
Os feminismos são muitos e diversos, sabemos que não existe um só jeito de ser feminista e muito menos uma fiscal que pode dar ou retirar a carteirinha de feminista de ninguém. Mesmo assim, nós, d’AzMina, entendemos que certas práticas e discursos excludentes e violentos que têm se popularizado por aí, se autodenominando feminismo ou “pelos direitos das mulheres”, na verdade, não têm nada a ver com o movimento, a teoria ou a práxis feminista. Com todas as letras: Transexclusão não é feminismo.
Sim, estamos falando das tais Radfems ou Feministas Radicais, Terfs (sigla para a expressão Feministas Trans Excludentes), feministas essencialistas, e de um conservadorismo que se apropria de pautas feministas para crescer. Mas, poxa, AzMina, bem no mês de março, diante de tantos casos de violência e feminicídios, vocês decidem publicar um editorial criticando outras mulheres? Pois é.
Porque o 8 de Março é, historicamente, um dia de luta e união do movimento pela equidade de gênero, e aqui valorizamos muito isso durante todos os meses, não apenas em março. E não dá pra gente falar em igualdade, direitos, respeito, se sentamos na mesa com pessoas que têm sistematicamente atacado e agredido grupos já muito vulnerabilizados pela mesma desigualdade de gênero. Queremos dizer publicamente algo que já vivemos há anos: nossa luta não é ao lado das “feministas” radicais transexcludentes.
Para quem não conhece, as “feministas” (entre aspas mesmo) radicais são um grupo que defende que toda a opressão que mulheres sofrem vem da biologia de seus corpos. Para elas, mulheres são oprimidas por serem fêmeas. E uma das principais articulações e ações políticas que elas fazem, atualmente, é contra os direitos de pessoas trans e contra o trabalho sexual reconhecido.
Elas estão, por exemplo, desde ontem (11/3) agindo com toda força para atacar a eleição de Érika Hilton à presidência da comissão da mulher na Câmara dos Deputados. Ao lado de figuras como Damares Alves, têm se mobilizado contra a deputada do PSOL com enorme violência, desrespeitando sua autoidentificação e adotando falas transfóbicas.
Não dá pra combater a violência e o ódio que nos mata todos os dias, pregando violência e exclusão.
É triste para nós ver como o feminismo tem perdido credibilidade. Não entre pessoas conservadoras, de quem o movimento nunca teve apoio, mas de um monte de gente que se alinha ideologicamente com o que o feminismo defende, mas mesmo assim prefere recusar o ‘rótulo’ de feminista por perceber no movimento organizações que reforçam estruturas opressoras de gênero.

Mas o que é gênero?
O feminismo é um movimento social e político que se tornou teoria, que surgiu para combater violências que mulheres sofriam e sofrem simplesmente pelo fato de nascerem mulheres e para demandar igualdade de direitos. O que começou na luta pelo voto evoluiu ao longo dos anos e vários entendimentos foram sendo construídos.
Um dos principais foi o de que não é o útero, a capacidade de gestar ou os hormônios que colocam as mulheres em posição inferior. Não. O que gera tanta desigualdade e violência é, vejam só, a construção social da ideia do que deve ser um homem ou uma mulher e que define os comportamentos que podemos ter, os lugares que podemos ocupar, etc.
Isso não quer dizer que quem tem útero não sofra violências específicas, mas que a violência não se origina nesses corpos e sim na estrutura social que dá um papel e um lugar a esses corpos.
A palavra “gênero” passou a ser usada para definir essa construção socio-histórica do que deveria ser um homem ou uma mulher. Meninas vestem rosa, meninos vestem azul? Construções de gênero. Lugar de mulher é na cozinha? Construção de gênero. Homem não chora? Construção de gênero.
E o feminismo é hoje esse movimento teórico-político-social que investiga e enfrenta as desigualdades criadas pelas estruturas de gênero.
Tá tudo bem discordar
Ao longo dos anos, foram surgindo várias frentes de interpretação e também de organização do feminismo, olhando para o debate de maneiras diferentes ou a partir de perspectivas diversas: feminismo negro, feminismo lésbico, transfeminismo, feminismo decolonial, feminismo materialista e várias outras linhas.
As diferenças são muitas e, vira e mexe, vira treta. Diferentes grupos têm suas próprias visões e prioridades, e isso é parte mesmo de estar em movimento social: coexistir com a diferença, negociar, articular e somar forças para combater aquilo que de comum nos afeta. No caso, essa estrutura social e de poder construída com base em gênero que muita gente chama de patriarcado.
