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Monogamia: será que ela existe só para as mulheres?

por Júlia de Miranda
7 de abril de 2020
A quarentena pode ser uma boa hora para refletir sobre questões de gênero e raça nos nossos relacionamentos afetivos

Dia desses li no título de uma reportagem “Coronavírus: após confinamento, cidade na China registra recorde em pedidos de divórcio”. Em tempos de isolamento social por conta da pandemia, encarar o outro por tanto tempo pode ser desafiador. Divórcio, fim de namoro e pessoas solteiras buscando novas formas de se relacionar. A quarentena pode ser uma boa hora para refletir sobre questões de gênero e raça nos nossos envolvimentos afetivos. 

Assim que li a reportagem, me recordei de uma fala da socióloga norte-americana Patricia Hill Collins durante sua palestra no Brasil em 2019 e que muito me inquietou: ela observou como a monogamia é algo exclusivo para mulheres. E sugeriu uma reflexão crítica sobre como esse comportamento nunca foi ensinado ou imposto aos homens.

Para além do papo biológico da diferença entre homens e mulheres, homens são educados socialmente para irem pra fora (até falicamente), serem livres, aventureiros e conquistadores. Mulher não, a nós é destinada outra vivência, castrativa e silenciosa.

Já ouviram aquele papo de que o amor do homem é homoafetivo? Neste aspecto percebemos que o homem só é heterossexual no momento do sexo, mas sua verdadeira admiração, orgulho, lealdade e amor sempre se volta para a relação com outros homens. Tudo que eles levam realmente a sério está numa relação com outro homem e isso acaba impactando a não-monogamia deles (tem quem negue, mas proponho o olhar sincero e crítico).

Uma traição dentro de um relacionamento afetivo-sexual monogâmico por parte de homens é socialmente aceitável. Mulher é a puta, biscate, safada e indigna de confiança. “Passar pano” para mulher nessa situação jamais.

A teórica feminista bell hooks observa que o foco feminista no prazer sexual proporcionou às mulheres a linguagem necessária para criticar e desafiar o comportamento sexual masculino. Em seu livro “O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras”, publicado nos anos 2000, hooks dedica um capítulo inteiro para a temática relacionamento: “Casamento e companheirismo libertadores”.

Leia mais: A raiva das mulheres negras, a energia que move nosso ativismo

“Dentro do patriarcado, várias mulheres feministas individuais descobriram que relacionamentos monogâmicos simplesmente davam aos homens mais poder, enquanto enfraqueciam as mulheres. Enquanto mulheres têm liberdade de escolher fazer sexo com homens que têm relacionamentos com outras mulheres, os homens com frequência não demonstram interesse sexual por mulheres que têm parceiro. Ou constantemente concedem poder ao homem com o qual a mulher tem relação, até mesmo indo ao ponto de buscar aprovação para o envolvimento deles. Apesar das dificuldades, o fato de mulheres terem liberdade para serem não monógamas, independentemente de usarmos a liberdade ou não, continua a romper e a desafiar a noção de que o corpo feminino pertence ao homem”, escreve hooks.

Para ela, a crítica feminista das noções sexistas do prazer sexual gerou mudanças positivas e condições para que mulheres e homens possam ter relacionamentos sexuais mais satisfatórios.

Dentre todos os acordos que fazemos quando topamos estar numa relação estável com exclusividade, até onde vão nossos questionamentos e a sincera (auto) responsabilidade afetiva? Até qual ponto estamos realmente abertos para trabalhar crenças e medos pessoais, sem que isso seja projetado numa outra pessoa?

Já que monogamia é algo estabelecido para mulheres, é possível ir na contramão desse pensamento com total saúde mental e espontaneidade? A forma como a entendemos, na minha ótica, é retrógrada, machista e precisa ser ressignificada com urgência.

Quantos gatilhos podem surgir, sacando o quão controlador, opressivo e dominador é esse conjunto de crenças e hábitos da nossa sociedade que jogam mulheres para um lugar de inferioridade, rivalidade (um clássico entre mulheres), baixa autoestima, medo e solidão? O tal do “prefiro estar com alguém do que ficar sozinha”.

A solidão da mulher negra

E por falar em solidão, o “abrir o relacionamento” é algo que mulheres negras ouvem com frequência. Mistura aí racismo + machismo e “bora abrir esse relacionamento, gata?”. Só que muitas mulheres negras (quanto mais retinta maior a chance de ser preterida), nunca tiveram a possibilidade de viver a experiência de um relacionamento afetivo sexual saudável e digno.

No “Pequeno Manual Antirracista”, a filósofa Djamila Ribeiro alerta que se a pessoa só procura pessoas negras para relações casuais, e não para um compromisso duradouro, a relação é pautada pelo racismo. Dados do Censo de 2010 mostram que as mulheres negras são as que menos se casam e, entre as com mais de 50 anos, elas são maioria na categoria “celibato definitivo”, que nunca viveram com um cônjuge.

Leia mais: O que acontece com um casamento quando a mulher decide viver seus desejos?

O que te faz sentido? Qual a decisão que você toma que não desqualifica ou rebaixa o outro? Você joga luz e toma caminhos com consciência? O que é prioridade dentro de um relacionamento para você? Como se conectar genuinamente com o próximo? Como trabalhar vulnerabilidade e inseguranças? São todas questões tanto para relacionamento heterossexuais quanto entre LGBTQIA+.

Fazer a sua sexualidade girar pelo mundo, de forma honesta com si própria, possibilita curas, manifestações da criatividade e o sentir bem no contato com sua real essência. Há possibilidades além da monogamia ou qualquer outra estrutura que nos apresentaram como único caminho.

Acho que para sermos realmente livres precisamos de um bom shake de autoconhecimento + autoamor + estar só + desapego e o que mais intuir para tratar a dependência da validação do parceiro(a) e nos aceitarmos como somos: livres e amorosas.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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