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Espiritualidade feminista: de qual Deus estamos falando?

por Júlia de Miranda
3 de agosto de 2020
A necessidade de questionar as religiões patriarcais e descobrir o sagrado dentro de cada uma de nós
religião e feminismo
” Nas sábias palavras de bell, torna-se feminista é também um despertar espiritual”. Arte: Ina Gouveia

Mergulhar na caminhada de autoamor e autoaceitação, como alicerces fundamentais para uma consistente autoestima, me aproximou ainda mais da espiritualidade e das religiões de axé, proveniente da diáspora africana. Aprendi com a professora bell hooks que o feminismo foi e continua sendo um movimento de resistência que valoriza a prática espiritual. Feministas não são antirreligião, porém munidas de pensamento crítico, podemos questionar as diversas opressões que emergem neste solo fértil para o machismo e opressões sexistas contra mulheres. 

Em um mundo onde comumente a dicotomia dita os princípios éticos da sociedade (e nas religiões), a mulher é encaixada em algum desses perfis: o de “Nossa Senhora Aparecida”, a pura mãe virgem, ou “Maria Madalena”, impura, pecaminosa e indigna. Não existe meio termo, uma abertura para ser humana ou o que bem quiser no discurso que inspira as formas como aprendemos sobre os papéis de gêneros nesta sociedade. 

Tais afirmações bíblicas tratam de temas como a punição, a invenção cristã do pecado e a utilização do sentimento de culpa como estratégia de controle dos fiéis, e a associação de atitudes negativas direcionadas à existência feminina. “Ao expor a maneira como o dualismo metafísico ocidental (o pressuposto de que o mundo sempre pode ser compreendido por categorias binárias, que há um inferior e um superior, um bem e um mal) era a fundamentação ideológica de todas as formas de opressão de grupos, sexismo, racismo etc; e que tal pensamento formou a base de sistemas de crenças judaico-cristãs”, reflete bell hooks em seu livro “O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras”.

Diante do histórico da igreja na vida ocidental, que já se impõe com a imagem de um Deus masculino e único salvador, e Jesus (representado erroneamente como homem branco, sabemos que é bem provável que ele tenha sido um homem negro), pergunto como encontrar um espaço onde as mulheres possam estar com Deus (numa visão subjetiva em que cada uma possui a sua própria crença sobre o que é “Deus” ou “energia superior”) sem a intervenção do homem? Servir ao divino sem a dominação patriarcal que visa noções repressoras de sexualidade, a coerção sexual em diferentes formas e o controle do corpo feminino. 

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Adendo importante: não tem como ser feminista e ser contra o aborto. Você pode até não querer fazer, mas condenar mulheres (negras e periféricas são as que mais morrem durante as práticas clandestinas) por questões morais, religiosas e pessoais é altamente desfavorável com as políticas de direitos para mulheres. Religiões como hinduísmo, budismo, umbanda, candomblé e diversas tradições espirituais, permitem o encontro com divindades femininas e uma visão de espiritualidade centrada nas deusas.

No Brasil, como em toda a América Latina é relevante o entendimento da natureza profunda das iabás (orixás femininos) e da Pacha Mama (Mãe Terra), pois por aqui ainda é acentuada a herança colonialista patriarcal e racista. Nosso país, onde de laico nem o pano de prato, há três décadas vive uma transição religiosa que poderá, em 12 anos, destronar o catolicismo como a maior fé nacional entregando o posto para os cada vez mais numerosos evangélicos. As consequências desse avanço podem já ser observadas no poder político com grupos conservadores que culminam ações prejudiciais nos âmbitos educacionais, de saúde e segurança pública contra a população com uma crença considerada não hegemônica. “A religião patriarcal fundamentalista foi e ainda é uma barreira impedindo que o pensamento e a prática feministas se espalhem”, defende bell hooks ao lembrar que o pensamento cristão domina a psique ocidental. 

Louvor à intolerância 

Vivemos há séculos uma negação e o apagamento da contribuição do povo negro e indígena na nossa história, para muitos a escravidão não existiu ou é algo muito distante da atual realidade. O ilusório mito da democracia racial não dá conta de camuflar os impiedosos atos de racismo religioso que acertam diretamente os adeptos das religiões de matriz africana. 

Em 2019, o “Guia de Luta Contra a Intolerância Religiosa e o Racismo” mostrou que o número de denúncias aumentou substancialmente, muito mais do que o dobro da primeira edição em 2009 (71% das queixas de atentados religiosos partiram de adeptos de religiões afro-brasileiras). A cada 15 horas, uma denúncia de discriminação por motivo religioso é registrada. O papo de que “religião e política não se discutem” só alimenta a alienação acerca de sérios assuntos que ditam regras e podem castrar cada vez mais o papel da mulher no mundo. 

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O poder do feminino nas tradições africanas é milenar, essas relações de pertencimento estão envoltas por valores ancestrais e sociais. Lideranças femininas e a força matricomunitária se valem também entre as indígenas e camponesas, sábias conhecedoras da natureza e seus mistérios. O medo da influência e energia feminina até hoje dão continuidade às atrocidades cometidas no período da Inquisição da Igreja Católica: nunca encerrou a caça às bruxas. 

Espiritualidade hegemônica & gurus charlatões

Na caminhada de cura do nosso sagrado feminino, pauta recorrente nos nichos holísticos, devemos perguntar se tais terapias e encontros de temáticas espirituais incluem mulheres de todas as classes, cores, idades, limitações físicas, orientações sexuais e gênero. A mão do capitalismo adora aparecer onde existe a possibilidade de possíveis lucros financeiros, tornando algo tão poderoso, e que merece muito respeito, em mera mercadoria. Podemos acrescentar a este balaio o perigo da narrativa hegemônica e universal que exclui a diversidade e plastifica uma realidade “namastê, gratiluz”  que só existe nos feeds das redes sociais. 

João de Deus, Sri Prem Baba, Osho… é grande a lista de gurus e líderes espirituais que se envolveram em denúncias de abuso da confiança de fiéis. Religião e espiritualidade são diferentes e não precisam estar ligadas. Para quem considera importante em algum momento frequentar um espaço sagrado, é essencial notar se existe manipulação, uma sombra que pode prejudicar o campo religioso e espiritual: triste ver o mau-caratismo de supostos líderes que se aproveitam conscientemente da vulnerabilidade de pessoas que passam por períodos de fraqueza emocional. Usam da instituição “Deus” para práticas criminosas com os que caem em sua lábia.

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De qual Deus estamos falando? Um Deus bélico que induz a preconceitos, dependências, conservadorismo e a não abertura para o diferente e novo? O que nos faz sentido? O caminho espiritual não se apresenta como uma receita única de bolo. É extremamente pessoal, é um encontro com a sua essência e verdade. É se desfazer das amarras psicológicas e sociais que nos limitam.

 Nas sábias palavras de bell, torna-se feminista é também um despertar espiritual.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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