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Carta da filha que fui para a mãe que quero ser

por Tayná Leite
10 de fevereiro de 2020
E então Cacá foi para escola. De uniforme e tudo. E eu não estava lá
Foto: Unsplash

Quem me acompanha aqui desde o começo sabe que o objetivo desta coluna não é exatamente o de falar de mim, mas ela é inevitavelmente sobre mim, sobre a minha realidade e as minhas subjetividades enquanto me equilibro neste diálogo maluco entre ser sujeito e objeto do meu próprio campo. Mas afinal de contas, ser feminista e pesquisadora em gênero por si só já nos coloca neste lugar. Saberes localizados diz a Haraway, teorias do ponto de vista e o tal lugar de fala. 

Então, eu pesquiso maternidade, eu trabalho com mães agoniadas que sofrem por terem que voltar ao trabalho ou por não poderem fazê-lo. Eu denuncio as estruturas que sustentam tudo isso e quem se beneficia delas e me proponho a passar o trator, mas também colocar de volta tijolinhos que ajudem a construir uma realidade diferente para mães, pais e bebês. 

Mas eu também sou esta mãe e dentro das minhas próprias limitações e vivências que eu sou quem sou e faço tudo o que eu faço. 

Eu sou uma mulher cis, heterossexual, em um relacionamento estável há 16 anos, que planejou um filho por 2 anos com condições materiais e emocionais tidas como “ideais” por alguns. Tenho uma rede de apoio familiar espetacular e uma boa dose de curiosidade e as ferramentas necessárias para correr atrás do que me falta. 

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Eu não sou (ao menos ainda) uma mãe solo, jamais serei uma mãe preta em uma sociedade racista e, ao que tudo indica, também não serei uma mãe lésbica em uma sociedade lesbofóbica. 

Hoje porém, enquanto espio o celular de 5 em 5 minutos para ver se por acaso me ligaram da escola e eu não vi me ocorreu que muito da minha experiência como mãe é moldada da minha experiência como filha e eu achei importante, mais uma vez, contar um pouquinho de mim, para refletir sobre a estrutura em que me insiro. 

Eu idealizei muito esse momento da ida à escola desde que soube que estava grávida. Minto, desde que decidi ser mãe e assim como tantos outros desde que ele apareceu na minha vida, não vai acontecer como eu imaginava. Eu estava em São Paulo em um treinamento da ONU Mulheres que é literalmente a realização de um sonho e quem foi com ele foi o pai. 

Poderia dizer que para ele é melhor assim, que ele saberá que eu estou lá emocionalmente ou qualquer outro clichê desse tipo, mas o fato é que não sei se realmente será melhor (e nunca saberei já que não teremos amostra das duas possibilidades para avaliar!) e a verdade é que é assim que será porque a vida é feita de contradições e escolhas possíveis e teremos, juntos, que lidar com as consequências, vantagens e desvantagens de cada decisão e caminho escolhido. 

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Cacá estava super empolgado para ir, levou flores para as profes e tirou milhares de fotos antes de sair. Foi ficando acuado ao chegar. Eu tava ali, ao vivo no zap zap (internada com uma enxaqueca de aura que é uma outra história que entrará para os anais) esperando ansiosamente as mensagens do pai. 

“Como ele está?” “O que está falando?” “Tá empolgado?” 

Na volta, a mesma coisa, mas as notícias não chegaram tão animadoras. Ele se sentiu deslocado (está entrando em uma turminha já formada) e estava tristonho. Pediu por mim e chorou um pouco.

Chego em casa angustiada e certa de que as informações teriam que ser conectadas por relatos de terceiros (pai, avós, profes) e/ou obtidas a fórceps da criancinha. 

Eis que não apenas ele ficou me esperando pra contar tudo, como me pediu “antes de tomar banho, vamos sentar aqui na sua cama um pouco para conversarmos sobre como foi o meu dia?” 

E me contou T U D O com vários detalhes e histórias descritivas, sentimentos e percepções. E pra arrematar, durante o banho emendou: “e você, mãe? Como foi a sua viagem? Deu tudo certo? Você se divertiu?”

A ficha que caiu é a de que cheguei em casa com o coração na mão louca pra abraçar meu Cacá, mas na verdade eu queria mesmo era abraçar a Tayná lá de trás e dizer que tudo ficaria bem. E ficou. Mesmo sendo a diferentona, filha dos imigrantes. Com um pai estranho que ia me buscar alcoolizado no meio da aula, uma mãe que trabalhava demais para termos o mínimo e pouco sentia que precisava acompanhar a filha prodígio que só tirava 10 e, portanto preferia investir o tempo acompanhando o caçula que dava mais trabalho. Cacá não é e nem será a criança que não tem os materiais completos e que não pode convidar os amiguinhos pro aniversário porque não tem dinheiro pra fazer festa ou porque tem medo do vexame que o pai pode dar. Há um abismo tão grande, infinito entre o contexto familiar em que eu fui para escola e o que ele está indo, mas o sentimento e a angústia que tudo isso provocou em mim me deixou aflita pelo que ele ainda nem viveu.  

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Eu passei todos os anos escolares tentando ser a melhor, a mais destacada para compensar todas essas outras questões que eu considerava minhas grandes falhas: o pai alcoólatra, viciado e abusivo, a pobreza, vir de um lugar “subdesenvolvido” o não pertencer nas pequenas coisas que fossem, comprar o material que eu queria, ter uma roupa que eu escolhia ou poder ir brincar na rua com as crianças sem ter outras responsabilidades. Na faculdade as coisas começaram a mudar lentamente conforme fui me emancipando emocionalmente e trabalhando as minhas feridas e começando a ver minha própria luz no fim do túnel. 

E eu idealizei esse momento do Cacá e coloquei todas as minhas ansiedades e angústias nele sem perceber, não porque eu tenha medo do meu menino não dar conta, mas talvez me porque este momento tenha me lembrado que eu não tenho controle sobre os sentimentos dele e daqueles ao redor dele, mesmo que eu goste de ter controle sobre todo o resto. 

E quando ele me contou com tantos detalhes não apenas como se sentiu, mas o que foi difícil e os medos dele a sensação da mãe foi de total gratidão, tranquilidade e plenitude e a da filha também, porque apesar dos percalços, todo mundo fez o que pôde e deu tudo certo! 

Ahhh e a pesquisadora de estudos de gênero e feminista só sabe pensar: “meninos são mais quietinhos e têm dificuldade para falar de sentimentos” eles disseram, ne?! 

Quero aproveitar esta coluna também para contar que, justamente sentindo falta de outras vozes e outros olhares sobre o maternar, a partir de Março teremos mães bem diversas compartilhando seus próprios processos aqui a fim de despertar múltiplas perspectivas e percepções sobre esse troço doido chamado maternidade. 

Já temos programadas quatro matérias/entrevistas muito especiais com mães pretas, lésbicas, atípicas, militantes e outras, mas se você tiver alguma história para indicar é só mandar uma DM no @_tayna_leite 

Um beijo e vejo vocês (espero ainda mais) em 2020! 

Queria também contar uma novidade super especial. Meu livro, “Gestar, Parir, Amar: não é só começar” foi escolhido como um dos livros destaque de 2019 da Editora Letramento e agora, para ele ser o eleito como número 1 preciso do voto de todo mundo. 😻

A votação encerra dia 12/02

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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