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23 de setembro de 2020

Professor universitário não é intelectual: superioridade acadêmica e a saúde mental dos alunos

Professores de verdade nunca estão acima dos alunos, podem ter sim conhecimentos a mais e específicos, mas caminham ao lado dos estudantes
professor universitário não é intelectual
“Por que não aparece no Lattes os B.O dos anti-professores que coagem, humilham, oprimem, violentam e assediam moral e até sexualmente seus subalternos?”. Arte: Ina Gouveia

Ou o trabalho do professor não é necessariamente o trabalho do intelectual. “São duas coisas que se separam, os intelectuais nas universidades estão em números menores”, quem assina tal afirmação é o grande intelectual Milton Santos que continua o argumento dizendo que o intelectual se caracteriza pela sua força crítica. “O intelectual vive uma solidão, então pouco se preocupa com quem acompanha o seu ponto de vista, ou se tem apoio ou não. Um intelectual defende ideias e com a coragem. Existe para criar o desconforto, é forte o bastante para continuar exercendo esse papel”, relatou durante entrevista no programa Roda Viva em 1997.

Milton também foi professor da USP e o que pretendo com essa provocação “professor universitário não é intelectual” é jogar para o centro do debate reflexões como a de que um professor universitário, munido de seus diplomas, títulos, publicações, aprovação em editais, bolsas e popularidade na comunidade acadêmica, não necessariamente será um intelectual, aliás, poucos ali dentro realmente são. O que ocorre com notória frequência no âmbito discente, e também no corpo docente, é uma elevação da figura do professor (e o simbolismo contido nela em especial se for um homem branco) a um pedestal intocável que o distancia do posto de verdadeiro educador e da pessoa humana. É uma armadilha colonial com a qual precisamos tomar cuidado.

Já pararam para indagar o que é ser um professor? Nem toda pessoa que atua como professor é um. Além da formação necessária para a atuação nos espaços educacionais, um plus faz a diferença, o tal da “vocação para” ou um sentimento nato que pode ser lapidado no decorrer dos anos com muito autoamor, carinho pelo trabalho, humildade e dedicação.

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Professores de verdade nunca estão acima dos alunos, podem ter sim conhecimentos a mais e específicos, mas caminham ao lado dos estudantes. Caso conheçam algum professor que diz saber bastante ou ignore processos contínuos de aprendizado pois “manja de tudo”, saibam que é mentira. É saudável que um professor esteja sempre se renovando nos conteúdos e aprendendo a todo o momento com os alunos, pois se hoje o camarada é professor, passou pela cadeira do aprendiz um dia (e nunca vai sair, caso opte por essa caminhada). É uma troca infinita onde quem ensina também aprende. Todos nós carregamos algum conhecimento para ser transmitido e não precisa estar somente dentro da universidade para assimilar questões sérias e importantes para a vida.

Relevante valorizar e defender a educação em todos os níveis, o ensino superior e as universidades públicas, tendo em vista o atual desgoverno medíocre que faz pouco caso (cortes financeiros, difamações, etc.) e se abstém das responsabilidades na área. Entretanto, questionar os padrões comportamentais e epistêmicos em voga dentro desse ambiente adoecido, cheio de falhas sistêmicas, bélico, elitista, competitivo, violento, racista, opressivo, machista, homofóbico, castrador e que deixa sérias sequelas iniciadas na graduação, é urgente.

Percebemos uma comunidade estudantil ferida e que, caso não tenha senso crítico, um bom assessoramento, coragem e uma mínima autoestima, desce ladeira abaixo no quesito saúde mental e física no mestrado e doutorado.

Comumente, convivemos dentro das universidades com uma ementa de curso e um corpo docente majoritariamente branco por 4, 5, 6 anos de nossa vivência, uma realidade extremamente violenta. Mas que talvez seja uma experiência positiva ali dentro para alguns por ser completamente proporcional a quantidade de privilégios de raça, gênero e classe que cada um possui. Bom lembrar que nós negros compomos 53,6% da população do país, mas dentro das universidades somente 16,4% dos professores de ensino superior são negros

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Ter um olhar e práticas críticas em relação ao ethos acadêmico passa por observar, e se possível resignificar, com abertura para o diálogo, a atuação desses mestres. Profissionais esses que muitas vezes fazem a carreira dentro de uma redoma, fechados e protegidos pelos muros da universidade; isso é tão alienante quanto a noção de que o conhecimento em algum momento se esgota e você não tem mais o que aprender na escola da vida. Muitos professores se sentem mais seguros em ambientes de medo (pois também devem ser pessoas machucadas e com latentes fragilidades) e não dão conta de cultivar o prazer em aprender/ensinar ou, como diz Paulo Freire, impossibilitam a criação de um ambiente no qual o conhecimento possa ser produzido.

Não posso deixar de mencionar que existem milhares de professores espalhados por esse Brasil que nunca tiveram a possibilidade e o direito de ocupar um espaço universitário. Ser um professor de verdade, não necessariamente implica ter cursos e diplomas.

