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Giulia Santos
9 de maio de 2025

Mães negras e a luta contra o racismo desde a infância

A maternidade preta é marcada pelo amor e pela resistência, essas mães enfrentam o racismo para proteger e empoderar seus filhos

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Colagem digital mostra duas mães negras com seus filhos pequenos. À esquerda, uma mãe sorri enquanto levanta o filho no ar; à direita, outra mãe amamenta um bebê no colo, ambas com expressões de afeto e conexão. O fundo é artístico e vibrante, com formas abstratas em tons de azul, roxo, amarelo e rosa.

A maternidade é um dos momentos mais transformadores da vida de uma mulher. No entanto, para uma mãe negra, a alegria de gerar um filho vem acompanhada de um peso que muitas outras não precisam carregar: o racismo. Quando uma mulher preta descobre que está à espera de um menino, ela não apenas se prepara para criá-lo. Ela sabe que também terá de ensiná-lo a sobreviver em uma sociedade que o enxergará, antes de tudo, como uma ameaça.

Desde o primeiro instante, a dura realidade se impõe: estatísticas mostram que a cada 23 minutos, um jovem negro é morto. Antes mesmo de soltar seu primeiro choro, esse menino já está marcado por estereótipos. Seu futuro, que deveria ser repleto de possibilidades, é muitas vezes reduzido a uma narrativa de perigo e limitação 0. O racismo estrutural não espera que ele cresça, se manifesta desde o início, moldando a forma como será visto e tratado.

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O medo que cresce

Com o crescimento do filho, cresce também o medo da mãe. Um medo silencioso, persistente, que o acompanha em cada passo que ele vai dar. No início, é um receio comum, como o de qualquer mãe que se preocupa com os tropeços e quedas da infância. Mas, com o tempo, esse medo se transforma. Ele ganha contornos mais duros, mais pesados.

Enquanto para muitos, correr livremente é parte da infância, para esse menino negro será um risco. Ele terá que aprender a medir seus movimentos, a evitar gestos bruscos, a manter as mãos sempre à vista. Terá que controlar a voz, nunca parecer exaltado, nunca parecer ameaçador.

A vigilância será constante. Não por ter feito algo errado, mas porque o mundo ao redor o enxerga de maneira diferente. A linha entre a inocência e o perigo será tênue, e um simples mal-entendido pode ter consequências irreversíveis. E então, inevitavelmente, chegará o momento em que deixará de ser visto como uma criança. O olhar da sociedade mudará e, ao invés de proteção, ele pode encontrar desconfiança. Deixará de ser apenas um menino para se tornar um alvo.

Essa realidade foi recentemente ilustrada de forma contundente por Taís Araújo, uma das artistas negras mais influentes do Brasil. Durante uma estadia num condomínio de luxo, seu filho João Vicente, de apenas 14 anos, foi abordado por um segurança que duvidou de sua presença ali como morador. A atriz denunciou o caso como racismo. A situação pontuou o racismo estrutural que marca até mesmo os espaços de privilégio e que não poupa crianças negras, independentemente de sua classe social.

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O poder do amor e da resistência

Mas, apesar de todo esse medo, há algo ainda maior: o amor. Um sentimento que transborda, que resiste, que dá coragem, se recusa a reduzi-lo a um número. Esse menino será forjado na inteligência, na força e na memória ancestral de um povo que nunca se curvou. O ventre que o abriga também o protege, e a voz da mãe se ergue como um escudo contra a violência do mundo.

O amor preto cura. Ele resiste ao tempo, atravessa gerações e fortalece. No matriarcado negro, onde mulheres são pilares de sustentação, esse menino crescerá sabendo que não está sozinho. Há uma rede de amor que guia seus passos e ilumina seu caminho. Sua existência é um ato de resistência, e sua voz tem poder.

Desde o primeiro choro, ele já carrega a história de seus ancestrais. Cada passo será sustentado pela força daqueles que vieram antes, lutaram, sonharam e construíram caminhos para que ele pudesse seguir. No toque das mãos de sua mãe, na sabedoria transmitida pelos mais velhos, no abraço forte de sua comunidade, ele encontrará abrigo.

O mundo tentará impor limites, desenhar fronteiras ao seu redor, sufocar sua potência. Mas ele saberá que carrega algo indomável: a certeza de que é digno de tudo que há de melhor. Saberá que sua pele carrega histórias de reis e rainhas, de lutadores e visionários, de artistas e pensadores que transformaram o mundo com sua existência.

E quando ele crescer e olhar ao redor, verá que não está só. Haverá outros como ele, firmes, de punhos erguidos, de olhos acesos. Porque o amor preto não apenas resiste, ele se multiplica. Ele não apenas protege, ele fortalece. E esse menino, antes acalentado no ventre de sua mãe, crescerá para ser a continuidade dessa história. Uma história de luta, de orgulho e de vida.

A luta das mães negras

As histórias de tantas outras mães negras atravessam o tempo e ensinam que maternar um menino negro é um ato de amor e de resistência. São mães que enfrentam batalhas diárias para garantir que seus filhos possam viver, estudar, brincar e sonhar sem o peso do preconceito. Mulheres que se tornam escudos, que desafiam o silêncio, que reivindicam justiça.

Muitas dessas mães negras lutam incansavelmente pela liberdade de seus filhos, vítimas de um sistema racista e desigual. Essas mulheres enfrentam não apenas a dor da separação, mas também o desafio de provar a inocência daqueles que amam, frequentemente contra um sistema que já os condenou antes mesmo do julgamento.

Há também aquelas que peregrinam de delegacia em delegacia, de tribunal em tribunal, reunindo provas e enfrentando burocracias para provar que seus filhos foram presos injustamente. Essas mães, tantas vezes invisibilizadas pela sociedade, carregam o peso de uma luta que não deveria ser necessária, mas se impõe diante da seletividade racista do sistema penal brasileiro.

No fundo, todas essas mães compartilham o mesmo desejo: que seus filhos possam simplesmente ser livres e felizes. Muitas crianças negras ainda não possuem o direito à infância, a brincar sem medo, ao futuro sem amarras. E cada mãe negra sonha com o dia em que não precisará ensinar seus filhos a se proteger antes mesmo deles aprenderem a viver.

Apesar da dor e da incerteza, a esperança resiste. Recusa-se a ceder ao medo, pois esses meninos têm o direito de ser livres, serem apenas crianças, de viverem sem o espectro constante da violência. Eles merecem um futuro digno, onde possam crescer com segurança, ocupar todos os espaços e trilhar seus próprios caminhos sem barreiras impostas pelo racismo.

Que esse amor e essa rede de cuidado continuem abrindo caminhos e fortalecendo cada mãe e cada filho negro. Que suas vozes sejam ouvidas, suas conquistas celebradas e suas vidas valorizadas.

Porque esses meninos não são ameaça. Eles são vida, são luz, são esperança. E por eles, cada mãe seguirá lutando, para que possam existir plenamente, com dignidade, respeito e amor.

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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