Lembrando que não existe um lugar no mundo onde a violência de gênero atue sozinha. Ela cruza nossos corpos e nossas vidas entrelaçada com vários elementos, como raça, classe, sexualidade, território, deficiência e tantos outros. O olhar que leva em conta esses diferentes fatores é chamado de interseccionalidade (nesse vídeo a gente explica melhor esse termo).
Sabe o que todos os diferentes feminismos têm em comum? A visão interseccional do mundo, a compreensão de que as opressões de gênero atingem as pessoas de diferentes maneiras e que é preciso combatê-las para construir um mundo mais justo.
De mãos dadas com a direita
Percebendo o quanto isso pode trazer transformações, o conservadorismo tem se organizado há décadas no mundo todo em um movimento que usa a palavra “gênero” como bode expiatório para causar pânico e, com isso, angariar apoio para barrar e até retirar direitos conquistados. Aqui no Brasil, esse movimento antigênero ganhou um novo impulso em 2018 e tem vestido novas máscaras. Nas eleições desse ano, já podemos esperar por toda uma onda de candidaturas femininas conservadoras, que utilizam pautas tradicionalmente feministas, como o combate à violência doméstica, mas sem propor mudanças reais nas estruturas que promovem essa violência, muito pelo contrário.
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Como se não bastasse esse movimento assumidamente conservador, existem as radfems. Elas existem há anos, mas ultimamente têm se organizado no mundo todo e atuado de maneira mais sistemática nesse ataque. Inclusive unindo forças com figuras e organizações do conservadorismo e da extrema-direita.
No fim, também são parte desse movimento antigênero. O problema é que elas têm atraído muita gente pro seu lado com base num pânico, principalmente baseado nos direitos das crianças e num discurso que dá voltas antes de se assumir transfóbico.
Agora diz aí: você acha que um movimento que desrespeita, ameaça e agride pessoas que são vítimas da opressão de gênero tem algo a ver com um feminismo movido pela busca por justiça?
Os ataques são os mesmos
Não vamos entrar aqui nos números e dados sobre a violência contra pessoas trans, não é sobre isso. É sobre reconhecer que a violência que nega direitos e agride pessoas trans é exatamente a mesma que leva aos números assustadores de violência doméstica: a violência de gênero.
É essa estrutura de poder feita por e para homens brancos cisgêneros que define os papéis dos sujeitos de acordo com o gênero designado no nascimento, que mata mulheres e pessoas trans. Que nega às mulheres cis direitos de escolha sobre seus próprios corpos e às pessoas trans, veja só: direitos de escolha sobre seus próprios corpos. Que naturaliza o ódio a mulheres na internet e que ganha forma no movimento red pill.
Não é à toa que a extrema-direita tem como pautas centrais o ataque à população trans, às trabalhadoras sexuais e ao tema do aborto também. Que mundo mais justo é esse que querem construir com desrespeito e violência?
Transexclusão não é feminismo
AzMina surgiu há 10 anos para combater a violência de gênero por meio da informação e, desde o começo, sempre reconhecemos que nosso feminismo inclui, sim, o transfeminismo, como já falamos em outro 8M.
Mas agora achamos que precisamos fazer mais. Precisamos nomear as coisas corretamente e deixar claro de que lado estamos. E jamais estaremos ao lado da transfobia, da violência, da exclusão, da mentira e do conservadorismo.
E, para que não haja dúvida, também reforçamos: representatividade feminina na política, sem real conexão com demandas por mais direitos, é vazia. Ser contra a violência doméstica, mas não reconhecer a estrutura que cria essa opressão não leva a nada.
Contranarrativas por justiça e inclusão
Estamos vivendo um momento em que preconceito, violência e conservadorismo têm se apropriado do discurso feminista para conquistar mulheres. Seja com as rads dizendo que querem proteger as “mulheres de verdade e meninas”, seja com a direita dizendo que quer mais mulheres no poder ou combater a violência num discurso vazio. A atenção para não cair nisso precisa ser redobrada!
Um dos nossos focos de trabalho neste ano eleitoral é combater o movimento antigênero (antitrans e antidireitos) que tem tomado o país e construir contranarrativas. Até o fim de março, nossa campanha “Feminismo sem Conservadorismo” vai esclarecer o que é esse movimento, desmascarar as narrativas transfóbicas e explicar os diferentes feminismos.
Mas isso tem um custo: cada vez que tocamos nesse assunto, recebemos uma enorme onda de ódio. Se você acha que isso é importante e que se posicionar é preciso, apoie nosso trabalho e nos ajude a seguir nessa missão o ano todo!
No que depender da gente, o feminismo continua sendo, sim, o movimento de quem quer justiça e inclusão, fazendo frente à desigualdade de gênero. Não queremos deixar de dizer que somos feministas. Não queremos perder a palavra para o conservadorismo.
*Texto revisado com uso de IA
