao Sul de nosso continente são mais pronunciadas em alguns campos. Poderíamos aqui focar especialmente em três índices: homicídio, acidentes de trânsito e cirrose hepática causada por álcool.
A proporção de mortes por homicídio é de 7 homens para 1 mulher; por acidentes de trânsito: 3 homens para 1 mulher; e por cirrose hepática: 2 homens para 1 mulher. Então, o que nós temos é que alguns homens não chegam nem aos 50 anos, sobretudo em função da violência e de acidentes de trânsito, ambas vitimando mais os homens jovens (negros e pobres, no caso do Brasil).
Além disso, são citados também problemas de saúde como doenças cardíacas e pulmonares, acidente vascular cerebral e diabetes. Compõem ainda o cenário as taxas de suicídio mais elevadas entre os homens, que, no caso brasileiro, são de quase 4 homens para 1 mulher.
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Masculinidade como “fator de risco”
Mas o que esse emaranhado de estatísticas tem a ver com Quem matou meu pai? Recentemente ouvi de um colega que a masculinidade é um “fator de risco”. Meu pai passou três semanas internado em um hospital público. Ficou dois dias sentado esperando uma cirurgia enquanto não se aguentava em pé porque não havia leito disponível. Lutou com uma infecção por três meses. Perdeu 15 kg, sua voz sumiu, não conseguia andar sozinho, comer ou se manter acordado.
Nas três semanas que o acompanhei no hospital, vi homens de diferentes idades entrarem e saírem da internação. Homens com câncer urrando de dor, outros envolvidos em acidentes de trânsito com fraturas no fêmur, e amputados em decorrência de complicações da diabetes. Homens que se jogaram do sétimo andar, que levaram garrafadas na cara e romperam a artéria. Homens com diferentes histórias sociais, mas ainda assim histórias tão comuns.
O adoecimento de meu pai não foi uma surpresa. A surpresa seria se ele não adoecesse. Meu pai e os homens que conheci na internação são a estatística que apresento em minhas aulas, em palestras, em artigos… Eles são sujeitos de si, mas também tão determinados por seus contextos.
Ao escrever este texto, fico buscando uma forma de escapar dessa narrativa que em muitas situações pode parecer inevitável. Édouard Louis, ao pensar no próprio pai, sentencia: “Sua vida prova que não somos o que fazemos; ao contrário, somos o que não fizemos, porque o mundo ou a sociedade nos impediu”.
Como escrever sobre masculinidades sem falar em mortes literais e figuradas? Como rasurar as estatísticas e produzir outras biografias? Na maior parte dos dias, consigo pensar em rotas. Em outros, digamos que não é tão fácil.
Mas uma coisa é certa: se não tomarmos masculinidades e a construção de meninos e homens como questões centrais no contemporâneo, pouco poderemos transformar. Das infâncias aos processos de envelhecimento, cuidar de mulheres, pessoas não-binárias e homens é refletir, conversar e produzir estratégias em torno de como os nossos — e nós mesmos — nos tornamos as pessoas que somos.
