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31 de julho de 2019

O que falta em uma mulher com deficiência?

O ‘diferente’ sempre assusta porque incomoda e toca na maior ferida humana: sua natural fragilidade e finitude
mulher com deficiência
Descrição da imagem: foto de Lena Silva em que Leandra aparece com uma blusa com decote em forma de V colorida estampada, sorrindo e olhando de lado. Ela tem a pele branca, olhos e cabelos castanhos na altura dos ombros. Está maquiada e com uma correntinha no pescoço.

“Quem sou?
Mistério doce
Forma diferente por ser igual
Humana,
Calma,
Intensa,
Densa,
Ardente
Exatamente como deve ser
Carrego comigo todas as dores e delícias de ser MULHER
Imperfeita / perfeita
Por simplesmente ser 
Sem medo de existir”  

Não sou a ‘regra’. Em 1977 sobrevivi quando a medicina me sentenciou. Fraturei vários ossos pelo corpo todo, andei com um par de muletas aos 5 anos, cresci até 96cm. Fui segregada em escolas excludentes, trabalhei em empresas pseudo-inclusivas, sofri discriminação dentro e fora de casa. Tenho pernas pequenas, ossos bem fracos e tortos. Sou totalmente diferente do que se convencionou como ‘mulher padrão’.

Sou Bacharel em Comunicação Social. Recebi prêmios internacionais pelos meus textos como jornalista. Viajei sozinha para fora do Brasil, desfilei em escolas de samba, curti muito a vida noturna, ganhei campeonatos de natação e fiz ensaios fotográficos sensuais. Hoje uso uma cadeira de rodas para me locomover. Tenho autonomia. Amo o meu corpo e todos os prazeres que ele me dá! 

Porém, se eu tivesse nascido nos anos 30, teria sido esquecida no quartinho dos fundos. No início do século 20, ficaria trancada em uma igreja. Na Idade Média, teria sido afogada ao nascer. O ‘diferente’ sempre assusta porque incomoda e toca na maior ferida humana: sua natural fragilidade e finitude. A inata imperfeição de todos os seres não tem lugar na sociedade da beleza plastificada e da suposta simetria.

Eu acredito que cada ser humano vive em seu ‘universo interior’ a diversidade de como está no mundo. Ser considerado ‘diferente’ do que a sociedade convencionou como ‘padrão’ por nascer com uma deficiência física é um ganho e uma perda ao mesmo tempo. Fazer parte ‘não sendo parte’ é dolorido, confuso, forte, enlouquecedor; ao mesmo tempo que é único, especial, instigante, interessante e até prazeroso. 

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Hoje não tenho mais aquela ânsia de provar que conseguia alcançar vôos bem mais altos do que o corpo permitia. Mergulhei bem fundo na dor do encontro com a frustração de não ser quem desejava ser. Despedacei. Acabei me perdendo e até ficando desorientada. Deprimi. Tive medo. Vontade de ir embora para sempre. Ser quem sou pesa. Cansa. Enjoa.

A sensação de prisão permanece mesmo me libertando por meio da arte. Não sou obrigada a aceitar e me resignar. Porém, nadar contra a corrente não vai levar a lugar nenhum a não ser à loucura e mais dor. Talvez, eu nunca aceite a casa que habito. E a ferida não cicatriza. Ou eu aceito-a e viva feliz. Talvez tenha que ser assim porque já estava escrito. 

A tragédia mora no mesmo lugar que a benção, e ser ‘diferente’ da maioria pode ter um lado bom e até desafiador. Mas tem um peso constante porque carrego nos ombros a missão de desbravar novas formas de pensar sobre o humano e a sua evolução.

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Aprendi que a perfeição e a normalidade não existem no Planeta Terra, e não é o mundo que se tornou diferente, ele sempre foi assim. Vivemos em uma sociedade que incorpora – ainda que às vezes não integra e inclui completamente – diversas culturas, opiniões, crenças e pessoas diferentes. Podem existir certas semelhanças entre uma e outra pessoa, mas o que mais salta aos olhos são nossas diferenças. O ser humano nunca termina de ser. Está sempre crescendo e se transformando continuamente, até o dia em que morre.

Ultrapassei com coragem as diversas barreiras impostas por aqueles que me discriminaram, quebrando também os meus próprios preconceitos. Mas ainda passo por momentos de crise, dor, desânimo, tristeza e até um pouco de desespero. E mesmo assim, gosto de aproveitar as coisas mais simples da vida. Para mim a diversidade faz parte da vida. É um doce que se saboreia lentamente.

Tornei-me jornalista e escritora porque encontro nas palavras o aliado que preciso para denunciar a gigantesca discriminação que as pessoas com deficiência ainda passam, e a necessidade de incentivos à leitura e a escrita em um país ainda preconceituoso e com pouco acesso à educação.

Sou Leandra, mas podem me chamar de Lê. Hoje sei que como mulher não me falta nada! Tenho o direito de ser cidadã em uma sociedade ainda Extremamente excludente! Por isso, minha arma são as palavras. 

Então, meu convite nessa coluna de apresentação é: vamos conversar sobre mulheres com deficiência?

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Leandra gosta de flores perfumadas, cheiro de terra molhada, abraço de cachorro, pôr de sol, mar, fogo, chocolate, vestido colorido, livros, beijos na boca, amigos, poemas, música, teatro, palavras, cinema, cachoeira, borboleta, beija-flor, aroma de cozinha em ação, sexo, tesão, canção, choro contido, dor, paixão… É Bacharel em Comunicação Social e estuda Jornalismo Literário e Escrita Criativa. Lançará sua autobiografia: “Cadê a jornalista?”, a primeira obra da Coleção Janelas do Selo Caleidoscópio, que publicará biografias e autobiografias de mulheres com deficiência desconhecidas da grande mídia. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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