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28 de dezembro de 2020

Sobrevivemos a 2020: radicalmente vivas e navegando em mar aberto

Como esse ano tão marcante te atravessou? Apesar das aflições (e das notícias pouco animadoras), temos um bocado de coisas para agradecer. Estamos vivas, respiramos e dentro do possível podemos crer que o amanhã será melhor, e ele vai
 “Quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz”, Valter Hugo Mãe. Foto: Arquivo Pessoal

O ano de 2020 indubitavelmente não foi um ano fácil. Quem chegou até aqui com o mínimo possível de saúde mental no estoque não é apenas resiliente: sobreviveu ao mar agitado de incertezas, medos, perdas, dor, solidão, confinamento, autodesenvolvimento, paranóias, restrições de convivência social, solidariedade, apatia, cura, vida e morte. 

Em alto-mar quando o tempo fecha sem a garantia de quando vislumbraremos um horizonte estável e de céu azul ensolarado, acredito que as marinheiras experientes silenciam a mente, observam os sinais do ambiente, traçam novos planos confiantes em suas vivências, checam se está tudo seguro na embarcação e seguem adiante no melhor estilo Racionais MC`s: “nada como um dia após o outro dia”. Afinal, quando surgir algum desafio, tentaremos resolver da melhor maneira. Por ora, sem precipitações marujas, o foco está no presente. 

Acontece que não somos marinheiras habilitadas quando o assunto é um novo vírus invisível e mortal que se alastrou numa velocidade frenética por todo o mundo. Após um intenso momento de euforia carnavalesca (para quem é foliona como eu), fomos avisadas, ou melhor, intimadas a nos resguardar por semanas, que se tornaram meses, dentro de casa. Nessas horas foi preciso cautela, respirar fundo e domar a ansiedade para não se apressar e pular do barco. 

“O que fazer quando a fortaleza tremeu e quase tudo ao seu redor se corrompeu?” (Racionais, novamente), essa fita que nos abalou estava mais para uma violenta ressaca marítima que inesperadamente nos arrastou para o encontro com as nossas angústias mais profundas e verbalizou a oportunidade para um salto de consciência: estão preparadas para se desvencilhar das anestesias cotidianas e ouvir os ecos dos próprios vazios interiores? 

Quem eu sou? O que me falta? É assim que quero viver? Em qual direção caminha o meu desejo? Quem é essa pessoa que chamo de companheiro (a)? Estamos construindo algo que eu genuinamente acredito, caminhamos para a mesma direção? O que fazer com os filhos? O que estou dando conta atualmente? Quais as minhas expectativas para o futuro? Para onde seguir? Quem vem comigo? O que se encerra e o que se inicia na caminhada? Quais as questões internas que posso jogar luz? Tenho autorresponsabilidade? Continuar fugindo ou acolher comportamentos disfuncionais e de autossabotagem? 

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São tempos de altos e baixos, subjetivos e coletivos, nada muito homogêneo, pois o saldo de 2020 varia conforme as condições materiais e psíquicas de cada um. Entender que o sofrimento também faz parte da vida e que o mar agitado pode fazer boas marinheiras (caso essas topem a imersão), nos auxilia em diversos entendimentos da nossa trajetória e principalmente abarca o que vamos fazer com as diversas “fichas” que caíram. Acredito no potencial de tecer nossa jornada de uma forma menos alienada e mais corajosa e sensível, saindo da zona de conforto rumo ao trabalhoso ato de refletir e conectar com a vulnerabilidade. Mano Brown nos alerta nos versos “Sozinho eu sou agora o meu inimigo íntimo (…) eu penso mil fitas e vou enlouquecer”, acontece. Respiramos, choramos (e quem conseguir chorar que faça em boa quantidade, lágrimas limpam as emoções e aliviam a tensão), surtamos e voltamos para o nosso centro. 

Sabedoria indígena

Ler Ailton Krenak durante o modo pandêmico foi/é valioso e inquietante, o pensador e líder indígena aponta para uma espécie de erosão da vida, “A vida é fruição, é uma dança, só que é uma dança cósmica, e a gente quer reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária. Uma biografia: alguém nasceu, fez isso, fez aquilo, cresceu, fundou uma cidade, inventou o fordismo, fez a revolução, fez um foguete, foi para o espaço; tudo isso é uma historinha ridícula. Por que insistimos em transformar a vida em uma coisa útil? Nós temos que ter coragem de ser radicalmente vivos, e não ficar barganhando a sobrevivência. Se continuarmos comendo o planeta, vamos todos sobreviver por só mais um dia”. Reflexões pertinentes no livro A vida não é útil e acrescenta que os povos originários ainda estão presentes neste mundo não porque foram excluídos, mas porque escaparam. 

“Em várias regiões do planeta, resistiram com toda força e coragem para não serem completamente engolfados por esse mundo utilitário. Os povos nativos resistem a essa investida do branco porque sabem que ele está enganado, e, na maioria das vezes, são tratados como loucos. Escapar dessa captura, experimentar uma existência que não se rendeu ao sentido utilitário da vida, cria um lugar de silêncio interior. Nas regiões que sofreram uma forte interferência utilitária da vida, essa experiência de silêncio foi prejudicada”. 

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Como nosso dia a dia contemporâneo triplicou para muitas mulheres as demandas emocionais/profissionais e virtualizou encontros, reuniões, aulas, shows e incontáveis lives sobre todo o tipo de assunto, o desejo para esse finalzinho de 2020 é por um período de quietude de preferência perto da natureza. Krenak percebe que o Covid-19 não atinge rios, animais, plantas e florestas, é algo direcionado para seres humanos, um aviso da generosa mãe natureza para que a gente diminua o nosso uso de recursos naturais e também o consumo desenfreado que impacta negativamente o planeta. “Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza (…) Estamos colados no corpo da Terra, quando alguém a fura, machuca ou arranha, desorganiza o nosso mundo”. 

