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16 de junho de 2021

Movimentos feministas precisam incluir mulheres com deficiência!

Atriz Aline Prado alerta para a violência contra as mulheres cegas que são silenciadas

“Maria, menina, machucada.

Maria é só mais uma triste estatística, marginalizada por uma sociedade machista.

Maria mulher, presa, amordaçada, silenciada por uma sociedade que vive de aparências.

Maria que se cala, que não pede socorro, que pensa que é ela quem está errada.

O sangue escorre do nosso corpo, escorre do nosso útero todo mês, sangue natural, sangue de mulher. Escorre sangue da gente, sangue que não é natural, do nosso rosto, das nossas mãos, do nosso corpo.

Não, o meu corpo não é um espaço público, uma sociedade onde o machismo é cultural e estrutural não tem que fazer a gente sangrar todos os dias.

Quando uma mulher sangra todas as outras sangram também é o sangue das nossas ancestrais que foram derramados  é o nosso sangue que continua sendo derramado.

Mulher que sangra, mulher que luta, menstrua, apanha, sofre e resiste”.

Trechos da performace realizada durante o Levante Feminista no Museu Vozes Diversas, com base no espetáculo: “Marias, Um Grito no Escuro!”, estrelado por Aline Prado.

Como poeta e escritora com deficiência, eu participei do Levante Feminista no Museu Vozes Diversas (https://www.vozesdiversas.com/), um espaço digital de exposição de arte, cultura e educação não-normativa. Foi lá que eu conheci a importância do trabalho da Aline Prado para o movimento feminista. Ela está em cartaz com o espetáculo “Marias – Um grito no escuro!” para denunciar a violência que as mulheres com cegueira sofrem diariamente.    

Aline é atriz com deficiência visual. Começou seus estudos em teatro na cidade de Peruíbe, litoral de São Paulo, e se formou em 2017 em artes dramáticas pelo estúdio Centro de Estudos Teatrais e Linguagens Artísticas. Mas desde 2012, trabalha com formação em teatro de rua, e estudos na área de dança, corpo e performance na Cia Pé de Ator. Aline foi considerada melhor atriz revelação no Festival de Cenas Teatrais em 2017 e no Mapa Cultural Paulista em 2015. Com a pandemia ela começou a estudar e trabalhar com o teatro digital e vídeos performance dentro do Coletivo Libertas.

Autodescrição da artista: Eu sou uma mulher cega, parda, tenho cabelos compridos, escuro e liso. Eles tão soltos, tenho o rosto redondo, nariz e lábios grossos, olhos escuros. Estou usando blusa azul escuro de alça. Estou sentada em um sofá com estampa florida. Ao fundo tem uma cortina vermelha, uma mesa pequena com um vaso em cima.

Ao entrevistar Aline, constatei a gigantesca e urgente necessidade de que todos os movimentos feministas precisam INCLUIR as mulheres com deficiência agora! Não podemos esperar mais um minuto para JUNTAS sermos mais fortes na luta contra o feminicídio, o machismo, a misoginia, a discriminação e o preconceito de gênero. Afinal, absolutamente todas as mulheres podem adquirir uma deficiência a qualquer momento (devido às violências, acidentes de trânsito ou em casa, entre outras situações). 

E estas mesmas mulheres podem gerar ou adotar filhas com deficiência que, além de misoginia passarão por situações de capacitismo. Para lutar contra estas situações de exclusão, a Aline nos alerta: “Só deixaremos de sermos invisíveis aos olhos de uma sociedade capacitista, quando as mulheres com deficiências se empoderarem, junto com todas as mulheres, independente das nossas diferenças!”

Confira a seguir trechos da nossa conversa:

Leandra: Como é ser uma mulher com deficiência na sociedade brasileira hoje?  

Aline: Ser uma pessoa com deficiência na sociedade já é difícil, agora ser uma mulher com deficiência é matar cinquenta leões por dia. Temos que provar o tempo todo para as pessoas que temos capacidade de fazer coisas simples, como andar nas ruas, escolher o que queremos comprar, pagar nossas contas, trabalhar, casar, ter filhos… Nós, mulheres com deficiência, lidamos com muitos desafios diariamente, pois somos mais vulneráveis em casos de abusos. 

Não temos como saber se um cara no transporte público está fazendo gestos obscenos para nós. E se formos abusadas não temos como reconhecer e nem fazer um retrato falado do sujeito, pois, não temos como ver se o cara está nos seguindo. As pessoas com deficiência física não tem como se desvencilhar do abusador. E já pararam para pensar quem sabe falar a Língua Brasileira de Sinais [Libras] nas cidades? Como as mulheres surdas que não falam a Língua Portuguesa vão pedir ajuda? Por isso, precisamos ter autonomia para fazer uma denúncia em uma delegacia especializada. Queremos que tenha câmeras por todos os lugares nas cidades para que se um abuso aconteça, o abusador seja reconhecido. Também precisamos nos sentir seguras ao andar nas ruas e nos transportes públicos. Ainda faltam iniciativas dos governos em olhar para as necessidades das mulheres com deficiências.

