
Quando Virginia Woolf publicou “Um teto todo seu”, em 1929, destacou a importância de que as mulheres escritoras tivessem um teto (ou um quarto, no original “A Room of One’s Own”) e dinheiro para sobreviver sem dependências. Quase cem anos depois, a reivindicação das mulheres que escrevem parece não ser tão diferente.
No Brasil de 2025, quem realmente consegue viver da escrita sem conciliá-la com trabalhos que, muitas vezes, são os que de fato pagam as contas? Mas hoje, a ideia de independência das mulheres, antes atrelada apenas às estruturas materiais de sobrevivência, carrega também o anseio pela liberdade sexual.
É claro: o tema não é novo, mas a avalanche de histórias contemporâneas que abordam sexo sob a perspectiva feminina escancara os múltiplos desejos — jamais adormecidos — que as atravessam.
Gradualmente, a literatura torna-se um espaço para que elas falem sobre “sexualidades nem sempre limpinhas”, como chamou a afro-estadunidense Raven Leilani, autora de “Luxúria”, em entrevista à Gama Revista. Elas falam sobre sexo, sim, mas também sobre traição, masturbação, assédio e até a falta de tesão dentro do casamento.
Personagens contemporâneas e seus desejos
“Dans le jardin de l’ogre” (2014), traduzido como “No jardim do ogro” (2019) por Gisella Bergonzoni, é uma dessas leituras que reverberam por dias após concluída. O impulso por devorar as páginas é mérito das habilidades narrativas da escritora franco-marroquina Leïla Slimani, que envolve suas leitoras nos complexos emocionais cotidianos de Adèle Robinson, protagonista da história.
Jornalista parisiense casada com o médico Richard Robinson, com quem teve o pequeno Lucien, Adèle leva uma vida aparentemente simples. Sua rotina, no entanto, é marcada por turbulentos impulsos adúlteros, que a sufocam pela culpa e inquietação. Cada um dos dias, horas e minutos de Adèle são tomados pelo desejo e pelas relações extraconjugais.
É curioso como a narrativa acompanha os pensamentos mais íntimos da personagem, que se mostra cada vez mais aflorada conforme o enredo avança. Aqui, percebemos como os ímpetos sexuais de Adèle revelam aspectos mais complexos de sua personalidade e trajetória, marcada por um casamento frustrado, pela insatisfação com a maternidade e pela necessidade de ser desejada por quem está ao seu redor:
“Esta noite, ela [Adèle] não pode existir. Ninguém a vê, ninguém a ouve. Ela nem tenta afastar os flashes que destroem sua mente, que queimam suas pálpebras. Ela balança a perna por baixo da mesa. Ela quer ficar nua, que alguém toque seus seios.” (Tradução de Isabela Araújo)
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Prazer sozinha e acompanhada
Conflitos semelhantes aos de Adèle estão presentes no recente “De quatro” (2024), romance de Miranda July – celebrado por abordar temas como a perimenopausa. O livro, publicado no Brasil pela editora Amarcord, com tradução de Bruna Beber, embalou listas de melhores do ano em veículos como The New York Times e The New Yorker.
Nele, acompanhamos uma artista bissexual prestes a completar 46 anos. Ela decide atravessar os Estados Unidos de carro, saindo da Califórnia em direção a Nova Iorque – mas tudo dá errado. Na primeira parada que faz, em uma região muito próxima de casa, a personagem é invadida por uma pergunta simples, mas estarrecedora: “quem eu me tornaria se continuasse aqui?”.
É essa curiosidade sedutora que a impele a continuar ali, mas sem contar ao seu marido ou à sua criança não binária. Em um quarto de hotel de beira de estrada, que ela decora à sua maneira, embarca em uma jornada de autodescoberta, epifanias sexuais e siriricas homéricas.
Nesse teto todo seu, a artista se atrai de forma inédita por Davey, um aspirante a dançarino. Ele, assim como ela, está em um relacionamento fechado e monogâmico. Os dois, no entanto, passam a se encontrar naquele quarto de hotel redecorado, alimentando o desejo um do outro.
Explorando os limites da monogamia
Os limites da monogamia também surgem de maneira central em “Luxúria” (2021), que já mencionamos acima A tradução do título remete ao pecado capital da busca desenfreada por prazer sexual. No livro, a jovem Edie cai de cabeça na dinâmica de um casal que acaba de abrir o casamento.
Sexualmente independente e afastada de puritanismos, ela é mais um dos símbolos dessa seara de personagens contemporâneas que desafiam o modelo tradicional de mulher submissa, mãe ou esposa.
