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6 de janeiro de 2026

Para ler em 2026: as mulheres e os novos tempos

Selecionamos uma lista de livros escritos por mulheres que abordam a renovação, desde o luto até a reinvenção pessoal

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Ilustração em colagem: mulher de cabelos cacheados, usando óculos geométricos rosa, sentada em um sofá roxo e lendo um livro aberto. Ao fundo, uma pilha de livros em azul e amarelo sobre um móvel e folhas em tons de rosa; céu em degradê azul-turquesa com textura.

É noite de Ano-Novo. Lila, uma das personagens centrais da Tetralogia Napolitana, de Elena Ferrante, está prestes a vivenciar, pela primeira vez, o que a autora batiza de desmarginação: um processo feroz em que, por alguns instantes, tudo perde o contorno. Naquela virada de ano, a personagem se transforma de forma integral, como uma alegoria dos novos tempos que, invariavelmente, vão chegar.

Na literatura, porém, o tema da renovação raramente se limita à ideia de “transformação pessoal” ou é entendido como uma superação imediata. Nas palavras das escritoras Lygia Fagundes Telles, Miranda July, Maya Angelou, Dolores Reyes, a renovação ganha corpo em experiências concretas. Se observam, então, acontecimentos como um divórcio que reorganiza a vida, um processo de luto que suspende a rotina ou a emergência de um desejo que instiga a busca por aquilo que, muitas vezes, ainda não tem nome.

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É justamente após um percurso tortuoso que Virginia, protagonista de Ciranda de Pedra (1954), chega ao fim de sua jornada disposta a seguir em frente. No romance, Lygia Fagundes Telles constrói esse movimento com delicadeza, oferecendo ao leitor uma passagem final em que a despedida de um amor não se confunde com a escuridão absoluta:

“É preciso, meu amor. A despedida não pode se arrastar, ficaria dolorida demais.

E vendo que ele se dispunha a acompanhá-la pela vereda das árvores, deteve-o:

Fique exatamente aqui onde está. No meio do caminho eu me voltarei para vê-lo assim, debaixo deste resto de sol. Quero levar isto comigo, entende? E assim saberei que ainda é dia.”

Seguir adiante não é esquecer totalmente do passado

A ideia de seguir adiante sem ignorar que é impossível esquecer totalmente o passado reaparece em O ano do pensamento mágico (2005), da estadunidense Joan Didion. Nesse livro, a autora aborda a renovação a partir do luto e da recusa. A morte do companheiro John Gregory Dunne rompe a vida que Joan conhecia, e o texto se organiza em torno do esforço de compreender, ou ao menos registrar, essa nova forma de encarar o cotidiano. 

Na obra, traduzida no Brasil por Marina Vargas, não há superação no sentido fácil do termo. O que vemos é a lenta constatação de que viver, depois da perda, exige aceitar uma realidade fraturada, na qual a escrita se torna, para Joan Didion, um gesto de permanência.

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Uma tensão entre rupturas e continuidades de uma vida em transformação também atravessa De quatro (2024), de Miranda July. No romance, acompanhamos uma mulher em trânsito. Ela se afasta da rotina doméstica e para de ignorar desejos antes reprimidos ao se instalar, sozinha, em um quarto de hotel à beira da estrada. 

Lançado no Brasil com tradução de Bruna Beber, o livro de Miranda July recusa respostas claras e aposta na ambiguidade, já que, nesse caso, renovar-se é se deparar com questões como a monogamia, a maternidade e a certeza da impossibilidade de voltar a ser quem se era.

O gesto de retorno, por sua vez, também estrutura Mamãe e eu e mamãe (2018), de Maya Angelou. Ao revisitar a própria trajetória e narrar o reencontro com a mãe, a autora constrói uma renovação ancorada na memória. Nesse livro de não ficção, Maya descobre mais sobre si, sobre sua família e sobre sua mãe, a empresária Vivian Baxter, com quem voltou a morar apenas aos 13 anos.

Estamos falando de finais felizes?

A chegada de novos tempos, ou mesmo de novas perspectivas, pode ser pensada, então, a partir da lógica do final feliz, tão mobilizada nas artes? Talvez. Em alguns desses livros, o desfecho não é exatamente o mais importante. A trajetória construída sugere que os percursos de desilusão ou de superação raramente são lineares e quase nunca são simples.

