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6 de maio de 2020

Dia das Mães feminista: o que ler e quem seguir para refletir sobre maternidade

Neste Dia das Mães quero compartilhar algumas dicas de leitura e também de mulheres que trabalham maternidade nas redes sociais nas quais me inspiro e cujo conteúdo me provoca

“Você tem alguma leitura sobre maternidade para indicar, que não seja muito acadêmica?” 

Quando me propus a fazer esta lista fiquei pensando nessa pergunta que ouço com frequência e que normalmente tenho dificuldade para responder. Primeiro, porque eu acho que encastelamos demais o acadêmico colocando-o em um nível inatingível de leitura que não necessariamente corresponde à realidade. 

É claro que algumas leituras acadêmicas podem ser mais maçantes que outras e mais difíceis de serem compreendidas de primeira, mas tem muita produção acadêmica (muita mesmo!) de leitura fácil e fluida e para as quais muitas sequer dão uma chance. 

Estudar feminismo é um exercício mesmo e acúmulo de conhecimento não tem atalho, mas pode ser muito prazeroso ao longo do processo e pode ser feito também no nosso tempo, digerindo o conteúdo como damos conta, para então passar para algo mais complexo.

Às vezes a gente vai e depois volta e quando relê algo, aquele conteúdo chega de forma totalmente nova, como se fosse a primeira vez. 

Neste Dia das Mães eu quero então aproveitar a oportunidade para compartilhar algumas dicas de leitura (do quê e do como) e também de mulheres que trabalham maternidade neste planeta chamado internet e nas quais eu me inspiro, cujo conteúdo me provoca e me alimenta de reflexões.  

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Livros sobre maternidade para uma reflexão feminista

1 e 2. Um amor conquistado: o mito do amor materno e O conflito: a mulher e a mãe – Elisabeth Badinter 

Não dá para falar de maternidade, da construção social desta relação, sem falar do mito do amor materno. Leitura obrigatória para quem busca compreender como se construiu o modelo de maternidade ocidental burguesa que observamos hoje. Os dois livros da filósofa francesa foram escritos com um espaço de tempo entre eles de 30 anos de diferença. 

Ao ler Badinter é preciso ter em mente alguns pontos: ela é uma feminista liberal da escola francesa e um tanto  eurocêntrica, ainda assim, a contribuição histórica e filosófica que ela traz e os dados que ela apresenta em ambos os livros são bem importantes. 

Em O Conflito, Badinter  faz uma retomada das transformações do modelo de maternidade, em especial à luz do que ela chama de “movimento” ou “ideologia” naturalista e apresenta pesquisas interessantes, embora em alguns pontos eu acho que ela peca ao transformar uma discussão complexa em uma polarização que não precisa existir (criança vs. mulher) e que é característica das discussões sobre maternidade na França.  

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3. Mal-estar na maternidade – Vera Iaconelli

Uma das minhas intelectuais favoritas quando se trata de maternidade, a psicanalista Vera Iaconelli tem uma coluna preciosa na Folha de S. Paulo e, neste livro, por meio de um caso real de sua clínica, ela destrincha com seu ferramental psicanalítico e de estudos de gênero as funções sociais esperadas de uma mãe, passando pelo que ela considera avanços e retrocessos no tema. 

O fio condutor é a história (real) de uma jovem mãe que abandona seu bebê no hospital após ter um parto no banheiro, que decorre de uma tentativa mal sucedida de aborto e que, depois de ser chamada novamente, reconhece a bebê como sua e a assume como sua filha iniciando a análise que Iaconelli e seu grupo acompanharam. 

4. Mães Arrependidas – Orna Donath 

Doutora em sociologia e pesquisadora da Universidade Ben-Gurion do Negev, em Israel, Donath publicou as principais conclusões de sua pesquisa realizada de 2008 a 2013 com 23 mulheres israelenses que não apenas rejeitaram a maternidade ou tiveram dificuldades para se ajustar a ela, mas que, se pudessem voltar no tempo, jamais teriam colocado uma criança no mundo. 

Um livro essencial para desmistificar a ideia de que arrependimento esteja relacionado – necessariamente – à falta de amor ou conexão. As mães que Ornath amam seus filhos, seus netos e, ainda assim, se sentem limitadas, infelizes e alienadas no papel de mães. 

Com muita sensibilidade e talento literário, sem personalizar o debate, mas também destacando as diversas realidades de cada uma dessas mulheres, a autora defende que que essas mulheres precisam estar no centro do debate sobre maternidade compulsória, já que o arrependimento é o que melhor pode nos conduzir pelos caminhos muitas vezes tortuosos que levam uma mulher a se tornar mãe. 