Ritual de Ano Novo e o feminismo visionário

Todo final de ano bate a sensação de esperança, como se algo novo pudesse vingar com mais impulso e que dessa vez “o jogo vai ser diferente, esse vai ser o meu ano”. Os cortes são fundamentais para organizar a nossa existência, demarcam um antes e depois na passagem do tempo e tal comoção em zerar o calendário e desbravar algo inédito nos estimula a sonhar e caminhar. Mesmo sendo uma ferramenta simbólica e imaginária, o rito de passagem, na melhor das hipóteses, nos apoia a desenhar um caminho de força para seguir. 

Você tem todo o direito de desejar que 2020 acabe logo, passamos por uma tormenta política macabra que não deixa o brasileiro ter um dia de paz nesse país mal administrado onde o que deveria ser direito de todos se converte para o privilégio de poucos. A pandemia escancarou a desigualdade social e só não enxerga quem não quer ver que o acesso à saúde pública, comida, educação, trabalho e lazer é direito inalienável. 

O que 2020 fez com você, de qual maneira você foi mexida? Nas retrospectivas anuais se colocarmos na balança os acontecimentos, ressignificando alguns eventos na medida em que conseguimos lidar com o luto, seja de uma pessoa querida que tenha falecido ou uma separação dolorida, a perda de um emprego, o afastamento de amigos e respostas negativas de cursos e projetos que não vingaram neste ano, apesar das aflições (e das notícias pouco animadoras), temos um bocado de coisas para agradecer. Estamos vivas, respiramos e dentro do possível podemos crer que o amanhã será melhor, e ele vai. 

Mesmo que o nosso barco tenha virado e depois retornado à posição um pouco danificado, faltando alguma peça, trincado e com o motor um pouco mais lento, temos a capacidade de recuperá-lo (não precisamos fazer isso sozinhas, podemos pedir ajuda para não carregar fardos demasiadamente pesados) e retomar a viagem em águas abertas e desconhecidas. E toda vez que o mar revolto se manifestar, mesmo com o frio na barriga de não saber exatamente o que vai acontecer, podemos confiar nos ciclos da natureza e na energia feminina de Iemanjá (Mãe dos filhos peixes), a rainha do mar. 

Recentemente, mexendo em fotografias antigas, encontrei essa que ilustra a coluna, uma mini Júlia de 2 anos e meio entregue e de braços abertos para um gigante mar. Me perguntei em qual fase da vida nós nos amedrontamos diante das ondas e esquecemos a espontaneidade e bravura infantil. Na foto eu não estava sozinha, tinha adultos por perto e a proteção da boia de braço. Envelhecemos e junto, me parece, cresce um medo enraizado feito erva daninha que por vezes nos impede de SER e IR. Sentir o medo é extremamente humano e saudável, entretanto quando ele nos paralisa a ponto de desistir do que intuímos ser uma boa escolha, é preciso investigar a fundo as causas dessa atitude. Valter Hugo Mãe em seu livro O Filho de Mil Homens escreveu: quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz. 

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Se depois de todo esse movimento em alto-mar adquirimos bons aprendizados, quando volto o olhar para a minha fotografia sinto que não estou mais tão distante do espírito aventureiro dessa garotinha, mantemos a mesma essência. Hoje, assumindo o posto de capitãs náuticas de nossas vidas e navegando por locais inexplorados, substituo a proteção da boia e dos adultos pelo abastecido amor interior, a aptidão em cuidar de mim mesma, os ensinamentos feministas imprescindíveis como mola propulsora, o pensamento crítico capaz de questionar o que não ressoa com as minhas práticas, boas amizades (a família que podemos estabelecer), coragem, confiança e a proteção da espiritualidade. 

Iniciei o ano como colunista no time AzMina com bell hooks, fecho dezembro citando a teórica, com um trecho do capítulo “Feminismo Visionário” do livro O feminismo é para todo mundo – Políticas arrebatadoras: “Para assegurar a relevância contínua do movimento feminista em nossa vida, a teoria feminista visionária deve ser constantemente elaborada e reelaborada, de maneira que se relacione a nós, onde vivemos, em nosso presente. Mulheres e homens já deram grandes passos na direção da igualdade de gênero. E esses passos em direção à liberdade devem nos dar força para seguir mais adiante. Devemos ter coragem para aprender com o passado e trabalhar por um futuro em que princípios feministas serão o suporte para todos os aspectos de nossa vida pública e privada. As políticas feministas têm por objetivo acabar com a dominação e nos libertar para que sejamos quem somos – para viver a vida em um lugar onde amamos a justiça, onde podemos viver em paz. O feminismo é para todo mundo”. 

Com tantas transformações efetivas e outras em curso, digo que simpatizei com 2020. Peço na mesma Oração ao Tempo de Caetano que esse “compositor de destinos” faça um bom acordo com o que estiver por vir. 

Desejo a todes um Ano Novo realmente novo e real. Até 2021!

Feminista decolonial, jornalista e ativista, Júlia sabe a importância de se afirmar como uma mulher negra. Consciência política também é se apropriar da própria narrativa, acolhendo ancestralidade e se abrindo para várias possibilidades, individuais e coletivas, no contexto de negritude. Seguidora leal dos ensinamentos de bell hooks e Lélia Gonzalez, a paulistana acredita que o mundo pode ser um lugar mais aprazível quando estamos munidas de amor-próprio, senso crítico, música e vontade diária de caminhar na contramão do pensamento patriarcal e capitalista.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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