No caso de Belo mundo, onde você está (2021), a irlandesa Sally Rooney constrói a relação entre duas amigas a partir da troca, sobretudo, de e-mails. Nesse vaivém de confidências, encontramos uma apatia profunda e a desilusão de um presente em que as emoções e a estética parecem cada vez mais capturadas pela lógica do capitalismo. 

Ainda assim, sem negar esse horizonte, Sally Rooney permite que algo se mova no fim do livro: Eileen e Alice aparecem com maior estabilidade e abertura, o que pode ser lido como um aceno ao repertório dos finais felizes.

Por outro lado, esse tipo de estratégia narrativa muitas vezes não faz sentido. Em Escute as feras (2021), da francesa Nastassja Martin, a renovação nasce do choque. Após sobreviver a um ataque de urso na Sibéria, a antropóloga reflete sobre o encontro entre humano e animal, civilização e natureza, identidade e alteridade. A experiência produz uma ruptura irreversível, e o livro se organiza como uma tentativa de habitar esse entre-lugar em que nada retorna ao que era antes.

Possibilidades entre o final feliz e narrativas sem conclusão

Nesse caminho entre um final feliz e uma narrativa naturalmente inconclusiva, surgem outras possibilidades, como em Cometerra (2019), da argentina Dolores Reyes. A protagonista carrega um dom clarividente: ao ingerir a terra, entra em contato com pessoas, sobretudo mulheres, desaparecidas. 

Depois de uma jornada marcada pela ajuda a familiares que buscam por entes queridos, ela decide romper com o passado e partir para o “mundo lá fora”, em busca de um espaço onde possa construir um novo nome para si. Ainda que não seja exatamente um final feliz, há algo de esperança nessa escolha de Dolores.

Sensação semelhante surge no fim de Dias de abandono (2002). Aqui, voltamos a Elena Ferrante, num romance em que um processo de divórcio não inaugura uma vida nova. Ao contrário, lança a protagonista em um estado de suspensão quase animal, no qual o próprio tempo parece perder sentido. É nesse esgotamento que algo começa a se reorganizar. Para Olga, sozinha com dois filhos e um cachorro deixado pelo ex-marido, a renovação se dá como um retorno gradual ao corpo, à linguagem e ao mundo.

Esses livros, que não oferecem fórmulas para o recomeço, propõem a compreensão de que a renovação, na literatura escrita por mulheres, raramente é limpa ou definitiva. Ela se constrói aos poucos, em meio a perdas, desvios e insistências, justamente nos pontos de fricção onde as possibilidades da vida, da escrita e da novidade podem se instaurar.

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Confira as dicas para 2026

O ano do pensamento mágico (2005), de Joan Didion, trad. Marina Vargas: Um livro sobre o luto como processo de reorganização da vida após uma perda irreversível.

Dias de abandono (2002), de Elena Ferrante, trad. Francesca Cricelli: O romance mostra como a renovação pode emergir de um colapso emocional. Nesse caso, provocado pelo fim de um casamento.

Cometerra (2019), de Dolores Reyes, trad. Eliza Menezes: Uma narrativa argentina em que, no fim, deixar o lugar de origem se torna a possibilidade de construir uma nova identidade.

Belo mundo, onde você está (2021), de Sally Rooney, trad. Débora Landsberg: No terceiro romance de Sally Rooney, vemos a possibilidade de apostar em vínculos interpessoais mesmo em um mundo marcado pela desesperança.

Escute as feras (2021), de Nastassja Martin, trad. Camila Vargas Boldrini e Daniel Lühmann: A renovação aparece como uma transformação radical após o ataque de um urso na Sibéria, uma experiência que altera para sempre a identidade da autora.

Mamãe e eu e mamãe (2018), de Maya Angelou, trad. Ana Carolina Mesquita: Nessas memórias, vemos a escrita como forma de revisitar o passado e retrabalhar laços familiares.

De quatro (2024), de Miranda July, trad. Bruna Beber: O romance  mostra um deslocamento físico e emocional que abre espaço para questionar desejos, escolhas e formas de viver.

Ciranda de Pedra (1954), de Lygia Fagundes Telles: O amadurecimento da protagonista Virgínia surge como possibilidade de seguir em frente sem apagar as marcas da infância.

*Ana Clara Pecis é mestranda em Estudos Literários na UFJF e historiadora formada pela UFRJ. Sua pesquisa se concentra na literatura produzida por mulheres na Argentina nos últimos 60 anos. Cercada de livros desde a infância, enxerga a literatura como um espaço de livre criação, onde imaginação e memória se entrelaçam. Em 2020, fundou o História Guardada.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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