Ao lado dela, nesta prateleira de figuras femininas que buscam por outras possibilidades de existência, está Omelogor. Construída por Chimamanda Ngozi Adichie no recente “A contagem dos sonhos” (2025), essa personagem encara e desafia a lógica patriarcal nigeriana abertamente.
A espirituosidade de Omelogor está justamente na rejeição aos julgamentos que recebe por seguir em uma enseada sexual livre – priorizando seus anseios profissionais, amizades femininas e bem-estar pessoal.
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Os conflitos não são de hoje
Em 1962, a italiana Alba de Céspedes já abordava temas semelhantes em “Caderno proibido”. Anulada pelo casamento e pela maternidade, a personagem Valeria despeja suas angústias mais profundas em um caderno. O ato de escrever ilumina seus horizontes e expande suas possibilidades. Ela percebe, então, que elementos básicos da própria identidade, como seu nome, haviam sido apagados dentro do contexto familiar.
Invadida por essas revelações, Valeria se vê em uma cruzada entre a novidade do desejo e a manutenção da vida que levava antes da chegada do caderno. Até seu chefe, um homem que nunca havia causado nela nenhuma sensação, se transforma diante de seus olhos de mulher despertada.
De forma íntima, a autora demonstra como a escrita de si é capaz de inspirar perspectivas ocultas da subjetividade humana. Principalmente para as mulheres e demais grupos sociais marginalizados, o ato de narrar – ainda que a partir da ficção – pode revelar aspectos particulares soterrados pelas hostilidades de uma sociedade intolerante.
É claro: uma vida de opressões machistas não será compensada pela escrita, mas pode ser elaborada, lapidada, tornando consciente o que antes estava obscuro.
Por isso, como nos lembra Gloria Anzaldúa em “A vulva é uma ferida aberta & Outros Ensaios” (2021), “escrever é perigoso, porque temos medo do que a escrita revela: os medos, as raivas, a força de uma mulher sob uma opressão tripla ou quádrupla. Porém, neste ato reside nossa sobrevivência, porque uma mulher que escreve tem poder. E uma mulher com poder é temida.”
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Elas querem tudo
Elas querem o teto, e também querem o quarto. A segurança de viver da escrita, ou de qualquer outro ofício, precisa vir acompanhada da liberdade de desejar, não apenas no sentido sexual, mas como força vital, que move e transforma.
A literatura das mulheres que desejam nos mostra que esse ainda é um terreno vigiado, onde pesam a opressão doméstica, a invisibilização e a maternidade compulsória. Por isso, ao escreverem sobre insatisfação, prazer e autonomia, autoras contemporâneas criam personagens que desafiam as expectativas sociais.
Sem abrir mão da qualidade estética e literária, elas usam a palavra como instrumento de ruptura, reivindicando o direito de habitar também territórios que lhes foram negados, os considerados impróprios, indesejáveis ou impuros.
Livros citados:
“Um teto todo seu”, de Virginia Woolf, trad. Vanessa Barbara. Antofágica.
Ensaio fundamental da teoria feminista em que Virginia Woolf defende que, para escrever, as mulheres precisam de autonomia financeira e um espaço próprio.
“No jardim do ogro”, de Leila Slimani, trad. Gisella Bergonzoni. Tusquets.
Romance que narra a vida dupla de Adèle, casada e mãe, aprisionada por uma compulsão sexual que expõe tensões entre desejo, culpa e normas sociais.
“De quatro”, de Miranda July, trad. Bruna Beber. Amarcord.
Romance que aborda questões como perimenopausa, desejo e identidade a partir da história de uma artista de 46 anos que se refugia em um quarto de motel.
“Luxúria”, de Raven Leilani, trad. Ana Guadalupe. Companhia das Letras.
Romance de estreia centrado em Edie, protagonista racializada que se envolve em um triângulo afetivo com um casal de classe média branca em Nova York.
“A contagem dos sonhos”, Chimamanda Ngozi Adichie, trad. Julia Romeu. Edição da TAG Livros.
Entre EUA e Nigéria durante a pandemia, o romance acompanha quatro mulheres adultas que lidam com amor, traumas, desigualdade, solidariedade feminina e busca por identidade.
“Caderno proibido”, de Alba de Céspedes, trad. Joana Angélica d’Avila Melo. Companhia das Letras.
O livro acompanha Valeria, uma mulher de classe média romana que tem sua vida transformada depois de começar a escrever em um caderno.
“A vulva é uma ferida aberta & Outros Ensaios”, de Gloria Anzaldúa, trad. tatiana nascimento. A bolha editorial.
Coletânea de ensaios sobre sexualidade, gênero, escrita como poder e resistência frente às opressões raciais, de classe e de gênero.
