
Populares na cultura brasileira, as ganhadeiras eram comerciantes africanas e afrodescendentes comuns nas regiões urbanas do Brasil desde o período colonial. A historiadora Sheila Siqueira de Castro Faria realizou uma das pesquisas mais robustas sobre essas mulheres e diz que essas trabalhadoras dominaram o comércio ambulante no Brasil, pelo menos, desde 1591.
Com recorrência, a história das ganhadeiras é contada para destacar a longevidade do protagonismo feminino e negro nas atividades de comércio no Brasil. De fato, essas mulheres são figuras impressionantes e motivo de orgulho para a comunidade negra, pois, além de obterem sucesso nas atividades de venda, libertaram muitas pessoas da escravidão, sobretudo mulheres que faziam parte das suas famílias ou comunidades.
É bonito como elas representam as ações de rebeldia produzidas pelas mulheres africanas e afrodescendentes diante do escravismo. Contudo, a circulação de narrativas que acabam distorcendo as experiências dessas mulheres dificulta o nosso acesso à história e ao legado de lutas e desafios que elas deixaram.

Eu não tenho dúvidas que esse problema é resultado de um sistema educacional que não valoriza o ensino de História da África e da Diáspora Negra. Diante da necessidade de enfrentá-lo, compartilho algumas reflexões que tenho feito sobre o assunto.
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Marcas culturais deixadas pelas ganhadeiras
A presença das ganhadeiras ao longo da História do Brasil é marcante e, hoje, o interesse em relação a essa figura tem crescido, assim como a curiosidade em relação às marcas que elas deixaram na cultura nacional. O Ofício das Baianas do Acarajé, por exemplo (produção e comércio do acarajé e outros alimentos), foi inscrito no Livro dos Saberes em 2004 e tornou-se patrimônio cultural brasileiro. Em 2017, as baianas do acarajé foram incluídas na Classificação Brasileira das Ocupações.

De acordo com a tradição, para vender o akára – comida votiva da orixá Oyá – e outros itens do tabuleiro, as baianas do acarajé devem estar vestidas com roupas como bata, saia, anágua, turbante, pano da costa e outros adereços. No contexto religioso, a vestimenta representa as indumentárias utilizadas no culto aos Orixás, Nkisis, Voduns e outras forças espirituais. Apesar de serem mais comuns em Salvador, a representação dessas mulheres está presente em festividades populares do Recife, como o Boi, e nas escolas de samba que sempre têm uma ala de baianas.

