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A raiva das mulheres negras: a energia que move nosso ativismo

por Júlia de Miranda
23 de março de 2020
A declaração de que no Brasil não temos um Spike Lee escancara o racismo estrutural; que nunca nos falte raiva para jamais normalizar o que diminui nossa existência

Mulheres negras carregam feridas coloniais seculares, que vão desde a preterição diante da figura feminina branca com características européias, passando pela dúvida da capacidade intelectual e profissional, o estereótipo de fogosa, boa de cama e a da pessoa barraqueira e agressiva. 

O olhar excludente pode vir muitas vezes no modo automático de pessoas que não se identificam na posição de racistas, mas que também não questionam suas práticas. Afinal, como a maravilhosa provocação, necessária em nosso país aponta: “Você é racista? Não. Acha que o Brasil é um país racista? Sim”. Então, tem algo errado aí: se quase ninguém se declara preconceituoso, como vivemos num território segregacionista?

Bom, os acontecimentos das últimas semanas, com declarações de que “não existe um Spike Lee brasileiro”, fizeram borbulhar o sentimento de raiva que comumente é associado às atitudes de pessoas negras. Para quem não acompanhou a polêmica: a roteirista Antonia Pellegrino, autora de série sobre a vereadora assassinada Marielle Franco, disse a infeliz frase ao justificar a escolha de José Padilha como diretor da série e a ausência de pessoas negras no time, incluindo nos cargos altos da produção. 

O episódio explicita o racismo estrutural, um conceito cuja aplicação resulta em responsabilidade e não pode ser usado como desculpa para ser irresponsável, como bem explicou o professor Silvio Almeida. Diante do racismo estrutural e outras opressões enfrentadas na caminhada, que nunca nos falte raiva para jamais normalizar qualquer atitude que diminua nossa existência. 

Leia mais: Artistas negras assumem as rédeas de suas próprias narrativas

Quando discutimos questões de raça e gênero, fator fundamental no feminismo interseccional, evidenciamos os preconceitos por ser mulher e também de fazer parte da população negra. No meio audiovisual, como é o caso, existem sim muitas mulheres e homens negros talentosos, que produzem bastante, porém, estão dentro de uma estrutura de que se você é uma pessoa não branca, precisa se esforçar mais para fazer acontecer.

Seria de bom tom da parte do feminismo branco dar oportunidade para pessoas negras assumirem posições que o racismo por muitas vezes inviabiliza. “Uma vez que as primeiras pessoas no planeta Terra não eram brancas, é improvável que as brancas tenham sido as primeiras mulheres a se rebelarem contra a dominação masculina”, escreveu bell hooks em “O feminismo é para todo mundo”. 

bell observa que mulheres brancas com privilégios de classe rapidamente se declaram “proprietárias” do movimento, colocando as mulheres brancas de classe trabalhadora, as brancas pobres e todas as mulheres não brancas na posição de seguidoras. 

Leia mais: O feminismo é para todo mundo, ainda bem!

Sentimos raiva? Sim. “Toda mulher tem um arsenal bem guardado de raiva potencialmente útil contra aquelas opressões, pessoal e institucional, que fez com que aquela raiva existisse”, disse Audre Lorde, avassaladora escritora caribenha-americana, mulher negra e lésbica. Em 1981 ela realizou a apresentação principal na conferência da Associação Nacional de Estudos de Mulheres, nos Estados Unidos, e sua brilhante apresentação recebeu o nome de “Os usos da raiva: Mulheres respondendo ao racismo” (para quem quiser saber mais, fica a dica o livro Sister Outsider: Essays and Speeches by Audre Lorde). 

Muitos consideram que o racismo é problema nosso, das mulheres negras, e somente nós podemos discutir isso, só que não. É justamente o contrário, é algo criado pelos brancos e eles sim precisam urgentemente se atentar. Não é um cabo de guerra ou a terceirização de um problema, todos podemos olhar com profundidade para questão. Haja vigor! 

Repararam como a fragilidade branca emerge rápido nesta conjuntura? Os brancos, em sua maioria, sempre pedem “muita calma e tato” para lidar com o assunto diante da ameaça negra que pode fazer com que a vida deles, e claro, os inúmeros privilégios, mudem.

Grada Kilomba, artista interdisciplinar e escritora, fala muito bem sobre isso. Ela defende que a branquitude possui uma codepêndencia, a ambivalência dentro de si. “Eu não preciso da branquitude, mas ela precisa de mim para ser branca. A tarefa mais exaustiva é limpar-me dos resíduos que são projetados sobre mim, mas que não sou eu” comenta a teórica. 

Raiva é cheia de informação e energia

“Qualquer discussão entre mulheres sobre racismo deve incluir o reconhecimento e o uso da nossa raiva. Esta discussão deve ser direcionada e criativa porque é crucial. Não podemos permitir que o nosso medo da raiva nos deflete ou nos seduza a nada menos que o trabalho duro de escavar honestidade; nós temos que ser bem sérias sobre o ódio deles e por nós e sobre o que estamos tentamos fazer aqui”, descreve Audre.

Numa sociedade machista que dita como mulheres devem se comportar, de preferência com docilidade e submissão, qualquer questionamento nosso soa como afronta, se vier de uma mulher negra é também um exagero.

Raiva dignifica nossa humanidade, somos livres para sentir tudo e fazemos dela ferramenta política, e combustível, na luta por significativas mudanças. Levando a sério os aprendizados de Lorde, podemos compreender raiva como uma reação apropriada para atitudes racistas, como é a fúria quando as ações que surgem daquelas atitudes não se alteram. 

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A angústia da mulher negra é reconhecida e aceita entre as nossas que não irão se calar diante da violência que insiste em nos elencar como alvo. Nós, nossas irmãs, companheiras e filhas (os) vamos (re)existir, custe o que custar. Entre pausas para o merecido descanso, físico e mental, a raiva não se apaga, ela continua como fogo brando, igual na canção-hino Carta de Amor de Maria Bethânia: “que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta”.

Educação antirracista dentro de casa e nas escolas e universidades é essencial na construção das novas alianças que estamos dispostas a fechar. Aliados são sempre bem-vindos ao time.

Não é a raiva de outras mulheres que vai nos destruir, acredita Lorde, mas a recusa a ficar calada. Escutar o ritmo, aprender dentro dele a se mover para além da forma de apresentação do conteúdo é uma alternativa para que a raiva seja uma importante força de empoderamento.

Façam um quadro e emoldurem na sala: “Eu não sou livre enquanto outras mulheres são prisioneiras, mesmo quando as amarras delas são diferentes das minhas”.

Viva Audre Lorde!

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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