5. Dar a vida e cuidar da vida – Lucila Scavone

Lucila Scavone é um dos principais nomes dos estudos de maternidade nas Ciências Sociais brasileiras e precisaria de uma página inteira só para apresentarmos esta Professora Livre Docente em Sociologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) , mas embora sim uma leitura acadêmica de primeira e recheada de referências que podem parecer difíceis à primeira vista, Dar a Vida e Cuidar da Vida: Feminismo e Ciências Sociais apresenta um compilado essencial da perspectiva feminista da sociologia frente aos saberes médicos nas questões da saúde reprodutiva e contracepção. 

O livro reúne uma série de diversos artigos produzidos ao longo da trajetória acadêmica desta pesquisadora e apresenta excelentes pesquisas empíricas realizadas sobre a problemática sociológica da maternidade, especialmente no campo da saúde.

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6 e 7 . Útero e Fronteiras: Gestação de Substituição no Brasil e nos Estados Unidos: um estudo comparado e Mães de Pet: Maternidade e Especismo – Bruna Kern Graziuso  

Bem, sou suspeita para falar da Bruna, que além de uma pesquisadora primorosa é também uma amiga querida com quem troco importantes reflexões acadêmicas. Mas é fato que os dois livros dela são excelentes contribuições para o debate sobre maternidade, além de serem bem escritos, com uma leitura compreensível mesmo para quem não é do meio. 

Em Útero e Fronteiras, ela analisa a gestação de substituição (vulgarmente conhecida como “barriga de aluguel) em uma perspectiva jurídica, mas que vai muito para a sociologia. Vai tanto que, desse trabalho, que é fruto da sua pesquisa no Mestrado em Direito, ela foi parar no Doutorado em Sociologia onde continua pesquisando gestação por substituição no Brasil, EUA e Reino Unido.  

Para além do debate específico, a introdução ao tema maternidade, maternidade compulsória e parentalidade que ela faz nos primeiros capítulos é riquíssima e é uma excelente forma de entrar no debate mais conceitual de forma didática. 

Em Mães de Pet, da mesma forma, ela apresenta a pesquisa conduzida com outras duas pesquisadoras sobre maternidade e especismo e nos conduz a uma reflexão interessantíssima sobre o termo “Mãe”. 

As tretas de maio nunca mais serão as mesmas depois que você ler este livro! 

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8, 9 e 10. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras e Teoria Feminista: da Margem ao Centro – bell hooks; e Pensamento Feminista Negro – Patricia Hill Collins

Nenhum desses três livros é sobre maternidade, mas todos trazem a maternidade em algum dos capítulos e são essenciais para se compreender a temática da maternidade negra e interseccionalizar este importante debate. 

bell hooks traz provocações e reflexões que dão um nó em tudo que você leu anteriormente sobre maternidade compulsória e, por isso mesmo, essenciais para ir construindo essa visão crítica e problematizadora do assunto. Outra opção é começar por aqui e já ler tudo com uma lupa diferente. Definitivamente, a ordem dos fatores não altera a qualidade do resultado. 

11. A filha perdida – Elena Ferrante

E vamos de romance também porque nada como a literatura para nos trazer reflexões profundas sobre um tema tão romanceado historicamente. 

“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender” é o alerta de uma das minhas autoras preferidas neste livro curto e cortante que conta a libertação de uma mãe e todas as angústias mais difíceis de se revelarem e que Ferrante nos joga na cara sem aviso prévio. 

Vivemos de um fôlego só os sentimentos conflitantes de Leda, uma professora universitária de meia-idade que decide tirar férias no litoral sul da Itália quando as filhas já crescidas se mudam para o Canadá. 

Com seu estilo inconfundível, ela parte de elementos cotidianos, quase banais, e constrói uma narrativa poderosa sobre a maternidade, a sexualidade, o amor e o poder das relações familiares  na vida de diferentes gerações de mulheres.

12. Gestar, parir e amar: não é só começar

E claro, não poderia deixar de indicar o livro que mudou a minha própria vida não como leitora, mas me transformando em escritora oficialmente, com o objetivo de trazer luz a um grande tabu da maternidade moderna, a culpa.

Este livro verbaliza que a maternidade, tão desejada, celebrada e na qual eu mergulhei de forma tão intensa é, no fundo, o principal grilhão que aprisiona as mulheres, quando se trata de igualdade e mobilidade social, política e financeira. É o resultado de anos de reflexões para escancarar o quanto a culpa, alimentada pelo mito do amor materno, é o elemento que sustenta toda desigualdade de gênero que se tenta combater seja nas ruas ou no mercado de trabalho.

PS: no site da Editora Letramento ele está com desconto de 25% até o dia 10 de maio e aqui você encontra o e-book.