Leandra: Quais foram os motivos que a levaram a abordar o tema da violência contra mulheres com deficiência visual e mulheres com cegueira no teatro?

Aline: Nós da Cia Pé de Ator já tínhamos um espetáculo sobre o universo feminino que começamos a trabalhar em 2017. Quando chegou a pandemia, percebemos o quanto a violência contra a mulher continua crescendo e o quanto a sociedade ainda mascara ou não quer enxergar a violência. Sabemos que existem agravantes na Lei Maria da Penha, que se a mulher agredida por seu companheiro adquirir uma deficiência, sua pena aumenta. Mas quantas mulheres com deficiência sabem disso? E quantas têm acesso a delegacias especializadas? 

Estas foram perguntas que nos motivaram a levantar esta discussão para montar o espetáculo. O meu corpo como artista se abriu para representar essas mulheres, esse universo feminino que está tão próximo de nós. Também fizemos rodas de conversas com mulheres cegas que passaram por violências das mais diversas. Além disso, estudamos o tema da violência lendo os artigos da Dra Débora Prates, que é uma advogada cega que milita pelos direitos da mulher com deficiência. Ela descreve sobre o quanto as mulheres com deficiência estão invisíveis aos olhos da sociedade e dos governos; além do quanto, as leis e as pessoas precisam evoluir.

Leandra: Você participa de movimentos sociais de luta por direitos das pessoas com deficiência? Sente que as mulheres com deficiência são aceitas pelos movimentos feministas?

Aline: Eu participo do Movimento Brasileiro de Mulheres Cegas e Baixa Visão, e lutamos por políticas públicas que realmente funcionem e que nos representem. Pois ainda falta muito para os movimentos feministas representar todas as mulheres. O feminismo se esquece de falar da mulher com deficiência! Ainda existem poucos movimentos de mulheres com deficiência e menos ainda movimentos mistos (de mulheres com e sem deficiência), que para mim seria o ideal. Vocês sabem quem são as mulheres que integram os maiores movimentos feministas do país? Se na sua diretoria existem mulheres com deficiências? E quais são as políticas públicas que esses movimentos feministas propõem para as mulheres com deficiência? Acredito que todos os movimentos feministas não podem esquecer que, nós, mulheres com deficiência, somos mulheres e independente da etnia, idade, orientação sexual, posição social ou deficiências, estamos sujeitas a violência.

Leandra: Então, por que as mulheres com deficiência são excluídas dos movimentos feministas? Falta acessibilidade? Existe capacitismo? Como você acredita que estas barreiras devem ser quebradas?

Aline: Acredito que falta interesse da sociedade toda a respeito das questões de quem tem alguma deficiência, porque a sociedade ainda não enxerga a mulher com deficiência com igualdades de direitos. Além disso, o capacitismo (preconceito contra as pessoas com deficiência) está presente o tempo todo na vida das mulheres com deficiência. Por exemplo: ainda é comum as mulheres sem deficiência se admirarem quando uma mulher com deficiência é mãe, quando ela está trabalhando, ou andando nas ruas. E elas também ficam admiradas quando param para pensar que as mulheres com deficiência, infelizmente, sofrem diversas violências cotidianamente; e pior, que na maioria das vezes nem tem uma amiga ou família para pedir ajuda. Todos os aplicativos, sites, canais de vídeo e áudio, telefones e formas de fazer denúncias, como delegacias para mulheres, precisam urgentemente ser completamente acessíveis para todas as mulheres com deficiência!

Também falta um olhar das mulheres que não possuem deficiência para a diversidade! As mulheres com deficiência ainda são enxergadas como minorias que vivem à sombra de pessoas como familiares e amigos. Esta ideia errada tem que ser quebrada, pois, nós – mulheres com deficiência – temos vida própria, vontades, resistência; e não precisamos que alguém fale em nosso nome! Exatamente por isso, que os movimentos feministas precisam ter mulheres com deficiência dentro deles! E ocupando cargos de liderança! Com lugar de fala e opinião própria!

Conheça a Ocupação no Levante Feminista do Museu Vozes Diversas do espetáculo: “Marias, Um grito no escuro!”:  

E antes de terminar a leitura aqui n’AzMina, passa lá no Museu Vozes Diversas e assiste a minha Ocupação dentro do Levante Feminista!

Leandra gosta de flores perfumadas, cheiro de terra molhada, abraço de cachorro, pôr de sol, mar, fogo, chocolate, vestido colorido, livros, beijos na boca, amigos, poemas, música, teatro, palavras, cinema, cachoeira, borboleta, beija-flor, aroma de cozinha em ação, sexo, tesão, canção, choro contido, dor, paixão… É Bacharel em Comunicação Social e estuda Jornalismo Literário e Escrita Criativa. Lançará sua autobiografia: “Cadê a jornalista?”, a primeira obra da Coleção Janelas do Selo Caleidoscópio, que publicará biografias e autobiografias de mulheres com deficiência desconhecidas da grande mídia. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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