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Amamentar não é um ato de amor

por Tayná Leite
13 de dezembro de 2019
Enquanto caímos no caça clique, o debate que deveria ser feito no caso Isis Valverde é o da romantização da maternidade
isis valverde amamentçaõa
A atriz Ísis Valverde postou foto amamentando. Foto: Reprodução/ Instagram

Esta semana um site de fofocas bem mequetrefe e desconhecido no campo progressista e/ou feminista publicou uma foto da Isis Valverde (foto linda, por sinal!) na qual aparece amamentando seu filho com a legenda “hoje tem Amor de Mãe”, referindo-se à nova novela das 21h, e aproveitando o título da atração para fazer uma metáfora com sua maternidade.

O site se aproveitou do post da atriz e criou um caça clique tão podre quanto evidente ao colocar na manchete: “Isis Valverde mostra os peitos em foto íntima e faz grande anúncio: ‘hoje tem’”, sexualizando a imagem da global e dando a entender que o leitor veria outro tipo de conteúdo em sua publicação.

A humorista Tatá Werneck compartilhou a matéria mostrando-se indignada com a sexualização da amamentação e iniciou uma “campanha” com a hashtag #nãosexualize, chamando mulheres a postarem suas fotos amamentando seus bebês. Participaram várias famosas além da Tatá, como Sabrina Sato, Débora Nascimento e Sheron Menezzes, que aderiram a esta espécie de mamaço virtual. 

Muitas páginas e influenciadoras feministas compartilharam. Obviamente, não somos a favor da sexualização da amamentação, mas o que aconteceu aqui é que estamos tentando rebater uma narrativa de controle do corpo feminino com um argumento que cumpre o mesmo papel, que é o da romantização da maternidade e da amamentação.

A romantização da maternidade que a legenda da foto traz e de tantas matérias que discutiram o fato ligam amamentação a amor e amor incondicional a amor “de mãe”. 

A questão é: amamentar não é um ato de amor! 

Continuar ligando amamentação a amor, e maternidade a “essência do amor”, serve apenas aos interesses de quem deseja exercer controle sobre os nossos corpos. 

A amamentação PODE SER um ato de amor?

Óbvio que pode! Até faxinar a casa PODE SER um ato de amor, mas você não vê feminista por aí romantizando serviço doméstico e dizendo que as mulheres fazem isso porque amam, não é mesmo?

A maternidade e a paternidade são construções sociais e têm contextos históricos. Por isso é necessário sempre olharmos para esses discursos, narrativas e práticas de forma crítica, em uma perspectiva histórica e sociológica dos lugares ocupados por mães, pais e crianças e de como estes lugares convergem ou divergem dos discursos dos diversos modelos de cuidado com os quais interagimos. 

Se advogamos pelo fim da romantização da maternidade, a gente precisa ficar atenta a esses discursos e narrativas que parecem sutis, mas são poderosos instrumentos da opressão materna (e feminina). 

A foto da Isis Valverde é linda de ver, potente e inspiradora. Mas não representa a essência de nada. Só de uma mãe exercendo seu direito de amamentar e o bebê curtindo seu mamazinho gostoso.

Amamentação é sobre saúde pública

Amamentação é um debate sobre saúde pública, direitos, enfrentamento à indústria do desmame, mas também um lugar de disputas e tensões entre discursos sobre o corpo feminino e a essencialização da maternidade! 

Toda vez que vinculamos o maternar a um amor inato, ao instinto e ao sacrifício, contribuímos um pouco mais para o controle sobre os nossos corpos, incluindo o debate funcionalista sobre o seio, por exemplo. Mães ganharam zero coisas com isso, as crianças idem e a maternidade segue sendo romantizada e colocada no cerne do destino feminino. 

Toda vez que isso acontece, uma pesquisadora do cuidado (como euzinha aqui) tem um mini infarto de desgosto em algum lugar do mundo (risos de nervoso). 

Uma breve citação de uma das maiores especialistas no Brasil sobre maternidade e gênero, aka minha orientadora do mestrado, Marlene Tamanini. “Não existe uma verdade natural sobre o corpo que seja dada diretamente e sem intermediários, e as ciências biomédicas funcionam no interior de uma sociedade que constrói determinadas concepções de corpo, traduzidas pela linguagem e pela prática”.

Até quando?

Outra coisa que percebi nesse episódio é que gente está jogando muito errado em tudo que envolve briga de narrativa na internet. 

No caso do post, milhões, LITERALMENTE milhões de pessoas pautaram um debate achando que estavam contra atacando a sexualização da amamentação, mas no fim, qual a relevância de contra atacar uma matéria irrelevante que ninguém saberia que existia não fosse toda essa divulgação? O debate em si só “emergiu” porque todo mundo mordeu a isca do veículo. Era o que eles queriam. 

O veículo inexpressivo queria o que? Tráfego. E conseguiu o que quis, enquanto NINGUÉM falou sobre o problema da matéria em si…

“Ahhh Tayná, pode ser insignificante na sua bolha, mas eu conheço um monte de gente que vê essas coisas.” 

Tá, agora me diz, as pessoas que gostam desse tipo de “conteúdo”, elas mudaram de opinião sobre a amamentação por conta disso?

Tenho a impressão, não só nesse tema, que nosso campo está constantemente entrando em debates desnecessários com trolls – na gíria da Internet, designa uma pessoa cujo comportamento tende sistematicamente a desestabilizar uma discussão e a provocar e enfurecer as pessoas nela envolvidas.

Canso de ver pessoas discutindo com bots (robôs). É tanto tempo ocupado mordendo as iscas, que as poucas pessoas que estão tentando pautar os debates, disputar as narrativas, estão exauridas. 

É sério: a gente do campo de cá precisa urgentemente aprender a usar a internet e os algoritmos e parar de tomar lavada da direita conservadora. Chama caça clique por uma razão. Paremos de morder a isca. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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