13. As alegrias da maternidade – Buchi Emecheta

No momento, estou lendo esse livro e amando, então fica essa dica antecipada também! 

Dicas para uma leitura construtiva

Alguns lembretes para que toda essa experiência seja mais prazerosa e construtiva: 

1) Ler – e aprender – não é algo passivo. Ler um livro é conversar com ele. Não é pra concordar com tudo, não é pra absorver sem questionar. Leitura ajuda muito a desenvolver raciocínio e senso crítico, inclusive não concordando 100% com o que estamos lendo, mas para isso precisamos do contexto.

2) Ler o todo, o contexto, a ideia por trás do tal “conceito” é o que permite chegar a conclusões diferentes percorrendo o mesmo caminho que o autor, mas embasadas na nossa própria experiência e visão de mundo, em outras leituras e bagagem. É o que traz insights e permite fazer outras conexões, outras sínteses.

2) Ler mais não deveria ser mais importante do que ler bem e com qualidade. Seja a qualidade do conteúdo, seja da digestão do mesmo. Tomar um tempo extra para um parágrafo sobre o qual temos dúvidas ou questões, pesquisar outras fontes, dar Google no que não conhecíamos ou queremos aprofundar… Tudo isso faz parte do processo de leitura e da importância que ela tem no acúmulo de musculatura mental.

3) Ter tempo para leitura é um privilégio, mas ler menos e na fonte ainda é mais proveitoso e emancipador do que “ler mais” por meio de resumos. Se o livro fosse um alimento é a mesma lógica do comer somente papinha ou o alimento in natura. A papinha pode até parecer ter uma quantidade maior de comida, mas ela tem menos  nutrientes, vitaminas e perde a  textura tão importante nesta relação com a comida.

A leitura é um hábito extremamente emancipador, não deixemos que se transforme em mais uma armadilha capitalista para nos aprisionar e pasteurizar!

Perfis para seguir

Além dos livros, tem muita mulher produzindo um conteúdo massa sobre maternidade nas redes sociais. Então aí vai uma lista de quem vale a pena seguir:

Nana Queiroz 
Dispensa apresentações, mas ainda assim não custa reforçar que a Nana, que já era uma feminista (e uma das fundadoras d’AzMina) que precisava ser seguida, uma autora que precisa ser lida, se tornou uma mãe com reflexões profundas e importantes sobre uma maternidade feminista e acolhedora!

Renata Senlle
Co-criadora do Conexão Feminista e do Política é a Mãe, Renata tem um dos melhores humores desse rolê materno e fala das coisas com profundidade traduzindo muito do acadêmico de forma didática, com uma pitada de sarcasmo e deboche que amamos!

Criando crianças pretas
Perfil debate a maternidade especificamente focadas na comunicação antirracista e trazem reflexões bem importantes sobre o papel das brancas e brancos.

Camila Ramos – Um colo para a mãe 
Se você é puérpera, você precisa conhecer o trabalho da Camila! Se você não é, também! Possivelmente o único conteúdo sobre puerpério que eu indico e amo porque aborda de um lugar totalmente sensível, não determinista e ainda assim profundo. A Camila é psicóloga de família e de crianças e também uma escritora primorosa.

Plantão Materno 
A Cris é consultora em amamentação, bióloga, doutora em Ciências e mãe de dois filhos e tem um dos perfis mais divertidos, sem perder o conteúdo e a capacidade de dar aquelas pauladas necessárias.

Lagarta Vira Pupa 
Reflexões essenciais obre maternidade de crianças neuroatípicas em uma escrita gostosa e assertiva. Esse perfil me levou a vários lugares onde eu nunca havia estado internamente e também a outros perfis de mães incríveis que debatem abertamente a maternidade de crianças neuroatípicas.

Marilia Moscou 
Marília não fala “de maternidade”, mas também, e de uma forma totalmente diferente do que você vê por aí. Ela é doutora em Sociologia, formada em antropologia e e mais uma pá de coisas, e debate brilhantemente (com direito a muito soco no estômago também!) não monogamia, feminismos, família e, na verdade, qualquer coisa que ela se proponha a debater.

Mãe orgulhosa e babona do Cacá, sou também coach, palestrante, blogueira, advogada, estudante de psicologia, feminista e ocasionalmente dona de casa. Já fui professora de italiano, assistente de Papai Noel, vendedora, tradutora, estagiária, gerente e diretora. De São Paulo, vivo em Curitiba com um recifense, Cacá e nosso Pug Jerimum. Detesto clichês, rótulos e preconceito. Escrevo sem melindres sobre qualquer assunto e criei a Self sonhando com a transformação de mulheres, organizações e do mundo!

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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