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“Se você tem preconceitos, medos e travas, o que você ensina?”. Um papo sobre sexo entre mãe e filha

por Helena Bertho
27 de maio de 2019
Para abrir diálogo com quem pensa diferente, Mari criou com a mãe um podcast para falar sobre sexualidade
sexualidade entre mãe e filha
Mari e Maria Helena conduzem juntas um podcast sobre sexualidade (Divulgação)

Quando a Mari Nagem contou que a mãe dela é educadora sexual, eu logo imaginei a Gillian Anderson na série Sex Education, sem limites para a liberdade (e invasividade) sexual. Principalmente depois que ela falou que as duas iam começar a fazer juntas um podcast sobre sexo. Mas quando conheci a Maria Helena, a mãe da Mari, descobri que ela é uma mulher de 74 anos nada excêntrica e até conservadora para os meus padrões. Mas totalmente aberta a ouvir e tentar entender novas ideias.

Foi exatamente por isso, inclusive, que a Mari convidou ela para apresentar ao seu lado o podcast A Filha da Mãe, que estreou no Dia das Mães e você pode ouvir aqui. “Eu tenho interesse de falar com os diferentes. Então eu penso: como posso transformar tudo isso que estou vivenciando, aprendendo, para uma pessoa diferente de mim, que tem uma vivência, uma experiência e um modelo de vida muito diferente de mim?”, diz Mari. E conta que a resposta foi ter esse diálogo exatamente com alguém bem diferente dela: sua mãe.

Maria Helena é bióloga e dava aulas de educação sexual no fim dos anos 80 e no início da década de 90. “Tinha escolas que não admitiam. Teve escola em que o diretor mandou arrancar a folha do livro onde tinha desenho do aparelho reprodutor feminino e masculino”, lembra. Parece que estamos voltando a essa época, né?

Em suas aulas, ela conta que os assuntos principais eram “reprodução, menstruação, polução noturna do menino, ereção e o ato sexual”.

Superando preconceitos

No podcast, os assuntos são diferentes, tirando Maria Helena de sua zona de conforto. Transexualidade, bissexualidade e assédio são alguns dos temas que Mari e a mãe vão discutir. Mas não sozinhas: tirando o programa de estreia, onde se apresentam, nos outros elas recebem convidados e convidadas ligados ao assunto do dia.

Leia mais: Você sabe do que está falando quando se diz contra a educação sexual em escolas?

Para se preparar para essa conversa, Maria Helena e Mari estudam antes da gravação e depois escutam o que a pessoa tem a dizer. Para a educadora sexual, o resultado tem sido quase uma revolução na forma como ela enxerga o mundo.

“No começo, você acha que o diferente é pior: ‘Nossa, acabou a moral. Meu Deus, como vai ser? A família não existe mais’? Depois você pensa: ‘por que eu sou o protótipo? Por que o modelo tem que ser eu’? E daí eu vou estudar,  ouvir, pensar no outro e tentar me colocar no lugar do outro. Ainda tem muita coisa que eu não entendo. Mas as mudanças têm que vir de dentro para fora”, conta.

Como exemplo, cita que costumava se incomodar ao ouvir histórias de pessoas trans. “Eu ficava revoltada. Como é que isso é para o filho? E para a esposa da pessoa que transiciona? E daí quando eu ouvi o lado dela, mudou tudo. Aprendi a respeitar e admirar.”

Sexo como um sentido

Tanto mãe quanto filha consideram sexualidade uma parte essencial da vida e por isso acham importante debater o assunto. “Acho que a gente fica doente se não explora esse sentido da vida. Minha mãe define o sexo como um sentido, como o tato ou a audição”, diz Mari.

Leia mais: Ideologia de gênero: entenda o assunto e o que está por trás

Já Maria Helena vai mais longe e diz que seu casamento, que já dura 46 anos, não teria resistido se não fosse a química na cama. “Minhas amigas falam que querem chegar logo na menopausa e eu fico horrorizada. Para mim não tem coisa mais importante”, conta ela, sem vergonha nenhuma, na frente da filha.

Como falar de sexo com sua filha?

Para mim, uma das coisas mais inspiradora do podcast e do encontro com as duas foi ver a forma como dialogam sobre um tema tão cheio de tabus. Por isso, aproveitei e perguntei: Que dicas vocês dão para que as mulheres tenham diálogos mais abertos sobre sexualidade com suas filhas?

Quem respondeu foi Maria Helena e foi lindo: “Não existe escola de mãe ou de pai. É uma relação que é construída ao longo da vida, com admiração e confiança. E sabe? Antes de você dar algo, você tem que ter. Você tem que procurar o que você tem sobre isso. Se você tem preconceitos, medos, travas, o que você ensina? Então, primeiro viva sua sexualidade e desfrute, aí sim você vai passar com muito mais eficácia”.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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