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Pornografia: vamos continuar odiando ou fazer diferente?

por Helena Bertho
2 de abril de 2019
Se ela faz as vezes de educação sexual, sou do time que acha que devemos nos apropriar dela e estimular uma nova pornografia, mais inclusiva e feita por mulheres
O filme “As Filhas do Fogo” levou aos cinemas pornografia lésbica (Foto de divulgação)

Semana passada fui assistir a um filme pornô lésbico no cinema. Isso mesmo. Pornô. Lésbico. Em uma sala de cinema. O filme é argentino, chama “As Filhas do Fogo” e entrou, mesmo que discretamente e em poucas salas, em circuito comercial.

E é algo extremamente impactante assistir assim, em um ambiente público e na tela grande, cenas sexuais que mostram corpos fora do padrão e transas focadas no desejo e no prazer de mulheres.

Não vou fazer uma análise crítica do filme, mas sim falar da reflexão que ele me provocou. É que acho que foi uma das poucas vezes que vi em um pornô sexo lésbico que parecia realista e no qual as mulheres pareciam ter prazer. E foi muito impactante poder ver isso exposto assim, na tela grande.

Não é porque eu nunca vi ponografia. Nem porque eu não tenha procurado antes. Simplesmente porque é realmente difícil achar pornografia que ilustre mulheres tendo prazer real, sem focar no prazer masculino – até mesmo os filmes de sexo lésbico, muitas vezes, são focados no desejo do homem!

E qual a relevância disso?

Bem. Sexo é um enorme tabu. Não se fala dele na maioria das famílias. Nas escolas, a educação sexual praticamente não acontece e nem podemos esperar que esse cenário melhore no futuro próximo. Já a pornografia está ali, a um clique, em qualquer computador ou celular.

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Onde você acha que adolescentes cheios de hormônios e curiosidades vão encontrar informação e modelos para desenvolver sua sexualidade? Não à toa, o Pornhub, um dos maiores sites de pornografia do mundo, teve 92 milhões de visitas por dia em 2018. Inclusive, uma ideia já aceita entre especialistas é de que a educação sexual de jovens hoje é majoritariamente feita pela pornografia.

O que o pornô ensina?

Existe um debate enorme no feminismo sobre pornografia. De um lado, pessoas que acham que se trata de exploração e mercantilização dos corpos de mulheres. Do outro, um grupo que acredita que a pornografia pode ser feminista e libertadora para a sexualidade da mulher.

Não chego a dizer que a pornografia pode ser feminista. Mas sou do time que acha que ela vai continuar existindo, quer queiram, quer não, e que ocupa um papel cada vez maior na formação dos comportamentos sexuais das pessoas.

Por isso, acho importante se apropriar dela.

Uma boa parte do que existe na pornografia mainstream atual nem é sobre sexo. É sobre abuso, sobre violência contra a mulher. Não recomendo o exercício, mas a busca por termos em inglês como “forced” (forçada), “abuse” (abuso) ou “rough” (bruto) trazem milhares de resultados.

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Vale saber que homens são a maioria dos consumidores desses conteúdos: em 2018, foram 71% dos que visitaram o Pornhub.  

Nos sites mais populares, meninos vão aprender a forçar e a agredir a mulher, a exigir o que querem mesmo sem consentimento, a bater, a ter prazer na dor da mulher e também a transar de uma forma que ignora por completo o prazer e a sexualidade feminina. Sem falar no enorme volume de conteúdo  focado nas “novinhas” ou adolescentes (“teen” foi o sétimo termo mais buscado do ano passado) ou, usando a palavra certa, pedofilia.

Já para as meninas, resta aprender que seus corpos não são sexualmente desejáveis, que o prazer vem da meteção britadeira ou da ejaculação na cara, que a violência é parte do sexo, que aceitar garganta profunda ou qualquer outra exigência masculina é parte do jogo… E daí quando vão iniciar suas vidas sexuais, não entendem porque não sentem prazer com tudo aquilo que estava na tela.

Violência na produção

Ainda temos que falar do outro lado: como tudo isso foi feito. E aí está um problema enorme também. Não vou falar sobre os vídeos gravados sem consentimento, porque isso é crime.

Vamos falar só da indústria da pornografia mesmo. Na forma tradicional de se fazer, o abuso muitas vezes pode ser parte da produção. Mulheres forçadas no set a passar por violências, sem respeito aos seus corpos e seus desejos pode ser comum. Assim como exploração, pagamentos ruins, más condições de trabalho, etc.  

Consumir esses materiais é também compactuar com isso.

Dá para fazer diferente?

Então ok, a pornografia tradicional é violenta e abusiva, tanto na produção quanto no conteúdo. O melhor então é parar de consumir, certo? Para mim, certo. Mas isso quer dizer parar de consumir todo e qualquer tipo de pornô?

E mais: não sou ingênua a ponto de achar que vai existir um movimento tão grande a ponto de que toda pornografia pare de ser consumida. Esses mais de 90 milhões de pessoas que assistem à pornografia todos os dias não vão cair para zero repentinamente.

Por isso, sou do time que acredita no potencial de uma nova pornografia. Uma que é feita por mulheres e corpos dissidentes. Que respeita as pessoas envolvidas em todas as etapas. Que coloca o prazer feminino em foco. Que lembra que existe muito além da heterossexualidade. Que inclui pessoas com deficiência. Que inclui corpos em todas as formas. Que respeita a mulher. Que abraça diferentes formas de se relacionar e desejar.

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E existe gente fazendo isso. Tentando, tateando e aprendendo a fazer algo novo em uma área que tinha o desrespeito e o abuso como regras.
Se eu tivesse um filho ou filha adolescente, honestamente, conversaria claramente sobre isso, compraria conteúdo dessas produtoras ou diretoras e apresentaria ao rebento: você vai consumir pornô, beleza, mas vai ser algo que te estimule a uma vida sexual saudável.

Com certeza levaria minha filha ao cinema para ver “Filhas do Fogo” (deixaria ela na porta, na verdade, ou só compraria o ingresso, porque, né…), para que ela já pudesse crescer sabendo que tudo bem desejar outra mulher e já construísse em seu imaginário imagens de prazer feminino.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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