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13 de julho de 2020

Qual preço pagamos para bancar a mulher que escolhemos ser?

O ano de 2020 está sendo palco para profundos questionamentos relacionados à profissão, parceiros (as), estudos e novas possibilidades de viver o que faz real sentido
Ilustração de Ina Gouveia

Certa vez recebi da minha terapeuta um lembrete que dizia: “a mulher que você está se tornando vai te custar pessoas, relacionamentos, espaços, coisas materiais. Mas escolha ela ao invés disso tudo”. Qual preço pagamos para bancar a mulher que escolhemos ser? 

Isso me lembrou uma parte do belíssimo discurso que Nelson Mandela proferiu na posse na presidência da África do Sul, que durante anos viveu sob o regime obscuro do apartheid, em que ele falou sobre medo: “Nosso medo mais profundo é que somos poderosos além de qualquer medida. É a nossa luz, não as nossas trevas, o que mais nos apavora”. E esse medo precisa ser vencido. Como? São muitas as subjetividades e reflexões. 

Seguir um caminho autêntico pede muita coragem e fé em si mesma para acreditar que merecemos o melhor. Respeito, dignidade, direitos e vínculos afetivos saudáveis, conosco e com o próximo. Não sei para vocês, mas o ano de 2020 está sendo palco para profundos questionamentos relacionados à profissão, parceiros (as), estudos e novas possibilidades de viver o que faz real sentido. Sabem aquele papo de romper com tudo que nos desequilibra? É isso. 

Ter orgulho de si mesma é resultado de uma construção que pode envolver muito trabalho, doses de solitude e um mergulho interior intenso na busca de quem realmente somos para ocupar o posto de protagonista da própria narrativa. Aceitar que nossas individualidades muitas vezes fogem da normalidade imposta pelos padrões sociais estabelecidos, é como acender um refletor de LED no nosso caminho.

A escritora Audre Lorde dizia que “se eu mesma não me definir, eu seria esmagada nas fantasias de outras pessoas e comida viva”. Importante refletir que para que algo seja tido como anormal, um conceito de “normalidade” necessita existir: nos processos de socialização do indivíduo a família, escola, igreja, trabalho, influenciam e moldam o modus operandi e vivendi de cada um de nós. 

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Imprescindível notar que a normalidade arcaica e ensandecida que habita há tempos nossa sociedade oprime, desvaloriza, exclui e violenta qualquer tentativa de amotinamento contra o tradicional padrão.

Tão em voga a pauta sobre o “novo normal” e como devemos proceder após a pandemia, me faz pensar numa possível mudança nas grades escolares brasileiras; ainda no ensino infantil adicionar disciplinas como saúde mental e educação emocional, do básico às conjunturas mais complexas. Entender como a gente funciona por dentro ajuda a erguer pilares sólidos e importantes nas nossas plurais construções. 

Nem sempre é dentro de casa que aprendemos sobre o valor do amor-próprio. Em outros espaços tampouco. Nos tornamos adultos com dificuldades de lidar com as emoções, resistentes aos novos caminhos que se apresentam além das narrativas hegemônicas que ditam o que é certo e errado. 

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Mais comum do que se imagina, a dependência emocional numa relação afetiva sexual (ou familiar ou de amizade) aprisiona a possibilidade de explorar nossas diversas potências, de caminhar com as próprias “pernas”, de não transformar o outro em muleta.

Se o normal é atacar o que soa diferente e estar fechado para romper (e trabalhar) os padrões internos destrutivos, ser anormal é elogio. Podemos carregar algumas feridas da infância e adolescência que podem ter origem justamente no lugar onde poderíamos acessar o amor. 

O amor como prática de liberdade 

bell hooks nos lembra a necessidade de reconhecer que sempre fomos ensinados a reprimir emoções e engolir o choro. Criar uma nova consciência com possibilidades de segurança para expor sentimentos, fragilidades, diferenças e afetos é desafiador, corajoso e (ainda lido como) anormal. Ainda na sabedoria de hooks, “a arte e a prática de amar começam com nossa capacidade de conhecer e nos afirmar”. Autoconhecimento é cura.

Analisar a caminhada envolve olhar para trás, mas com a energia no presente. O que me tornei? O que faço hoje com as experiências adquiridas? Quais são os melhores caminhos para o agora?

Aprender e crescer com as nossas e outras existências. bell hooks ensina que  sem amor, nossos esforços para libertar a nós mesmas e nossa comunidade mundial da opressão e exploração estão condenados. 

“Enquanto nos recusarmos a abordar plenamente o lugar do amor nas lutas por libertação, não seremos capazes de criar uma cultura de conversão na qual haja um coletivo afastando-se de uma ética de dominação”, diz. 

O amor é um ato revolucionário, é político. Que nunca nos falte essa energia vital para ser quem a gente é e para amar quem a gente quiser.

Confira todas as colunas de Júlia de Miranda

Feminista decolonial, jornalista e ativista, Júlia sabe a importância de se afirmar como uma mulher negra. Consciência política também é se apropriar da própria narrativa, acolhendo ancestralidade e se abrindo para várias possibilidades, individuais e coletivas, no contexto de negritude. Seguidora leal dos ensinamentos de bell hooks e Lélia Gonzalez, a paulistana acredita que o mundo pode ser um lugar mais aprazível quando estamos munidas de amor-próprio, senso crítico, música e vontade diária de caminhar na contramão do pensamento patriarcal e capitalista.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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