Não somos somente o que está no Currículo Lattes

Quando assistimos palestras ou temos aula com uma pessoa que escolheu ter carreira acadêmica, recebemos a sua mini biografia apresentada nos materiais de divulgação, espaço que costuma tomar 1 ou 2 parágrafos repletos de titulações, especializações e por vez até prêmios na área (e tem quem valorize um cartão de visita bem recheado). Num episódio recente no contexto acadêmico, refleti que se caso tirássemos toda essa longa lista que alguns professores e pesquisadores exibem numa fácil busca no Currículo Lattes, o que restaria dizer sobre esses indivíduos? 

Reflexão pertinente, pois mesmo sabendo que a plataforma Lattes existe para determinada função e que não é necessariamente um problema colecionar experiências de destaque ou vivências importantes no campo de formação profissional, algo ali pode causar engessamento pessoal se não estivermos atentos. Como assim? 

Quando talvez dotado de uma baixa autoestima, sentimento comum nos ambientes acadêmicos, você se agarra a seus títulos, certificados e diplomas como uma tábua de salvação para significar a sua existência, acreditando somente no que está documentado no Lattes para se definir e que sem isso você praticamente inexiste. É um assunto muito sério, já conheci gente que não consegue se descrever sem citar todas as especializações. Essa inflexibilidade pode ser consequência da falta de autoconhecimento, uma postura de autonegligência adotada em longo prazo por quem acha, às vezes iludido ou com algumas dificuldades práticas, que não existe vida realmente atrativa além dos muros da universidade e sua suposta intelectualidade, ou, pseudo intelectualidade.

Obviamente que isso não é via de regra e que nem todes professores, pesquisadores e alunos experienciam a jornada dessa forma. Mas é narrativa recorrente sim (sugiro a leitura do texto “Precisamos falar sobre a vaidade na vida acadêmica”) que muitos sujeitos consideram/almejam encontrar justo nesse espaço, que entre os aspectos positivos também possui um lado adoecido de pressões múltiplas (ali nem tudo são flores), algo próximo a uma falsa (caso não seja aprofundado de verdade) autoconfiança e amor próprio. Considero extremamente problemático querer construir uma boa relação consigo mesmo externalizando o processo, como se diplomas, títulos e fama acadêmica fossem salvadores de uma estrutura que não se sustenta em pé sozinha por muito tempo. Nesse cenário, o jogo de egos mostra as caras facilmente nas relações entre colegas de departamento, orientador versus aluno e coordenação versus professores. Um campo para muitos acontecimentos, inclusive da identificação “dominado com o dominador”, como bem analisou Frantz Fanon em seus trabalhos.

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Estejam atentos com o lado sombra bem trevoso e que esgota muita gente. Como está sua saúde mental? O que você busca ali dentro? Quanto de importância você está dando para o status do Currículo Lattes perfeito (perfeição não existe)? Acredita no mito da genialidade? Coloca doutores no pedestal? Compara seu projeto com outros? Com o que você se identifica? Cuidado. Ninguém precisa estar totalmente pronto ou ser iluminado para ocupar o espaço, porém a vida não ensina só ali dentro. Considere saber quem é você antes de qualquer titulação. Esteja aberto para as transformações que podem ocorrer, elas vão adicionar importantes bagagens não apenas no Lattes, também na evolução como ser humano.

Outra questão: por que não aparece no Lattes os B.O dos anti-professores que coagem, humilham, oprimem, violentam psicologicamente e assediam moral e até sexualmente seus subalternos? Fica aqui a singela sugestão, antes de aparecer o nome das universidades européias que muitos cursaram, que tal anexar as denúncias conhecidas nos corredores da universidade? 

Quando faço todas essas críticas, não esqueço que o Brasil é agudamente desigual e atravessado por problemas estruturais que impedem o acesso digno a comida, saúde e educação pública de qualidade, lazer, segurança, trabalho, etc. para toda a população, sabemos que minorias são perversamente prejudicadas. Muitas famílias passam gerações sem que nenhuma pessoa consiga ter um diploma no ensino superior. É uma conquista representativa e especial ter um filho, neto ou algum ente querido graduado, mestre e doutor, orgulho genuíno.

Um título pode vir como resultado (muito trabalho e dedicação) de algo que não destrua sua subjetividade e nem cause dolorosas seqüelas/traumas que possivelmente vão demorar anos para curar. Não quero desmotivar ninguém a entrar na universidade, mas estimular pensamentos críticos e conscientes de que muito precisa ser transformado e que podemos sim ser voz ativa dessas transições (os apontamentos ao mundo acadêmico não se encerram aqui, existem outras problemáticas).

O ensino superior é importante, porém existem aprendizados valiosos fora da sala de aula.

Superioridade acadêmica é uma tremenda ilusão. Podemos fazer do espaço acadêmico um lugar mais aprazível, justo e humano.

Feminista decolonial, jornalista e ativista, Júlia sabe a importância de se afirmar como uma mulher negra. Consciência política também é se apropriar da própria narrativa, acolhendo ancestralidade e se abrindo para várias possibilidades, individuais e coletivas, no contexto de negritude. Seguidora leal dos ensinamentos de bell hooks e Lélia Gonzalez, a paulistana acredita que o mundo pode ser um lugar mais aprazível quando estamos munidas de amor-próprio, senso crítico, música e vontade diária de caminhar na contramão do pensamento patriarcal e capitalista.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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