Diante de tantos fundamentos, imponência e beleza é difícil não se impressionar com a força das ganhadeiras e com o que elas imprimiram na cultura brasileira. Mesmo assim, me incomoda bastante as associações que apresentam essas figuras como as primeiras “feministas”.
Mesmo compartilhando dos ideais feministas e defendendo a importância deles, eu penso que reduzir as experiências das ganhadeiras à história do feminismo pode ser arriscado. Nos leva a desconsiderar características de sociedades africanas que oferecem outra perspectiva para entender essas experiências. Também penso que muitas dessas associações tiram o foco das profundas influências da África Ocidental que moldam as ações e as formas que as mulheres negras brasileiras têm lidado com o mundo.
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Herança das mulheres vindas da África Ocidental
Quando comecei a estudar História da África e da Diáspora, achei muito interessante saber que a prática do ganho se tornou muito comum no Brasil devido às experiências pregressas de mulheres da África Ocidental. Elas vieram da região que, atualmente, corresponde à parte oeste do continente africano, onde ficam Benin, Nigéria, Guiné, Senegal, Mauritânia, Gana, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné, Serra Leoa, Togo, entre outros países.
Apesar dessas áreas serem predominantemente rurais no passado, as mulheres se destacaram no comércio, pois as políticas de distribuição da terra muitas vezes não reconheciam os direitos das mulheres. Autoras como Oyèrónkẹ́ Oyěwùmi ressaltam a inadequação das ideias ocidentais sobre as relações de gênero para entender as dinâmicas do território yorubá pré-colonial.
Contudo, é fato que o comércio passou a ocupar uma posição importante entre as atividades laborais das mulheres da África Ocidental, porque, em algumas regiões, elas não tinham direito às terras, como destaca com Sheila de Castro Faria. E isso fez com que grande parte dos recursos que as africanas obtiveram trabalhando viesse da venda intermediária ou direta de pimenta, sabão, coco, tomate, castanhas, roupas, potes, comidas e outros produtos.
A historiadora ainda afirma que o comércio realizado pelas mulheres foi uma ferramenta fundamental para a independência financeira feminina ainda no continente africano. Principalmente, se considerarmos também que, em muitas dessas regiões, a única herança transmitida para as filhas eram os bens acumulados pelas mães ao longo da vida.
Antes mesmo do surgimento do feminismo contemporâneo, mulheres em diferentes contextos já se mobilizavam diante das barreiras impostas pelas sociedades. Nos resta entender como isso influenciou as ações das mulheres negras brasileiras e identificar, inclusive, quais foram as nossas contribuições para a formação do movimento feminista. Algo que ainda não possui grande visibilidade na História do Feminismo, que se baseia na narrativa das três grandes ondas, na qual as mulheres negras aparecem, apenas, a partir da década de 1980 questionando a ideia universal de mulher.
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“Empreendedoras pioneiras”
Outra coisa que me chama atenção é o reconhecimento dessas personagens como as “primeiras empreendedoras”. Muitas narrativas destacam o pioneirismo dessas mulheres, mas não visibilizam os entraves provocados pelas desigualdades de raça e gênero que criam barreiras para a mobilidade social dessas trabalhadoras.
É fato que mulheres e homens criam negócios próprios para obter lucro desde que o mundo é mundo e as ganhadeiras fazem parte dessa história. Apesar de um número considerável delas terem obtido prestígio social e alguns bens, isso não representou acúmulo de riqueza para as mulheres negras no passado, como mostra a historiadora Mariana Dantas.
Me parece que isso também ocorre no presente. Apesar do grande destaque para o sucesso da venda de acarajé hoje, e a trajetória próspera de algumas baianas em estados como a Bahia, por exemplo, são comuns os relatos como o concedido pela baiana Eliana ao jornal A Tarde:“Tinha que sair para trabalhar e não tinha com quem deixar as crianças e as levava comigo. Minha menina, com nove anos, já ficava no caixa. Trabalhei com bebê dormindo no isopor. Passei muitos perrengues por falta de políticas públicas também, a exemplo do transporte público.”
Em geral, pouco se fala sobre como o talento dessas mulheres é soterrado pelas desigualdades implícitas numa sociedade neoliberal. Afinal, se incentiva a livre iniciativa, o empreendedorismo, a autoempresabilidade e a autogestão, mas não se garante as condições que permitam a essas trabalhadoras se estabelecerem de forma plena.
Sobrecarga de trabalho impacta saúde
A necessidade de trabalho incessante impede as baianas de realizar atividades básicas como o lazer e a alimentação, desencadeando problemas de saúde que não recebem a atenção necessária da Previdência Social (quando essas mulheres conseguem contribuir e pleitear direitos). Esse cenário é apontado em um artigo sobre o impacto do comércio de acarajé em condições precárias na saúde das baianas de Salvador, escrito por Amanda Ornelas Trindade, Maria do Carmo Soares Freitas e Ronaldo Ribeiro Jacobina.
A situação não é diferente do que acontece com a maior parte das empreendedoras negras. Segundo matéria veiculada pela Associação Brasileira de Estudos do Trabalho, 60% das mulheres empreendedoras se sentem sobrecarregadas. Além disso, em 2023, as mulheres negras eram o grupo que mais trabalha sozinho entre os empreendedores e são donas dos negócios de menor porte.
Sem desmerecer a história e a força dessas mulheres, é importante lembrar que o matriarcado da miséria, descrito por Sueli Carneiro, infelizmente ainda prevalece nas condições de vida das mulheres negras no Brasil. E, enquanto ele vigorar, as experiências individuais de mobilidade social e sucesso não darão conta dos desafios que nós, mulheres negras, enfrentamos coletivamente – e que inviabilizam a realização da nossa cidadania.
Que no mês de julho e no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25 de julho), possamos celebrar as existências das mulheres negras. Mas sempre também lembrar das lutas e dos desafios que a emancipação ainda nos exige.
