logo AzMina
18 de março de 2020

Quem cuida de quem cuida em tempos de coronavírus?

Não tenho dúvidas de que a atual crise é uma crise do cuidado. E são as mulheres, em geral as mais pobres e negras, que cuidam
Na crise do coronavírus, mulheres ficam mais vulneráveis pelos trabalhos de cuidado (Foto: Carlos Ebert/Flickr Commons)

Fique em casa, se puder.

É a recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) diante da pandemia de coronavírus (Covid-19) que nos assombra globalmente e que está mexendo com a vida de praticamente todas e todos, em alguma medida ao menos. 

É também o pedido de famosos e famosas, personalidades políticas e influencers. A atriz Isis Valverde gravou um vídeo incentivando as pessoas a não saírem de casa e aproveitarem para “cozinhar para a família, tentar, dar o melhor de si e tomar um vinho”.

Só que em determinado momento é possível ver uma mulher negra de uniforme branco, indicando ser uma funcionária trabalhando normalmente. Em outros posts, como o de Sabrina Sato, havia pessoas indagando sobre os empregados domésticos, se foram dispensados ou não e em que termos. 

Não tenho dúvidas de que a crise atual é uma crise do cuidado. Uma oportunidade de olhar para quem cuida do quê, de quem e em que condições. O que nós, pesquisadoras do cuidado, chamamos de feminização do cuidado: são as mulheres, em geral as mais pobres e negras, que cuidam. 

Leia mais: Histórias de mulheres negras que romperam com o ciclo familiar de trabalho doméstico

Mulheres que estão sobrecarregadas com o cuidado do dia a dia são também as que não terão com quem deixar seus filhos, a não ser expondo as mulheres idosas de sua rede de apoio. 

Mulheres dedicam em média 18,5 horas semanais para os afazeres domésticos e cuidados de pessoas, bem mais do que os homens (10,3 horas), sem considerar suas atividades remuneradas no mercado de trabalho, segundo pesquisa do IBGE.

“Mulheres e meninas, principalmente as que vivem em situação de pobreza e pertencem a grupos marginalizados, dedicam gratuitamente 12,5 bilhões de horas todos os dias ao trabalho de cuidado e outras incontáveis horas recebendo uma baixíssima remuneração por essa atividade”, segundo relatório recentemente divulgado pela Oxfam, intitulado Tempo de Cuidar: o trabalho de cuidado não remunerado e mal pago e a crise global da desigualdade, lançado no Fórum Econômico Mundial.

Ainda segundo a Oxfam, este trabalho somaria pelo menos 10,8 trilhões de dólares à economia se fosse somado ao trabalho formal – três vezes mais alto que o estimado para o setor de tecnologia do mundo.

Sabemos que são mulheres as enfermeiras, as cuidadoras de idosos e doentes, as empregadas domésticas e diaristas que estão perdendo sua renda ou sendo obrigadas a continuar trabalhando em situação de risco ainda maior do que as que já estão expostas normalmente pela natureza precária de suas funções. 

Leia mais: Vamos parar de falar do trabalho mais difícil do mundo?

Pensar esta crise sob a lupa do cuidado é ainda mais relevante quando olhamos para um país, como o nosso, em que considera-se normal que todo o serviço de higiene de uma família seja realizado por alguém estranha à mesma e que esta normalmente é uma mulher, negra, mal paga e sem seus direitos trabalhistas assegurados. 

Vale lembrar que apenas em 2015 houve a regulamentação da emenda que estendeu às trabalhadoras domésticas o direito ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), direito ao seguro-desemprego, adicional noturno, entre outros direitos trabalhistas básicos e que ainda há uma parcela significativa de trabalhadoras domésticas na informalidade (cerca de 1/3 segundo a Organização Internacional do Trabalho – OIT). 

Olhar para esta crise também sob a perspectiva do futuro do trabalho, da flexibilização de direitos e modernização das relações de trabalho significa pensarmos também nas armadilhas dos discursos neoliberais que vendem essas medidas como forma de gerar uma  “economia” que, ao menos em tese, seria repassada como salário direto ao trabalhador, o que na prática não acontece, visto que a média salarial dos empregados domésticos registrados é de 1.269 reais por mês e dos que estão na informalidade a remuneração média mensal é de 755 reais. 

O que será de todas essas trabalhadoras, muitas delas únicas responsáveis pela renda familiar, em uma situação que as coloca entre perder sua fonte de renda e expor-se à contaminação de si mesma e dos seus, inclusive os de grupo de risco? Muitas dessas mulheres sequer estão tendo a possibilidade de fazer esta escolha. 

A feminização do cuidado não acontece do dia para a noite e também não se resolve do dia para noite. Isto significa, por exemplo, que ainda que todos e todas que usufruem dos serviços de cuidado dispensem as profissionais mantendo suas remunerações (cenário bastante improvável), não haverá muito o que se possa fazer de imediato com as mais de 85% de mulheres entre os profissionais da enfermagem que estão na linha de frente dos serviços de saúde – e, portanto, da pandemia.   

Leia mais: Amamentar não é um ato de amor

Agora, se não poderemos resolver a feminização para esta crise que estamos atravessando neste momento, podemos – e devemos – lembrar que, segundo o IBGE, até 2050 teremos 77 milhões de pessoas precisando de cuidado, entre idosos e crianças. 

Se não aprendermos nada enquanto sociedade, voltando a debater políticas públicas e privadas para dar conta de quem precisará ser cuidado (todas e todos nós!), serão novamente as mulheres e meninas a ficarem sobrecarregadas com esta missão. 

As mesmas que agora estão se perguntando com quem deixar seus filhos com as escolas fechadas, como fazer o tal home office com as crianças gritando pela casa, como darem conta de levarem seus entes queridos adoecidos aos postos de saúde com transporte público precário e a recomendação de evitar contato social. 

Sempre elas, as mesmas de sempre! As que, muito antes do coronavírus, em terra de Aedes (que em 2019, contaminou quase 60 mil pessoas e matou cerca de 800 e nos primeiros dias de 2020, já tinha mais de 30 mil casos) ficam com o fardo de um país inteiro nas costas. 

Inclusive não sai da minha cabeça o que é que faz com que o silêncio sobre a nossa eterna epidemia seja ensurdecedor enquanto o vírus que vem da Europa grita na orelha em tom uníssono. 

Que essa crise nos ajude a pensar no cuidado e em todas as epidemias de descuidado que nos permitimos ignorar.

Mãe orgulhosa e babona do Cacá, sou também coach, palestrante, blogueira, advogada, estudante de psicologia, feminista e ocasionalmente dona de casa. Já fui professora de italiano, assistente de Papai Noel, vendedora, tradutora, estagiária, gerente e diretora. De São Paulo, vivo em Curitiba com um recifense, Cacá e nosso Pug Jerimum. Detesto clichês, rótulos e preconceito. Escrevo sem melindres sobre qualquer assunto e criei a Self sonhando com a transformação de mulheres, organizações e do mundo!

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Quem está na cola do machismo mesmo?

Desde 2015, AzMina está do lado das mulheres e da luta pelos nossos direitos. E, ao nosso lado, nós tivemos muitas leitoras e leitores, que financiam o nosso trabalho e acreditam que jornalismo feminista deve chegar a todos. Graças aos nossos apoiadores, impactamos a vida de milhares de mulheres e produzimos cada vez mais conteúdos e projetos. Nossas reportagens, vídeos, podcasts, campanhas de conscientização e projetos como o PenhaS e o Elas no Congresso são totalmente gratuitos.

Se você valoriza tudo isso, considere fazer uma doação. Junte-se às mais de 500 pessoas que tornam o nosso trabalho possível. A maior parte dos nossos apoiadores contribui com R$ 20 mensais e cada real é importante.

O jornalismo feminista independente é muito essencial à Democracia sempre. Mas no Brasil de 2021, não podemos descuidar nem um dia. Para isso, AzMina depende de você.

APOIE A CONTINUIDADE DESSE TRABALHO HOJE!